Comportamento político

As teletelas entre os nossos dedos

No ano de 1949, ainda sob o efeito do aparente desfecho das grandes guerras e dos destroços dos regimes totalitários, o escritor e ensaísta inglês Eric Arthur Blair, mais conhecido por seu pseudônimo George Orwell, publica, antes da sua morte, uma das suas mais brilhantes e grandiosas obras, 1984. Um romance futurista distópico que conta a história do personagem angustiante Winston Smith, indivíduo que se encontra preso em um processo histórico sombrio, em meio às vivências distópicas de uma sociedade totalitária, na qual o Estado detém – ou busca ter – o comando total sobre os indivíduos. Uma das figuras que mais se destaca na obra é o “Big Brother”, a personificação de um domínio total, que mantém o controle sobre a sociedade, a fim de assegurar o poder hegemônico do Estado. Fato é que o livro 1984 se constituiu como um grande clássico que transpôs as linhas que tradicionalmente separam – ou separavam – o espectro político da direita e da esquerda.

O escritor italiano Ítalo Calvino, em seu livro Por que ler os clássicos, nos ensina que devemos ler os clássicos porque eles têm sempre algo a nos dizer. E, sem dúvidas, o romance de Orwell nos diz muitas coisas, mas penso que a obra nos ofereça mais questionamentos do que respostas. Os personagens se ressignificam com as rupturas ou continuidades dos processos históricos, e, para além da própria obra, percebe-se que a figura do “Big Brother” pode lançar luz à realidade atual, tendo como base alguns fenômenos.

A distopia orwelliana se torna real, pelo menos em parte, quando analisamos alguns aspectos do que atualmente denominamos como o fenômeno da cultura do cancelamento, sendo: o desejo e a busca pelo controle total dos pensamentos, ideias e comportamentos que não provêm mais de um Estado, como na obra, mas dos próprios indivíduos e usuários das redes sociais, tal qual a conversão e utilização das redes como um campo de expressão dos afetos. Mas afinal quais seriam as possíveis motivações desse fenômeno que, direta ou indiretamente, busca uniformizar diferentes vozes num ambiente virtual? Em que medida pode-se considerar a existência de um aspecto total, que marca essa indisposição em compreender o “outro“? E por que a conscientização dos usuários quanto a temas como racismo, intolerância, entre outros, se converteu numa cultura tão nociva e intolerante a indivíduos com ideias inabituais e diferentes? Há mais perguntas do que respostas.

O Macquarie Dictionary, responsável por eleger anualmente termos e expressões que mais marcaram e formaram o comportamento humano, elegeu a “cultura do cancelamento” como o termo do ano de 2019. Conforme a nota divulgada, que justifica tal eleição, os responsáveis pelo Dicionário afirmam que dita cultura consiste em “um termo que captura um aspecto importante do estilo de vida deste ano. Uma atitude tão persuasiva que ganhou seu próprio nome e se tornou, para o bem ou para o mal, uma força poderosa“. Esse fenômeno, que não visa apenas cancelar uma atitude ou ideia demonstrada por um indivíduo – mas de forma literal almeja cancelar o próprio indivíduo enquanto sujeito –, pode ter uma gênese muito diferente do que comumente compreendida.

O filósofo e ensaísta sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro No enxame: perspectivas do digital, traduzido e publicado aqui no Brasil pela Editora Vozes, busca diagnosticar o fenômeno do digital em nosso tempo, assim como suas implicações nas dinâmicas em sociedade. Byung afirma que “embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital” e que estamos sendo “desprogramados por meio dessa nova mídia“. Segundo o autor, as mídias digitais inauguraram novas dinâmicas que “[…] transforma[m] decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto“. O pensador identifica que as mudanças ocorridas nas relações em rede acompanham ou podem ser fruto de um processo de transformações ocorridas no comportamento e mentalidade das sociedades.

Mas o que poderia ser o grande motivador dessa mudança causada pela “revolução digital”? Byung-Chul Han aponta a falta do respeito como um dos fatores que têm transformado as relações em sociedade. Ao contrário da ideia genérica que muitos possuem, respeito (respectare) “pressupõe um olhar distanciado, um phatos da distância. Hoje, ele dá lugar a um ver sem distância característico do espetáculo. […] O respeito exige distância“. Nas mídias, cancelam-se não apenas as ideias e comportamentos, mas um “tu“, talvez, por não conservarmos uma condição distanciada, que exige e nos proporciona, além do próprio respeito, a percepção de compreensão das ideias do outro, o tempo para o amadurecimento das discordâncias e do diálogo, além do questionamento do pensamento que só permite duvidar das ideias alheias, e nunca das próprias.

Tal perda do distanciamento caracteriza não só a polarização nas redes, como também o comportamento político que se prolifera no tempo presente fora delas. Os estudos e análises dos dados empíricos nos ajudam a perceber que a cultura do cancelamento ainda reflete uma polarização do “nós” em detrimento do “eles“. As ondas de indignação ocorridas nas redes (“Shitstorm”), segundo o pensador Sul-coreano, aniquilam o respeito, na medida em que o “digital aniquila a ambos a favor de uma ausência de afastamento“. Interessante notar que tal ausência de afastamento contradiz a própria essência de um regime como a democracia, em que o plural e o diálogo são pilares fundamentais. Sendo assim, perde-se tanto o exercício do debate, como também a oportunidade e a liberdade de discordar do que é posto nas discussões.

