Revista Laboratório 1

Pouco amor não é amor. Seria a falta de amor um demônio contemporâneo?

Resumo: Nelson Rodrigues foi um dos maiores dramaturgos dos nossos tempos. Adorava falar sobre amor e morte, duas coisas que atormentam nossa vida desde sempre. Pouco amor não é amor foi uma de suas frases famosas e, a partir dela, pensamos uma trajetória provocativa para tentarmos olhar com a minúcia necessária sobre o amor rodrigueano e o amor tal qual se apresenta hoje neste século XXI. Será que existe amor como nos tempos de Nelson Rodrigues, façamos a trajetória trágico-amorosa e vejamos se estamos mais para ceder ou fugir de um amor rodrigueano.
Palavras-chave: Amor. Comportamento, Nelson Rodrigues. Psicanálise. Literatura.

Introdução

No segundo semestre de 2018, fui convidada pelo Prof. Dr. Luiz Felipe Pondé para coordenar o primeiro Grupo de Estudos sobre Nelson Rodrigues no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. A ideia do grupo é instigar a curiosidade dos pesquisadores e, a partir de leituras, peças e filmes sobre o autor, elaborar, no decorrer dos estudos, textos e artigos para que Nelson Rodrigues – um dramaturgo que com uma extensa obra perpassa o tempo como todo e bom clássico – saia do soterramento de palavras taxativas que são dadas a ele de formas equivocadas.

O nosso anjo pornográfico, como Nelson é denominado, tem muito mais a dizer em suas entrelinhas do que possamos imaginar. Você já se perguntou por que Nelson Rodrigues perturba a tantos? O que será tão atemporal em sua obra que provoca a fervorosa dicotomia do ódio ao amor? O profeta que previu o óbvio ululante do comportamento humano pode nortear algumas respostas para inquietantes dúvidas que perturbam a tantos pelo mundo. Vale experimentar viver a vida como ela é!

Pouco amor não é amor

E, depois, não parou mais. Um mês, dois, três meses depois, ela dizia a mim e aos outros: – ‘Eu gosto cada vez mais de Mário.’ Para o que ama, a morte não interrompe nada. O amor continua nas profundezas, sim, nas profundezas onde estão as raízes do ser, crispadas como víboras. Gostar cada vez mais de um morto. Amá-lo a cada dia mais do que na véspera. Claro que, diante da grande dor, cada um age e reage como um idiota da objetividade. (RODRIGUES, 2007, p. 84-85)

Nelson Rodrigues, o Senhor das Palavras, alinhavou letras e afetos humanos com linhas que escorriam tragédia, o cheiro de amor e sexo estava sempre presente, ele parecia retirar suas ideias de baús mergulhados no inconsciente. A dor do amor e da morte foi tema em muitos de seus contos e peças, mas Nelson aprendeu realmente que “pouco amor não é amor” e está para além de título de livro no vivenciar a história de vida de seu irmão Mário Filho, um homem cujo amor continuou para além da vida e da morte.

Traça-se aqui um percurso para evidenciar um amor de verdade. Talvez, a violência do amor seja um demônio que atormenta a nossa contemporaneidade. O amor demanda perder-se de si, e nada melhor do que um trecho da própria vida de Nelson Rodrigues para exemplificarmos isso:

Eis o que eu queria dizer: – minha cunhada Célia, viúva do meu irmão Mário, morreu de amor. Sempre escrevo que todo amor é eterno; e, se acaba, não era amor. Lembro-me de uma festa a que comparecemos, eu e Lúcia, Mário e Célia. Foi em agosto, e Mário ia morrer em setembro, menos de um mês depois. E, então, comecei a dizer as verdades que me parecem eternas.

Cercado de risadas por todos os lados, pedi novamente a palavra: – ‘Um momento, um momento. Falo da viúva que ama. A outra não interessa.’ E de fato, a viúva que não ama é a da valsa, é a própria Viúva Alegre, de Franz Lehar. Tive a probidade de reconhecer que, em 99% dos casos, as viúvas são alegres. Era eu sozinho contra muitas. E terminei dizendo, por outras palavras, o seguinte: se a viúva amava o falecido, o segundo matrimônio passa a ser o adultério com guaranás, salgadinhos e convidados. (RODRIGUES, 2007. p. 83-84)

Entre Mário Filho e Célia, o amor era digno de um daqueles romances russos, sempre companheiros, lado a lado, de amor eterno e incansável, e como fruto desse amor nasceu um único filho – Mário Júlio Rodrigues (1928). Como poderia, de um amor eterno nascer alguém que deixou claro durante toda a sua vida que não queria ser um Rodrigues? O nome lhe pesava muito. Ele começou a revelar, aos dezessete anos, em 1945, o que viria a lhe comprometer a vida e a felicidade daquela família: o alcoolismo.

