Comportamento político

Quanto custa falar de Lacan?

“Marcadores de comportamento” é uma expressão que tem aparecido com frequência nos meus posts, e não é para menos. Definimo-nos a partir das nossas opiniões, do que apontamos como bom ou mal, no contemporâneo mais prosaico, nos likes que damos ou não. E, num contexto de hiper exposição em que vivemos, buscamos demarcar espaços quase que o tempo todo. Pense no que fazemos no Instagram, por exemplo: construímos o que somos ou o que pretendemos ser nos posts, onde fomos, em que lugar nos divertimos, o que comemos, o que lemos, o que assistimos, se vamos às exposições, etc. Damos atenção até para o passado calculado, no #TBT, as fotos de coisas que já fizemos e que aparecem nas quintas-feiras. Cada um desses posicionamentos pode ser lido, interpretado e analisado. Cada um deles vai nos introduzir no que a pessoa quer expressar sobre si, num contexto de socialização e de contato com quem se deseja aproximação virtual. Tomados à parte, esses marcadores sinalizam a ambiência cultural da pessoa, a qualidade da foto, as roupas que usa, o texto que escreve, o que valoriza ou não.

Essas indicações são perceptíveis e costumam aparecer nos textos que fazem uma síntese do que acontece nas diferentes redes sociais. O ponto em que queremos focar aqui é o seguinte: repertório cultural tem um custo e o que postamos nas redes sociais sinalizam com precisão esse aspecto. Nos distinguimos inclusive por isto, uma vez que nada se perde nas redes sociais, nem como nos fotografamos, nem os motivos de nossas postagens. E, num contexto de polarização e disputa de espaço político, tudo é levado em consideração.

Percepção próxima do que falamos aqui teve Simon Kuper, no artigo The revenge of the middle-class anti-elitist (A vingança da classe média antielitista), publicado no dia 13/02/2020, no Financial Times Magazine. Num texto curto e direto, o autor foi capaz de oferecer alguns dados comportamentais, tanto desses eleitores da classe média quanto daqueles que se surpreenderam com as eleições dos candidatos populistas. Valendo-se de dados obtidos na ANES (American National Election Studies), Kuper partiu do fato de que dois terços dos eleitores de Donald Trump, em 2016, vinham da classe média, pessoas que ganham acima de 50 mil dólares/ano, a média nacional norte-americana. Quem são essas pessoas que podem ser achadas na Inglaterra, na Itália ou no Brasil?

Trata-se de “um personagem raramente mencionado no debate político contemporâneo. Ele não nasceu num berço de ouro e trabalhou para subir na vida, o que não foi sempre divertido. Agora ele (geralmente um homem que vive nos subúrbios das cidades pequenas) tem a sua própria casa e recebe salários acima da média. Ele está enfrentando as elites das grandes cidades com sotaques elegantes e com as vidas fáceis que caíram em suas mãos”. Ainda de acordo com Kuper, o “avanço deste homem foi lento: ele não frequentou as grandes universidades, empresas ou corporações de destaque. Ele sente que foi recusado de modo injusto, com base no seu sotaque, escolaridade, roupas e não familiaridade com os temas da moda. Ele percebeu anos atrás que a tão falada meritocracia é uma fraude. (…) Professores das grandes cidades, jornalistas e funcionários públicos – pessoas que se parecem com Hillary Clinton, Elizabeth Warren e Ed Miliband, olham para eles como merda.” O perfil das classes mais abastadas segue sendo, de acordo com Dominic Cummings, assessor direto de Boris Johnson, “ingleses graduados em Oxbridge que falam sobre Lacan nos jantares com produtores de TV.

No Brasil, facilmente poderíamos associar essa classe média às pessoas que seguem orientações religiosas evangélicas, donas de pequenos comércios, casados e com filhos, que não estudaram em universidades, que se preocupam com a violência em relação aos seus filhos, que não pautam exatamente as suas preocupações com as causas identitárias, que trabalham de domingo a domingo e que vão às manifestações de esquerda ou de direita para vender água ou acessórios que venham a agradar as duas tribos. Alguns não bebem, portam sempre a Bíblia e não falam palavrões na presença de mulheres. A vida não lhes foi fácil e teriam dificuldade de compreender do que reclamam os mais ricos que, mesmo tendo condições para arcar com seus estudos, frequentaram as universidades públicas.

E quanto custa falar de Lacan? Traduzindo: qual o custo desta informação usada com alguma propriedade, trocada num ambiente em que seus interlocutores irão minimamente compreender? Ambiente este que também será de reconhecimento em relação às roupas que você estiver usando, aos demais comentários que você vier a fazer sobre uma série on streaming que tenha maratonado, sobre sua busca espiritual no retiro em Bangkok. Qual o preço de se sentir com acesso à psicanálise, de poder escolher as linhas da terapia, de diferenciar Melanie Klein de Jung?

Por tudo isso e mais um pouco que não deu para falar aqui, temos de ter atenção ao que Kuper chama de a Revolução da Classe Média, a galera que não teve grana nem roupa para estar de igual pra igual com as pessoas mais chiques, cujos principais cacoetes parecem ser falar de si mesmas como preocupadas com aqueles outros que não suportariam de fato ter por perto. E, em se tratando de comportamento político, quantos aspectos poderíamos mapear e que delineassem os perfis dos personagens que aqui foram apontados?

Imagem: montagem (American Gothic/Grant Wood e Terabass/Wikimedia Commons

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

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