Muitos casos, apesar de suas particularidades, demonstram algo em comum: a expressão de opiniões e ideias inabituais nas redes não são aceitas, e logo necessitam ser justificadas. Foi o que aconteceu com o rapper, cantor e compositor norte-americano Kanye West. Durante as eleições presidenciais norte americanas, o rapper manifestou em uma das redes sociais, o twitter, o seu “apoio e amor” pelo então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Logo em seguida, o rapper foi cancelado e linchado virtualmente, pelos demais usuários, por sua inclinação política. O caso de cancelamento alcançou tamanha proporção, ao ponto de sua esposa, a personalidade pública Kim Kardashian, ir às redes justificar a conduta e fala do marido, pedindo aos usuários das mídias “compaixão e empatia” pelos comportamentos considerados “erráticos” do rapper. Questões como essa oferecem questionamentos a respeito dos indicadores do comportamento político atual: em que medida a perda do exercício do debate e compreensão, por meio da cultura do cancelamento, não se configura como uma seletividade do que deve ser aceito ou não nas redes pelos grupos? E qual o papel que os afetos, o rancor, o ódio desempenham nos cancelamentos e ondas de indignação? Seriam eles os maiores norteadores?

A comunicação digital toma não apenas forma espectral, mas também viral“, diz Han, “Ela é contagiante na medida em que ela ocorre imediatamente em planos emocionais ou afetivos. O contágio é uma comunicação pós-hermenêutica, que não dá verdadeiramente nada a ler ou pensar. Ela não pressupõe nenhuma leitura, que se deixa acelerar apenas de maneira limitada“.

Quando se perde o respectare, o olhar distante, como nas redes, emerge uma linha tênue entre o diálogo racional e prudente, seguido de críticas construtivas, e as ofensas munidas de linchamentos movidos pelo ódio. Muitos cancelamentos revelam quão sedutor é pertencer a um grupo ou coletivo, de acordo com o crivo identitário, mesmo que isso signifique reduzir a liberdade de expressão e a individualidade do próprio sujeito. Os indicadores de escolha política considerados heterodoxos – escolha que também orienta as ações dos usuários nas redes – desempenham um papel maior e mais acelerado do que muitos pensam.

Assim como o filósofo sul-coreano, o ensaísta George Orwell tem muito a nos oferecer quando tentamos identificar os “limitadores” da liberdade de expressar inclinações e preferências dos indivíduos – em especial de cunho político – nas mídias digitais. Na obra orwelliana, estão presentes as “teletelas”, tecnologia de telecomunicação bidirecional, onde o “Big Brother” habita e de onde vigia diariamente a conduta dos indivíduos. A liberdade, diz Winston, é desfrutar da “liberdade de dizer que dois mais dois são quatro“. Mas, atualmente, tal sentido de liberdade não estaria sendo desvirtuado pela seletividade e vigilância acima citada? Os discursos políticos dentro e fora das redes indicam um certo manual de comportamento normativo, no qual algumas ideias, expressões, e preferências são dogmatizadas enquanto outras dignas de serem canceladas?

Vivemos hoje“, continua Byung-Chul Han, “em uma fase histórica especial, na qual a liberdade, ela mesma, provoca coações. A liberdade é, na verdade, a figura oposta da coação. Agora, essa figura oposta produz, ela mesma, coações. Mais liberdade significa, assim, mais coação. Isso seria o fim da liberdade“. Tal afirmação feita pelo filósofo sintetiza bem essa peculiar contradição existente nas posturas de muitos indivíduos ante as mídias digitais. As últimas eleições presidenciais no Brasil evidenciaram tal fenômeno. As eleições, ocorridas no ano de 2018, trouxeram à tona uma nova característica presente nas redes sociais, inclusive em plataformas como o Facebook e twitter. Numa atmosfera semelhante à do romance orwelliano acima mencionado, durante tal período de eleição, publicar conteúdos de cores verde e amarela ou vermelha era sinônimo de estar num lado de uma acirrada polarização política, decisivo para o público saber se você está do lado certo ou não.

Apesar das possíveis causas múltiplas desse novo fenômeno, é necessário mencionar que muitos dos indicadores pertencentes à cultura do cancelamento são característicos do comportamento político que emerge no tempo histórico presente. Cada vez mais, percebe-se uma sociedade que se desprograma para o diálogo e respeito. Sendo assim, é de fundamental importância identificar e compreender as fontes, estruturas e mecanismos que tornam possível tal fenômeno. A História, assim como o conceito de Comportamento Político, contribui para um entendimento mais amplo sobre as continuidades e rupturas do passado – não só no campo estritamente político –, que influenciaram – e influenciam – o agir do homem no tempo.

A “vigilância e o controle são uma parte inerente da comunicação digital“, e, na sociedade da vigilância digital, as “teletelas”, descritas por Orwell, se encontram entre nossos dedos e ao nosso redor observando todo o tempo as nossas inclinações e condutas, capazes de orientar o comportamento e influenciar decisões fora das telas dos smartphones, incluindo escolhas perante as urnas.

Referências bibliográficas

Fonte da notícia: https://www.macquariedictionary.com.au/resources/view/word/of/the/year/2019

Han, Byung-Chul. No Enxame: perspectivas do digital; tradução Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.

Orwell, George. 1984; tradução Alexandre Hubner, Heloisa Jahn. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Imagem: Heraldo Galan, sobre cartaz cenográfico do filme 1984, de Michael Anderson (1956)

Sobre o autor

Thiago Oliveira

Graduando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Integrante do Grupo de Pesquisa em Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.