No início, quando jovem, parecia apenas um adolescente desenfreado em busca do todo e tomava altos porres, mas com o passar do tempo, tornou-se um bebedor trágico. Para Mário, seu filho parecia ter plena consciência de seu alcoolismo, já havia passado por todas as clínicas de reabilitação no Rio de Janeiro, era até capaz de palestrar sobre o tema, só não tinha forças para parar de beber.

Seu filho casou-se com uma bela moça chamada Dalila e com ela teve um menino – Mário Neto (1947), mas nem a vida nova o tirou da bebida. Curiosamente, até o fim, manteve uma relação adversária com seu pai e com todos os tios, exceto Paulinho, quase da sua geração. “Era como se não quisesse ser um Rodrigues — o que ele era, por dentro e por fora, inclusive na admiração por Dostoiévski, que relia completo todo ano.” (CASTRO, 1992, p. 348).

Mário Filho atribuiu ao seu filho bem poucas funções na redação do jornal, e fazer com que ele se sentisse vivo foi estratégia de um pai que não sabia mais como dar vida ao filho alcoólatra. Das inúmeras situações constrangedoras, quando Mario Neto aumentava (em muito) as suas crises, era chamada a ambulância e ele sempre se deixava levar docilmente. “Quando a ambulância se afastava, Mário Filho voltava lentamente para sua sala e ficava horas olhando para a parede, sem ver qualquer significado nos quadros e fotos que contavam a história dos seus quase quarenta anos de triunfos.” (CASTRO, 1992, p. 348).

Eu me lembro de Célia na morte de Mário. As viúvas que não amam e que apenas representam uma dor não sentida podem ficar altas, eretas, solenes hieráticas etc. Mas Célia me deu sempre a sensação que não estava de pé, que ia de queda em queda, que não parava de cair, como nos sonhos abismais. Houve um momento em que a fizeram sentar-se, junto ao caixão: – baixava a cabeça e assim ficou uma eternidade pendida de sonho. (RODRIGUES, 2007. p. 84)

Um jantar foi a última reunião de Nelson, Mário, Célia e alguns poucos amigos, em 16 de setembro de 1966. Lá pelas tantas, Mário pede à esposa um banco para apoiar a perna, uma simples câimbra o incomodava, e uma suposta dor no braço chamou atenção de Nelson, que de imediato pediu para falar com a irmã médica Stella, que o mandou ir rapidamente para uma clínica de Copacabana.

Lá se foram, a mulher, Célia, acompanhando seu amor, Mário. Nada de excepcional naquele momento, um médico o examinou perfunctoriamente e disse que ele não tinha nada. O desconforto parecia realmente anunciar algo, mas sem nenhum sucesso, o médico disse que não era necessário realizar um eletro e o mandou descansar em casa.

Nelson Rodrigues aguardava seu irmão em casa, ficou mais um pouco e foi embora na esperança de que Mário Filho dormisse e acordasse melhor no dia seguinte. Mas não houve o dia seguinte. Por volta das três horas da manhã, sentindo-se mal, ligou para seu médico particular e ele não estava, o telefone caiu-lhe da mão e ali morria o grande amor de Célia.

Quando meu irmão morreu, escrevi que o último rosto não mente, não finge, não trai. Também me curvei sobre o caixão de minha cunhada Célia. Fiquei olhando aquela paz que era mais êxtase do que sono. A morte foi para ela um retorno. Era o rosto da adolescência, o rosto do idílio. As feições dos 16 anos. Eu me lembro do instante em que meu irmão Augusto me disse, no telefone: – ‘Você soube de Célia? Aquilo que você previa aconteceu.’ Minha reação foi estupidamente convencional. Era uma irmã que eu perdia. Mas, quando a vi, no caixão, percebi toda a verdade: – nenhuma mulher, podia ser mais feliz. (RODRIGUES, 2007, p. 86)

Célia, em dezembro de 1967, conseguiu juntar-se a Mário Filho, pôs fim à sua solidão, ao seu desespero e angústia, se suicidou tomando veneno. Viveu 40 anos ao lado de um homem, com o qual passou por todas as intempéries, desgostos, dificuldades, um filho alcoólatra, mantendo-se incondicionalmente por todos os momentos apaixonados e amorosos com ele.

Discussão

Se uma das condições para o amor é perder-se, Nelson Rodrigues, em 1965, estreia sua peça intitulada Toda Nudez Será Castigada, mostrando em três atos os reflexos do amor entre seus personagens Geni, Herculano, Serginho, Patrício e suas tias ressecadas e ressentidas. A movimentação amorosa e os inflames de uma paixão desenfreada levou a protagonista Geni à morte, o perder-se ali foi ao limite.

