O vazio existencial na contemporaneidade

A dignidade no núcleo de todas as questões

Claudio Garcia Pintos e Viktor Frankl

Entrevista com Claudio Garcia Pintos

Claudio Garcia Pintos é licenciado e doutor summa cum laude em psicologia pela Pontífica Universidade Católica Argentina. Professor universitário desde 1980 na UCA, universidade em que teve vários cargos diretivos, é também professor na Universidade Austral da Argentina, docente convidado em universidades do Brasil, Equador, Colômbia e Peru. Professor em mestrados e pós graduações em Logoterapia em toda a América Latina, além de conferencista. Autor de 22 livros publicados na Argentina, Brasil, México e Espanha, dentre os quais “Un hombre llamado Viktor” (sem tradução no Brasil). Fundador da CLAE UCA, primeiro centro universitário de Logoterapia do mundo, do qual atualmente é diretor honorário. Diretor da CAVEF (Cátedra Aberta Viktor Emil Frankl) e da LOGORED (newsletter digital sobre Análise Existencial e Logoterapia). Fundador e presidente da FUCLAE (Fundação Centro de Logoterapia e Análise Existencial). Vice-presidente da GENERARTE, associação civil que trabalha pelo aprimoramento pessoal através da arte. É também membro de vários comitês científicos de associações e publicações sobre sua especialidade, membro do comitê científico da MFA (Medical Viktor Frankl Association) de Viena. Colaborador do programa Scholas Occurrentes, uma organização vaticana fundada por SS. Francisco.

Sua proximidade e convívio com Viktor Frankl permitiram que desenvolvesse um trabalho de grande relevância sobre o sentido da vida e a Análise Existencial. Atualmente, segue produzindo e participando de debates, apresentações e reflexões sobre Logoterapia e o sentido na contemporaneidade. Como profundo conhecedor da história e do pensamento do neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, Claudio Garcia Pintos personifica a coerência e a responsabilidade (marca da vida e obra de Frankl) além de abordar o sentido de humanidade, na escrita ou na fala, com igual consistência.

O grupo de pesquisa “O vazio existencial e as possibilidades de realizar sentido”, coordenado por Francisco Carlos Gomes (mestre em psicologia social e Logoterapeuta) e representado pela pesquisadora Kelma Mazziero (pós graduada em Ciências da Religião) teve a oportunidade de entrevistar Claudio Garcia Pintos, a fim de apresentar ao público parte do conhecimento desse autor e especialista, tão relevante e necessário no contemporâneo.

Como foi sua experiência de proximidade e convivência com Viktor Frankl?

Meu primeiro contato com Viktor Frankl foi no ano de 1978, através da minha professora Martha Iglesia. Ela me abriu a possibilidade de ler o livro de Eugenio Fizzotti, “De Freud a Frankl”, e a partir desse momento dediquei minha vida profissional e de estudo à Análise Existencial e Logoterapia de Viktor Frankl. Isso foi há mais de 40 anos.

Pessoalmente, pude ter contato com ele em 1985, em ocasião de sua visita a Buenos Aires, graças à Martha Iglesia. Desse momento até sua morte, em 1997, mantive com ele e sua família, contato pessoal. Desde 1997 até esta data, conservo essa relação, especialmente com a Sra. Elleonore Frankl.

Pude trocar correspondências de todo tipo, trocamos material etc.

O que te motivou a escrever sobre a vida de Viktor Frankl e como se deu sua pesquisa para poder escrever “Un hombre llamado Viktor”?

Sempre me interessaram a vida e a obra de Frankl. Especialmente pela profundidade de sua obra e a coerência com sua vida pessoal. Inicialmente escrevi uma breve biografia em um livro intitulado “Viktor Frankl, la humanidad posible” (este livro foi publicado na Argentina, no México e no Brasil). Porém, logo quis seguir aprofundando-me em sua vida e me lancei numa investigação permanente (que ainda hoje continua), abordando o estudo de aspectos distintos de sua história pessoal. O estudo de seus hobbies, sua religiosidade, o motivo das dedicatórias de seus livros etc. Em uma viagem a Viena, tive a chance de reunir muitos dados, e inclusive dialogar com Elleonore, sobre a vida de Viktor, podendo assim completar a informação publicada no livro “Un hombre llamado Viktor”. Meu interesse é deixar claro que se trata de um homem comum, que pôde viver uma vida extraordinária, e que, se ele pôde fazer isso, todos poderíamos fazê-lo.

Como a investigação continua, se hoje voltasse a escrever esse livro, seguramente incluiria muito mais informações. Possivelmente em algum momento volte a abordar este tema (a vida de Viktor) numa nova obra.

