Jung e a Filosofia da Religião

A vacina e a Psicologia Junguiana

A expectativa da vacina para a COVID 19 vem nos consumindo… Ansiamos desesperadamente o dia em que este grande momento acontecerá: o da vacina entrando em nosso corpo!

Parece que isto simboliza nossa libertação, nosso direito de ir e vir, de estar com as pessoas as quais amamos, nossos familiares e amigos; parece que este encontro representa o fim de nossas amarras, a concretização daquela viagem, de simplesmente ir ao trabalho, almoçar com os colegas e até poder estar na presença física daquele “mala”… afinal, todo grupo tem um “mala”, necessário psiquicamente para depositarmos nossos conteúdos escusos, sombrios que, aparentemente, mantêm nossa saúde mental… Um “mala” guarda elementos parecidos com o tal vírus… “(…) o encontro consigo mesmo pertence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta” (JUNG, 2014, §44).

Sair sem máscara, respirando livremente, sem medo ou receio de tocar em algo que contenha o abominável ser invisível e ameaçador.

Cansamos de viver nessa tensão sem saber onde o tal “vírus chinês” está, porque também não sabemos como ele pode nos pegar, tampouco como ele pode se manifestar em nosso organismo, mas sem dúvida o tememos, afinal ele pode nos matar! Por outro lado, ele pode nos tornar assassinos, pois podemos servir de vetores para outras pessoas… E o medo de contaminar aqueles que mais amamos?! Vivemos aterrorizados diante deste ser… invisível, desconhecido e incontrolável, que tanto nos ameaça e nos faz reféns.

Assim, nada melhor do que a tal vacina para nos proteger, para nos dar condições de entrar em contato com o coronavírus e, desta forma, estarmos imunes aos seus efeitos. 

No início, alguns de nós até ousaram questionar a escolha da vacina de acordo com sua procedência… Agora, simplesmente, ansiamos por aquela que chegar primeiro e, enfim…. dar fim a este martírio que já perdura e perturba nossas vidas por quase um ano.

Mas o que é uma vacina?

Nada mais é do que (NUMA FRAÇÃO MUUUUUUITO PEQUENA) o tal agente que tanto tememos, portanto, querendo ou não, teremos que entrar em contato com um pouquinho do tal coronavírus, seja ele na forma de vírus inativado ou na forma de um adenovírus com um pedaço do seu gene ou, ainda, na forma do seu RNA.

O que desejo promover, trazer à atenção e à reflexão neste momento, no qual estamos coletivamente mobilizados, é que, para ficarmos imunes, temos obrigatoriamente que ter contato com o vírus, ou seja, temos que ter uma manifestação do vírus em nós… e é exatamente assim que acontece na Psicologia Junguiana… e é assim que deve ser na vida!

Tendemos a fugir ou ignorar situações que nos incomodam ou nos causam medo, mas isso não é a solução. Não adianta fingirmos que alguns temas não existem em nossas vidas, na história das nossas famílias, dentre nossas relações. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, em 1934, em seu texto intitulado Sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo, disse que o segredo do sucesso humano é a consciência e afirmou: “(…) a ignorância não é motivo de segurança, sendo pelo contrário uma agravante da insegurança” (JUNG, 2014, § 49). Assim, não podemos viver em lockdown da mãe que sufoca, do pai que cobra, do marido displicente, da sogra falsa, da amiga traíra, do vizinho trambiqueiro, do cunhado mau caráter, do tio invejoso, da prima soberba, da fulana oferecida, do político corrupto … Precisamos saber lidar com cada um deles dentro de nós.

Portanto, o trabalho analítico tem o princípio semelhante ao da vacinação… só estaremos imunes ao incômodo causado por aquelas qualificações feitas como crítica ao outro à medida que as reconhecemos em nós mesmos, ou seja, quando identificamos a possibilidade de, em determinado momento, “sufocar” um filho, seja por excesso de zelo, amor, cuidado, por falta de confiança ou qualquer outro motivo; de ser alguém que cobra tanto quanto o pai, seja como chefe, como cônjuge ou até atuando na figura parental; assim como podemos ter alguma atitude falsa para com o outro, podemos trair alguém em maior ou menor grau; criticar por alguma atitude que no fundo estamos invejando, enfim, vamos reconhecendo um pouquinho daquilo que achávamos tão “mau”, temido e repugnante em nós mesmos.

Conforme isso vai acontecendo, ficamos mais leves, com maior disponibilidade para circular por todo e qualquer ambiente e relações sendo menos afetados, pois estaremos mais conscientes de nós mesmos… E este é justamente o caminho do que Jung pontuou como um processo de desenvolvimento psicológico:

A individuação, no entanto, significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; é a consideração adequada e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator determinante de um melhor rendimento social. A singularidade de um indivíduo não deve ser compreendida como uma estranheza de sua substância ou de suas componentes, mas sim como uma combinação única, ou como uma diferenciação gradual de funções e faculdades que em si mesmas são universais. (JUNG, 2015, § 267)

Obviamente, não podemos jamais esquecer que as relações envolvem pelo menos a subjetividade de dois indivíduos e que jamais podemos administrar o que o outro sente e como este outro significa cada experiência.

Na vacina ou na vida, a “cura” começa quando deixamos que o agente causador do “mal”, aquilo que nos é incômodo, aquilo que Jung definiu em seu livro Psicologia do Inconsciente como “sombra (…) a parte ‘negativa’ da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal” (JUNG, 2011, §103), seja identificado como parte integrante de nosso ser… Só assim seus efeitos, inicialmente aterrorizantes e ameaçadores, irão se despotencializar e nos libertarão para ir e vir, para circular pela vida, pelas relações sem estarmos vitimizados e à mercê de algo tão nocivo que acreditamos ser apenas do outro e que, à medida que identificamos como parte de nós, deixa de nos ameaçar.

Vacine-se sempre, literalmente e metaforicamente, vacine-se!

Referências

JUNG, C.G. Psicologia do inconsciente. 19. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

Imagem: montagem/divulgação

Sobre o autor

Andreza Wurzba

Psicóloga, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e DAC (Dependência, Abuso e Compulsão). Docente do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa), Psicóloga Colaboradora do Grupo de Dor Pélvica do HCFMUSP, integrante do grupo de pesquisa Jung e a Filosofia da Religião do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

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