Comportamento político

É possível definir consciência política?

Alguns de nós, que vivemos a infância e a adolescência entre a década de 60 e 70, fomos incentivados a acreditar e a defender que havia algo como consciência política e outra coisa que era a alienação. A partir daí, avaliava-se as pessoas como sendo mais ou menos politizadas, mais ou menos engajadas. Amizades e outras relações foram firmadas a partir desse critério, bem como outras foram desfeitas, mesmo que não fosse exatamente possível aferir estes resultados, apontar com clareza quem seria mais politizado, quem seria menos, nem avaliar o que essas informações poderiam dizer acerca da pessoa em questão. Quantas possibilidades e perspectivas de resposta teríamos?

Quantos motivos e quantos elementos podem estar em jogo no posicionamento de uma pessoa como politizada ou não? Muitas variáveis impossíveis de serem isoladas estão presentes. O que no passado definíamos como classe social poderia ser uma delas. Mas isso não explicaria tudo. Outros aspectos poderiam ser lembrados sem demérito algum. Uma aula que você assistiu; a identificação com um professor ou professora; uma ou mais histórias de família; alguém que você tenha conhecido e que lhe tenha provocado identificação por conta do desempenho em alguma área aparentando política; um filme, uma série, uma novela. E, nelas, uma personagem que tenha lhe atraído e que você tenha associado com a política.

De todos esses motivos, nos acostumamos a pensar que tudo depende da formação da família ou da escola em que nossos pais nos colocaram. Hoje percebemos que essa preocupação existe por parte da família, que, de alguma forma, pretende que seus filhos tenham uma formação política a partir da escola em que estudarem. E as escolas se posicionam em relação a isso. De tal forma se vende a ideia do pensamento crítico, da politização, da preocupação com o social, como hoje se fala sem muito rigor.

Acredito que nem o mais pessimista dos analistas das décadas de 60 e 70 imaginaria que a formação política poderia conduzir a uma situação que viesse a se cruzar com narcisismo, com selfies, com discursos nas redes sociais, que mais falam sobre si mesmos do que sobre a política em si.

Poderíamos nos perguntar: o que de fato significa ser politizado? Quem de nós aguentaria permanecer por muito tempo em estado de vigília política? Quantos e quais são os motivos e o que nos conduz para a participação dita política? Quando estamos nas ruas, nas manifestações, estamos fazendo política ou muitas outras coisas estão em jogo?

Como exemplo da pertinência dessas questões, pesquisadores, fora do Brasil, escolhem uma amostra de estudantes do terceiro ano do Ensino Médio e fazem as mesmas perguntas por cerca de 10 anos – para então saber se a política continua a ser um tema significativo para eles, depois que a vida tomou outros rumos. O que justifica esse tipo de pesquisa é a dúvida cética em relação ao que vem a significar consciência política ou uma cultura política. Como definir esses termos de um modo que eles possam ter consistência semelhante à dos dados que obtemos das ciências empíricas?

Para aqueles pesquisadores que tenham curiosidade em ter contato com o contraditório, as pesquisas sobre Comportamento Político podem trazer um novo e revigorante alento. Duvida-se, do ponto de vista do inquérito epistemológico propriamente dito, se alguém consegue definir o que seja a participação política, se o que chamamos de politização não passa por sentimentos como ódio e ressentimento, se quem se julga politizado de fato conhece todas as variáveis envolvidas na trama da política.

Se tomarmos a prudência, o distanciamento e a ponderação como elementos a serem levados em consideração, o indivíduo dito politizado seria aquele que viesse a colocar a política em perspectiva – sendo que os menos politizados seriam remetidos à emoção no envolvimento com ou outro lado da contenda. Fôssemos menos envolvidos emocionalmente e mais nos afastaríamos da polarização afetiva. A consciência política será, de fato, o que julgamos que seja? E se alguns de nós entendermos mais de outras coisas e menos de política? O que significa, efetivamente, entender de política?

E por quanto tempo aguentaríamos manter uma participação política? Se fôssemos políticos profissionais, talvez não tivéssemos dificuldades ou tivéssemos aptidão e gosto pela constante atividade política. Mas se não formos políticos profissionais, como conseguiríamos nos manter em constante vigília?

De todas essas perguntas desdobram-se perspectivas e possibilidades de pesquisa, sejam no campo da sondagem da opinião pública, ou na atividade prática dos laboratórios de psicologia comportamental. E, especialmente em relação à pesquisa em Comportamento Político, o que se descortina, ao menos desde a década de 40, é uma vasta produção de papers e artigos científicos que buscam matizar e compreender o papel das emoções na tomada de decisão política, no envolvimento com as causas, protestos e manifestações, e do convívio ou não com a política.

Diga-se que este campo de estudo não pretende se opor ou caminhar para a exclusão do que se entende como ciência política. Para tanto, basta que percebamos que um teórico da qualidade de um Alexis de Tocqueville (1805-1859), ele mesmo, ao tomar contato com a democracia norte-americana, procurou mapear e diagnosticar o tipo de cidadão que é forjado pelos regimes democráticos.

E, para se ater a um exemplo retirado de A Democracia na América (1835), basta que nos recordemos da percepção tocquevilleana de que o egoísmo poderia se configurar num regime aristocrático e seria então rechaçado de alguma maneira. Já o individualismo que grassaria numa democracia não poderia sequer ser questionado na prática, uma vez que, por definição, os homens e mulheres deste regime não podem deixar de pensar em si próprios, por se encontrarem mais solitários na sua luta pela sobrevivência. O individualismo, produto da Democracia, iria se manifestar no comportamento propriamente dito dos cidadãos no seu mais trivial cotidiano. Esse tema será tratado de modo mais profundo nos nossos futuros artigos.

Imagem: jacoblund/iStock

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.