Comportamento político

Mais do mesmo, sempre

As pesquisas de opinião continuam a revelar que, mais e mais, permanecemos nas bolhas de mídia, somente tomando contato com informações com as quais concordamos, ou então vivendo o sonho de estarmos aprofundando mais um assunto quando, na verdade, não estamos. Já tivemos a oportunidade de demarcar essa posição e sinalizar que nos mantemos sempre em contato com as ideias, os temas e os assuntos com os quais temos identificação de viés.

Sabemos que essa posição não é diretamente mencionada – ou ao menos não se nota franqueza em se apontar que se pensa assim. Pode ser que perguntas nessa direção é que não estejam sendo feitas, mas é sabido que somente informações concordantes são buscadas, e que, muito dificilmente, se vai atrás daquilo que está na posição oposta ao que pensamos. Tal postura se encontra distante daquela suposta nas aspirações iluministas mais idealizadas e que vislumbravam a possibilidade do convívio de pessoas que se encontrassem em posições ideológicas antagônicas. No entanto, parece muito difícil que isso ocorra de um modo diferente. Poucos e esporádicos casos na história não confirmaram esse entendimento.

É por isso que não chegam a ser surpreendentes os resultados da pesquisa realizada pelo Pew Researche Center, About one-fifth of Democrats and Republicans get political news in a kind of media bubble (Quase um quinto dos Democratas e Republicanos informam-se sobre política num tipo de bolha de mídia). Mark Jurkowitz e Amy Mitchell publicaram os resultados em 4 de março de 2020. Os participantes foram perguntados por trinta diferentes fontes de meios de comunicação – sendo que a pesquisa mapeou tanto aqueles que se declaravam partidários de um lado ou do outro, quanto as pessoas que tivessem inclinações políticas Democratas ou Republicanas.

Alguns dos resultados, em especial, chamam a atenção e interessam a quem se dedica à pesquisa em comportamento político. Por exemplo: mais Republicanos veem suas fontes do que o fazem os Democratas; há um número menor de meios de comunicação com perfil e alinhamento com a direita e maior oferta daqueles que têm identidade com a esquerda; com relação aos perfis dos respondentes, observa-se que os Republicanos são mais velhos e religiosos, enquanto os Democratas apresentam a tendência de serem mulheres, mais jovens e graduados.

Já replicamos aqui resultados próximos desses em relação aos perfis das pessoas identificadas com um ou outro espectro político, e o mesmo já foi destacado em relação ao fato de muito dificilmente conseguirmos sair de uma bolha. Mas o caso que mais nos deteve nessa última pesquisa foi o seguinte: a maior oferta de meios de comunicação com inclinações editoriais de esquerda. Para nós, brasileiros, esse dado oferece também perspectivas de reflexão e ponderação.

Um dos alvos preferidos das hostes de direita, em ação na política nacional, tem sido a parcela da mídia que se aproxima mais do viés de esquerda. Percebemos que esses órgãos estão sob constante ataque, no que diz respeito às falas mais contundentes inclusive dos ocupantes dos cargos públicos no executivo ou legislativo. Observamos também que as reações da mídia costumam reforçar a identificação dos seguidores daqueles que primeiramente agrediram repórteres ou a linha editorial do respectivo meio de comunicação.

No entanto, de modo parecido com o que apontou a presente pesquisa realizada nos Estados Unidos, temos aqui a impressão de uma presença maior de órgãos de imprensa mais afinados com o que se julga ser uma pauta de esquerda. E, mais ainda, com causas, abordagens ou referências que se aproximam deste viés de identificação. Ao que parece, os meios de comunicação, principalmente aqueles que dependem do domínio de um repertório informativo mais robusto – e que costuma ser oferecido para aqueles que tiveram uma educação formal mais cara –, aproximam-se deste tipo de vertente política.

Há então uma situação reincidente: os mais ricos formam-se nas escolas que dispõem de mais repertório e que é oferecido por professores que se aproximam muito, do ponto de vista cultural, dos alunos e alunas de suas salas de aula. Os alunos formados nessas escolas entram nas universidades de ponta do Brasil, as públicas e as privadas melhor colocadas nos rankings acadêmicos. Não temos pesquisas específicas para sinalizar o que apontaremos – apenas intuição – mas pode ser que haja relações entre renda, oferta e contato com repertório de humanidades, escolha de profissões e afinidades políticas em relação a um ou outro espectro político. E, então, fecha-se o círculo.

O Grupo de Pesquisa em Comportamento Político se propõe ao encaminhamento de discussões prévias que possam conduzir a pesquisas capazes de nos abastecer de dados sobre a hipótese aqui apresentada.

Imagem: exposição “Mulheres no espelho” (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.