Como surgiu a FUCLAE (Fundação Centro de Logoterapia e Análise Existencial) e quais os principais objetivos dessa Fundação?

A FUCLAE surge como uma ramificação da CLAE UCA, com a intenção de poder atuar com independência da UCA. Toda grande organização, como a UCA, tem seus prazos burocráticos e necessitávamos de mais liberdade de ação. Os membros fundadores da FUCLAE são os mesmos que integravam a CLAE UCA e, em sua totalidade, são colegas que há anos vêm trabalhando comigo e se especializando em Logoterapia.

A intenção é sempre o estudo, aprimoramento e a difusão do pensamento Frankliano, com a maior fidelidade possível. Há muitas propostas que se autodenominam franklianas e que não passam de distorções da obra de Frankl. Ainda assim, procuramos oferecer formação. Organizamos congressos latino-americanos nessa especialidade, em Buenos Aires, desde o ano de 2005, com frequência bianual, constituindo-se assim em um evento referência para a comunidade logoterapêutica internacional.

Em sua concepção, quais os elementos que podem nos ajudar a resgatar o sentido de humanidade no contemporâneo?

Seria oportuno recuperar o espírito frankliano, e voltar a colocar a pessoa e sua dignidade novamente no centro de nossos interesses. Se colocamos a dignidade humana como o centro da educação, da política, dos planos sociais, na economia etc., a vida nesta cultura contemporânea poderia ser vivida de forma muito mais significativa.

Privilegiar a pessoa, e tudo o que ela personaliza, seria o começo para reordenar uma cultura que, em todos os seus aspectos, parece desumanizar-se cada dia mais.

Como avalia a importância da perspectiva Frankliana sobre o vazio existencial na contemporaneidade?

Fundamental. Creio que o pensamento frankliano é um dos poucos que hoje possa ajudar o mundo a sair de sua confusão e misérias. Quando as pessoas vivem sem sentido, fazem coisas sem sentido. Quando a comunidade global vive sem sentido, todo o mundo age sem sentido. As pessoas não creem em valores, em ideais, em uma causa comum. Frankl fala do monantropismo* como uma resposta e estou convencido de que é a única para o mundo atual.

A situação atual de pandemia/quarentena, reflete isso de maneira contundente. Ou nos salvamos juntos ou cada um de nós morrerá sozinho.

*Monantropismo aqui é citado como “O saber em torno da unidade da humanidade, uma unidade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor da pele, quer as da cor dos partidos” (Frankl, Psicoterapia e sentido da vida, 2010).

Qual é o seu entendimento sobre o papel da Logoterapia atualmente e, para além disso, qual sua visão sobre o futuro da Logoterapia?

Reitero que o papel da Logoterapia é fundamental. Hoje mais que nunca. O New York Times relatou há algumas semanas que, dos dois livros mais lidos durante a pandemia, um deles é “Em busca de sentido”. Isso mostra que o homem hoje está buscando sentido e pode encontrá-lo através do pensamento frankliano.

Agora, sobre o futuro da Logoterapia, poderia dizer duas coisas:

  1. Por um lado, é absolutamente promissor. Há muitos anos, Frankl havia definido que acreditava que a América Latina era “o futuro da Logoterapia”, e estou convencido de que ele não se equivocou. O desenvolvimento da Logoterapia nessa região é formidável, especialmente na Argentina e no Brasil (na minha opinião, os dois pilares da Logoterapia na América). Mas também, e em menor escala, no México, Colômbia, Uruguai, Peru, América Central. Esse desenvolvimento não é visto na Europa ou nos Estados Unidos. Enquanto houver consciência humanística, a Logoterapia estará a salvo e nossa região ainda a conserva. Os aspectos sociais, culturais, econômicos e políticos que devemos resolver podem encontrar, na Logoterapia, recursos, ideias, soluções.
  2. Por outro lado, devemos proteger o pensamento frankliano de uma série de distorções a que tem sido submetido ultimamente. O progresso, crescimento e evolução da Logoterapia, não deve significar que se distorça seu espírito e seu conteúdo. Hoje, muitos creem que, ao colocar a palavra “logo” à frente de um conceito, já são franklianos. Sendo assim, podemos encontrar propostas que não são apenas equivocadas, mas sim acabam por ser desrespeitosas com o próprio Frankl. O futuro da Logoterapia também nos convoca a estarmos atentos para protegê-la desses excessos. Se não o fizermos, a Logoterapia acabará sendo bastante afetada.
Imagem: montagem sobre fotos de divulgação


Sobre o autor

Kelma Mazziero

Graduada em Direito, com pós graduação em Ciências da Religião (lato sensu). Pesquisadora do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.