Esta obra foi classificada por Sábato Magaldi [1] como uma Tragédia Carioca. Toda Nudez Será Castigada se passa em pleno Rio de Janeiro, a peça inicia com um áudio ao fundo, a voz da protagonista Geni (a prostituta), pedindo a Herculano para prestar atenção ao que ela, morta, lhe contaria:

GENI – Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei. (ao mesmo tempo que Geni fala, ilumina-se parte do palco. Aparecem Patrício e as tias. Enquanto durar a fala de Geni, Patrício e as tias permanecem imóveis e mudos).

GENI – Herculano, ouve até o fim. Você pensa que sabe muito. O que você sabe é tão pouco! (com triunfante crueldade) (violenta) Há uma coisa que você não sabe,
nem desconfia, uma coisa que você vai saber agora, contada por mim mesma. (dilacerada) (ressentida e séria) Escuta, meu marido. Uma noite em tua casa. (RODRIGUES, 2012, p. 11)

A história do viúvo Herculano e seu filho Serginho (inconformado com a morte da mãe), suas tias aves agorentas sobre o sobrinho e o irmão do viúvo o inútil e fanfarrão Patrício. Entre pai e filho existe um acordo tácito de que nunca tirarão o luto, o amor e sexo ficam proibidos como se uma profecia pós morte da mãe/viúva. O enlace funesto entre pai e filho faz com que Herculano, com o tempo, em meio a um luto cerrado, comece a adoecer e perder de fato e de direito a vontade de viver. Enfia-se em um quarto sem banho, sem comer, sem vontade alguma de vida. O irmão, esperto e nada afetivo, preocupa-se com o outro no sentido de secar sua fonte infindável de dinheiro, afinal de contas, como pode viver um boa vida sem o dinheiro do irmão rico?

A partir desta angústia, Patrício tem uma ideia espetacular e procura a então prostituta Geni, para que seduza Herculano e case-se com ele, restaurando-se, assim, a boa vida de todos (principalmente a dele), e que Herculano volte a ser feliz e libere dinheiro para todos. Feito isto, Herculano, depois de um porre, após 72 horas de amor no bordel onde Geni trabalha, se entorpece de uma paixão quase fulminante, que o retira aos poucos daquele lugar escuro e úmido de seu luto cerrado. Porém, seu filho Serginho descobre que o pai traiu a ele e sua mãe morta e foge de casa, entra em um bar para curar sua amargura, toma um porre, briga com alguns e é preso.

A desgraça começa quando, na prisão, é abusado por um tal “ladrão boliviano” e, após a violência, é levado para um hospital para medicações, calmantes e limpeza de ferimentos. Em um gesto de profundo respeito, Geni vai visitar Serginho, mesmo a contragosto de Herculano e das tias mal-amadas. Este encontro, como diria o próprio Nelson Rodrigues, foi BATATA!!!

Serginho aproveita-se da situação, humilha e maltrata Geni, e após ofendê-la a ponto de mandar-lhe tirar a roupa, propõe que ela se case com seu pai e, após contrair matrimônio, se transforme em sua amante, para que, com isso, possa se vingar do pai que abandonou a promessa de viver eternamente de luto. Foi o que aconteceu, e os dois – madrasta/enteado – começaram a viver em tórrido romance, sorrateiros, dentro da casa e nos mais inesperados lugares da cidade do Rio de Janeiro. O ciúme, a paixão e o todo que geralmente acompanha qualquer forma de relacionamento visceral, apareceram entre os dois.

Por fim, Serginho parece cansar de viver à espreita do pai traído e resolve dizer para Geni que precisa passar um tempo na Europa, onde não seja reconhecido como o menino que fora violentado na delegacia. Geni vai ao aeroporto para despedir-se, com o coração dilacerado, de saudade do seu amante amado, quando avista de longe Serginho e, nada mais nada menos, que o seu acompanhante para a viagem – o famoso “ladrão boliviano”.

A trama, carregada com toda carga trágica, mostra aos leitores e à plateia que aquele que ama se perde, não consegue determinar agenda afetiva, não existe controle, tampouco escolhas objetivas e racionais. O Amor e a paixão balançam como um terremoto qualquer ser humano. Geni se mata e deixa gravada toda a história para que o viúvo novamente escute como fora amado, largado e traído por sua atual mulher e por seu filho Serginho.

Nelson Rodrigues era um homem que dizia acreditar tão somente no amor verdadeiro, o amor era único e para sempre. Talvez amar sempre seja um terror, assustador, um demônio de quem fugimos para que não possamos nos perder. Nos dias atuais, as agendas e as redes sociais não deixam muita margem para que afetos verdadeiros poluam a vida perfeita e regrada do mundo moderno.

