O vazio existencial na contemporaneidade

Humor: uma vacina de prevenção do sentido

Quantas vezes você sorriu hoje?

Talvez você leia essa pergunta e automaticamente torça o nariz, julgando que virá um texto motivacional ou dica para manter a positividade em tempos difíceis. Talvez você se lembre de que não tem sorrido muito ultimamente, por não estar vendo graça nas questões de saúde pública, nem na política ou nas notícias catastróficas que chegam até seus ouvidos e olhos – e não tem graça mesmo. Mas pode ser que essa questão te convide a se inquietar com a diminuição ou a falta de sorrisos no seu dia a dia; e a refletir se “sorrir” não tem sido constante porque você não tem tido motivo para tal ou por não ter buscado esse estímulo.

Um simples sorriso é capaz de provocar uma resposta imunológica do nosso organismo, liberando neurotransmissores, reduzindo pressão arterial, relaxando tensões e dores físicas e emocionais. Mesmo um sorriso induzido, ou seja, sem um motivo aparente, já produz esses efeitos. Sorrir é como uma vacina que estimula nosso organismo a produzir humor, desenvolvendo uma “memória imunológica” que nos predispõe à alegria e ao bem-estar. Não se trata de manter a positividade a qualquer custo, mas de entender a questão do humor como fator preventivo psicoemocional – um fator de autopreservação importante e acessível a todos.

Trago aqui a perspectiva do humor para a Logoterapia, de Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco que usou desse recurso para atravessar a experiência extrema que viveu no contexto da Segunda Guerra Mundial, em campos de concentração. Esse tema é tão relevante que, em seu livro autobiográfico mais conhecido, Em busca de sentido, há um capítulo dedicado à vivência do humor naquele ambiente. Nessa obra, conta que combinou com um colega de campo, cirurgião de profissão, de criar pelo menos uma piada por dia, fazendo referência não só ao presente difícil que estavam sentindo na pele, mas especialmente a um cenário imaginário futuro, relacionado à prática médica compartilhada por ambos. O contraste de percepções entre o que é terrível e o que é engraçado é expressão da capacidade do ser humano de relativizar o sofrimento e, portanto, de ressignificá-lo:

A vontade de humor – a tentativa de enxergar as coisas numa perspectiva engraçada – constitui um truque útil para a arte de viver. A possibilidade de optar por viver a vida como uma arte, mesmo em pleno campo de concentração, é dada pelo fato de a vida ali ser muito rica em contrastes. E efeitos contrastantes, por sua vez, pressupõem certa relatividade de todo sofrimento.” (Frankl, 2008, p. 63).

O humor, entendido como estado afetivo com efeitos positivos, como riso e alívio, remonta à teoria do século 19, como a visão de Freud sobre uso do humor como resposta à censura. Além dessa fonte, Frankl também bebe dos clássicos, como Aristóteles, que aponta a forma da piada, dos trocadilhos e da zombaria como resultado da visão de superioridade de um indivíduo em relação a algo, alguma situação ou alguém. Tanto assim que ele indica o humor como “arma da alma” mais eficaz para “criar distância e permitir que a pessoa se coloque acima da situação, mesmo que somente por alguns segundos” (Ibidem, p. 62).

Trata-se de uma habilidade que envolve alguns movimentos internos (esforços psíquicos) e que, muitas vezes, é banalizada como besteira, perda de tempo ou que carece de inteligência e sentido. A psicologia, especialmente a visão logoterapêutica, mostra que é justamente o contrário disso. Tanto a percepção quanto a criação de algo que tem graça envolvem algumas habilidades, como distanciamento de si e do problema vivido, aceitação do que se apresenta, criatividade e senso crítico.

O humor também é um recurso terapêutico quando fortalece relações por meio de identificação entre pessoas que compartilham da mesma situação. Na experiência de Frankl, diante do sofrimento inevitável e da condição limitada nos campos de concentração, para todos os prisioneiros, o humor se tornou um dos únicos remédios disponíveis. Na prática clínica, recebo pacientes que enfrentam situações-limite de falta de sentido na vida, por múltiplos motivos, entre eles luto, doenças, estresse traumático, e, nestes tempos, também por efeito da pandemia. É nesse espaço que observo a ação do humor e experimento seu potencial de promover grandes mudanças. Isso porque esse recurso tem a capacidade de manter o indivíduo no tempo presente, sem negacionismo (ou seja, sem fingir que não está acontecendo o que de fato está, no caso, produzindo sofrimento) e, ao mesmo tempo, sem tentar combater de forma autodestrutiva uma situação que não pode mudar. Move o indivíduo, portanto, do lugar da indiferença e do combate em relação à situação de sofrimento e o coloca, mesmo que temporariamente, num lugar de alegria, otimismo, leveza. E, nesse estado, torna-se possível buscar sentido no que está ao alcance, para viver minimamente bem. Quando o humor ativa a alegria, é como se uma luz acendesse e conseguíssemos criar e nos conectar com nossa força para lidar com qualquer adversidade.

E o melhor de tudo é que o humor está disponível, ao alcance de todos – está nas pequenas alegrias. É o que a logoterapeuta Elisabeth Lukas nomeou como “enigma da pequena felicidade”:

“’Pequena’ porque a grande felicidade não nos compete. Não permanentemente. Não sem sedução. Não sem danos. Nossa espécie não se dá bem com ela, faz-lhe mal. […] A pequena felicidade, ao contrário, é de natureza calma e estável. Tem a ver com paz, harmonia e unidade entre aquele que a encontra e o objeto encontrado. Não é algo que move o mundo, move somente um coração.” (Lukas, 2012, p. 171-2)

O que move somente o seu coração hoje? O que te emociona? O que te faz sorrir? E gargalhar? Pequenas alegrias podem ser compartilhadas, mas o enigma a que Lukas se refere é esse encontro individual com as pequenas felicidades de cada um. É esse exercício contínuo que nos ajuda a viver na imprevisibilidade da vida, aceitando-a incondicionalmente, especialmente nos momentos em que nos sentimos impotentes diante dela.

O convite aqui é cultivar sua vacina de alegria no dia a dia, uma “injeção de ânimo” (como diz a expressão popular), neste período cinza que atravessamos juntos, à espera da vacina contra a Covid-19. Não se trata, porém, de se alienar com o humor, nem de diminuir a seriedade dos sofrimentos coletivos e individuais, mas de acessar nossa força, reavaliar nossos hábitos, agir a partir do que está ao seu alcance e preservar a saúde mental e emocional para que possamos sair desta experiência com otimismo. A “vacina” do humor e das pequenas alegrias é uma proposta logoterapêutica preventiva para a saúde, a partir da preservação do sentido da e na vida.

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

GOMES, Débora. Encontre o bom humor. Revista Vida Simples, 17 mar. 2019. Disponível em: https://vidasimples.co/ser/encontre-o-bom-humor/

LUKAS, E. Psicoterapia em Dignidade: orientação de vida baseada na busca de sentido de acordo com Viktor E. Frankl. Tradução de Helga H. Reinhold. – 1. ed. São Paulo – SP.

SILVEIRA, Daniel Rocha; MAHFOUD, Miguel. Contribuições de Viktor Emil Frankl ao conceito de resiliência. Estudos de Psicologia, Campinas, 25(4), p. 567-76, 2008.

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Imagem: A Morte de Sócrates/Jacques-Louis David (1787)

Sobre o autor

Francisco Carlos Gomes

Psicólogo Clínico e Logoterapeuta. Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Fundador e diretor clínico do Núcleo de Logoterapia AgirTrês. Coordenador do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