Judaísmo Contemporâneo: filosofia política judaica

O homem e os ritmos, o respirar e o plantar

Estas e também aquelas são palavras do Deus vivente” Talmud Bavli, Eruvin, 13b

Eclesiastes afirma que “há um tempo para tudo, para cada experiência há um tempo apropriado sob o céu; um tempo para nascer e outro para morrer, um tempo para plantar e outro para colher o que foi plantado, um tempo para matar e outro para curar; um tempo para destruir e outro para criar; um tempo para chorar e outro para sorrir”. O texto segue, dividindo nossas experiências em tempos, em estações.

O escritor israelense Yehuda Amichai nos diz, por outro lado, em um de seus poemas, que Eclesiastes errou, que não temos essas estações, não temos tempos divididos, essas dualidades se dão simultaneamente: temos de fazer tudo agora, amar e odiar, chorar e sorrir, atirar pedras e recolhê-las.

E se, no entanto, ambos estiverem corretos?

Em “A Rosa de Treze Pétalas”, o rabino Adin Stelnsaltz Z”L demonstra, de maneira muito bela, pela perspectiva da mística judaica, que os movimentos contrários não são conflitantes, mas parte fundamental da própria vida, são a tensão que a compõe e a mantém. Ninguém vive apenas em Deus e nem apenas na terra. O Sagrado é imanente e flui na vida, passando de um mundo a outro, de uma forma de fazer as coisas à outra. Não há acima e abaixo ao nos aproximarmos Dele. Pelo contrário, no ir e vir, nas aparentes oposições, alcançamos o ritmo do ser.

Ritmo é como o tempo se dá para nós. Os minutos, as horas, os dias e as estações do ano. O plantio e colheita são ritmo, mas também o são o bater de nosso coração, o movimento de nossa respiração, as sensações de nossos olhares literais e metafóricos. Nossas emoções são ritmos. O relacionamento de Deus com o mundo, como também nos lembra Heschel, “é caracterizado pela polaridade da justiça e misericórdia, providência e segredo, promessa de recompensa e a exigência de servi-Lo por Ele mesmo”.

Para Deus, tão maior do que tudo, a mudança das estações e das colheitas, duradouras para nós, é também ritmo. Conseguimos sequer imaginar como se dá? Improvável. Mais rápido do que respiramos? Mais rápido do que nosso coração? Do que o sangue que corre por nossas veias? Não podemos, por melhor que seja nossa capacidade de abstrair. Para Deus, tudo está acontecendo agora, imediatamente, ao mesmo tempo, mas em um ritmo em que tudo se torna imperceptível, exceto as ações que marcam as diferenças. Não percebemos, por exemplo, o bater de nosso coração, exceto quando o observamos poeticamente ou quando ele falha.

Quando Amichai nos diz que “O homem não tem tempo. Quando ele perde ele procura, quando encontra ele esquece, quando ele esquece ele ama e quando ama começa a esquecer”, está dizendo que nossas ações são o ritmo que sustenta nosso tempo e que não é possível, por mais que se tente, transformar algo em permanência: se você fez o bem uma vez, não fez o bem, fez uma boa ação. Se você amou uma vez, não amou, pois o amor é contínuo, assim como o bem. É na frequência que existem o amor, o ódio, o riso e as lágrimas.

O que me faz pensar, então, que ambos estavam corretos em suas afirmações? A perspectiva com a qual enxergam a vida: quando Amichai afirma que tudo acontece agora, ao mesmo tempo, ele observa o homem de cima, imaginando o que Deus vê quando nos olha, mas dotado da humanidade de quem observa com saudade, sem ter percebido a vida que passava, o amor que sentia, a memória que se perdia.

Eclesiastes, em sua vontade de nos ensinar, fala nossa língua para apontar o divino, nos mostra de perto como os homens percebem o mundo e que dentro dessa perspectiva, onde tudo parece longínquo, o tempo também está passando e, se não for vivido agora, será perdido, esquecido entre plantios e colheitas, entre mortes e curas.

Para viver é preciso agir, mas meras ações, desprovidas de significados, são estações perdidas, respiração sem ar. Sacralizar cada ação as torna vivas e dignas de colheitas, de sorrisos, de curas, de marcar o tempo e dividirem as estações para, quando Deus nos olhar, perceber que algo foi plantado.

Para concluir sem perder mais uma boa chance para citar Heschel, “o pensamento e a vida judaicos só podem ser adequadamente compreendidos em termos de um padrão dialético, que contenha propriedades opostas e contrastantes”. Talvez, vejam a ironia, errado estivesse Amichai ao afirmar que Eclesiastes errou. Um erro pequeno, mas perigoso, por esconder mais do que mostra, por dar a falsa impressão de que não há debate quando, na verdade, o que mais ocorre entre esses dois textos, como na vida, é diálogo.

Referências

AMICHAI, Yehuda, Antologia poética, Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2018.

HESCHEL, Abraham J., Man is not alone, New York: FSG, 1979.

HESCHEL, Abraham J., O último dos profetas, São Paulo: Manone, 2002.

STEINSALTZ, Adin, The thirteen petalled rose, New York: Basic Books, 1980.

Eclesiastes, capítulo 3: https://www.sefaria.org/Ecclesiastes.3?lang=bi

Imagem: Nasa

Sobre o autor

Hilton Seawright

Bacharel em Filosofia pela FFLCH/USP e pesquisador do núcleo de Judaísmo Contemporâneo: Filosofia Política Judaica, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.