Considerações finais

Pretendeu-se evidenciar neste artigo a forma como o amor, para ser eterno, tem que ser vivido com a entrega dos amantes. O amor sempre é avassalador, ele chega como um sopro, mas desmonta como um tornado. Com sorte, se você sobreviver a ele, seguirá amando para todo o sempre.

No consultório analítico, hoje, aparecem muitas pessoas cujas queixas dizem apenas de si, não existe o tempo para um outro. O tempo do amor foi trocado, aparentemente, pelo tempo da fama instantânea, das selfies, e quanto mais curtidas, mais amado você se imagina ser. As relações, quando existem, são totalmente narcísicas, cada um em sua cela privativa e protetiva dos efeitos amorosos. Não se cobra nada para não ser cobrado, a exclusividade talvez não seja mais a bola da vez, tampouco o desejo de construir uma vida de 40 anos juntos, e, neste sentido, Célia e Mário parecem estar num livro distante, uma história contada e nada mais.

Na semana dos namorados, perguntei a uma jovem paciente o que pretendia dar de presente ao seu novo “ficante”, a resposta foi de autoimpacto: – Não sei nem se durará 3 parcelas do cartão de crédito, por via das dúvidas, não dou nada, não estou a fim de perder. E completou dizendo que romantismo é “sofrência” e só dá ibope para cantor sertanejo.

Lembro-me de que pensei mil vezes: – ‘Vai morrer. Qualquer dia morre’. Morrer de amor, morrer por amor, era a sua clara predestinação. Estamos tão esquecidos de sofrer que a sua dor nos parecia, e cada vez mais, uma doença psicológica, quase a loucura. E ninguém entendia que a grande dor deve ser preservada (a dor que passa abre, na vida interior, imensas e lívidas sibérias). (RODRIGUES, 2007, p. 85)

O amor parece estar se tornando realmente um dos maiores demônios contemporâneos, a escolha da garantia do não sofrer. O enamoramento de si gera, ilusoriamente, mais certezas aos jovens dos nossos dias atuais. Amar dá trabalho, precisa de tempo, “enche o saco”, nos coloca diante de escolhas, não se pode ter tudo, tenta-se ter o mínimo, o mínimo do mínimo: carinho, confiança, sexo e frutos. O amor se vê nas coisas produzidas, não cabe em um post, ele requer a confissão dos amantes, dos segredos obscuros, para que como um milagre exista a possibilidade de um amor eterno.

É de Neruda, do Neruda da primeira fase, este verso: – ‘Tão curto o amor e tão longo o esquecimento.’ Ai de nós, ai de nós! Não fazemos outra coisa senão esquecer.
E, se alguém não esquece, nós pensamos logo em ‘tratamento psiquiátrico’.
É uma inversão cruel e estúpida. Os psiquiatras e os psicanalistas deviam-se incumbir dos que esquecem fácil. Sim, foi preciso que eu a visse morta. E me veio, então,
tarde demais, todo um fluxo de consciência. O que parecia morbidez era saúde.
E o gemido, o soluço, o grito, as entranhas feridas, tudo, tudo era graça.  (RODRIGUES, 2007, p. 85)

Quanto a mim, prefiro o romantismo rodrigueano. As tintas do amor, por vezes trágicas, talvez ainda nos possibilitem escrever nossa história com o apaixonamento da vida como ela é.  E você, o que prefere?

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Nota

[1] Sábato Antonio Magaldi (1927-2016) foi um crítico teatral, teatrólogo, jornalista, professor, ensaísta e historiador brasileiro. Sábato foi um dos grandes organizadores da obra de Nelson Rodrigues, de quem era amigo pessoal, e foi responsável pela classificação de suas peças segundo tema e gênero (Tragédias Cariocas, Peças Míticas e Peças Psicológicas). Seus prefácios são verdadeiros ensaios sobre a obra do dramaturgo.

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Referências

RODRIGUES, Nelson. O óbvio ululante: as primeiras confissões. Rio de Janeiro: Agir, 2007.

CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico. Rio de Janeiro: Cia. das Letras, 1992.

RODRIGUES, Nelson. Toda nudez será castigada: obsessão em três atos: tragédia carioca. 3 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

Sobre o autor

Carla Almeida

Psicanalista Lacaniana. Mestre em Ciência da Religião pela PUC/SP. Bacharel em Direito e Especialista em Educação e Religião pela Faculdade Messiânica. Pesquisadora na área da Psicanálise Lacaniana e Literatura de Nelson Rodrigues. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Nelson Rodrigues no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.