O vazio existencial na contemporaneidade

Esperança, eu quero uma pra viver

No final da década de 80, Cazuza e Frejat escreveram a canção clamando por ideologia, num contexto em que a juventude era representante de um espírito revolucionário diante das incertezas políticas e sociais da época. A geração do rock viveu ameaçada pelas perseguições e interdições da ditadura militar, sem poder expressar livremente seu posicionamento político, identitário e cultural. Numa época que prezava por uma determinada ordem e padrão de conduta recém-herdeira da mentalidade militar, caracterizada por um poder patriarcal, branco e heteronormativo, essa música fez e ainda faz sucesso pela mensagem que traz: precisamos de ideais que tragam sentido para a vida.

Naquela época, com o Brasil dando os primeiros passos no processo de redemocratização, o grito por ideologia[1], no sentido de profundidade de convicções políticas, sociais e filosóficas, era urgente, pois o presente era um cenário pouco promissor, com tamanha desigualdade social, econômica e uma série de preconceitos sobre as minorias e doenças como a aids. Hoje, mais de trinta anos depois, revisito essa música atualizando apenas o vocativo, para ampliá-lo. No contexto de pandemia mundial, somado à polarização política e partidária no mundo todo, crise financeira, de valores, desinformação e infotoxicação através do mundo digital, desemprego e depressão, ainda precisamos de ideologias, mas, mais que isso, precisamos de esperança.

Diferente do que comumente se pensa sobre esperança como sentimento positivo a ser cultivado do nada, sabemos que ela precisa de algo – seja concreto ou abstrato –, de um fundamento para que possa se manifestar no indivíduo e no coletivo. Não basta um conselho de alguém, a esperança exige confiança em algo que faz sentido para o sujeito e o direcione para além dele mesmo.

Não podemos ordenar a ninguém que seja otimista ou que espere contra toda a esperança. […] Pois ninguém pode obrigar a esperança, assim como tampouco se pode forçar os outros dois elementos da conhecida tríade, a fé e o amor. […] A felicidade precisa ter um fundamento cujo efeito compareça espontaneamente; em poucas palavras, a felicidade resulta, não se deixa obter, não é fabricável. (Frankl, 2019, p. 84-6)

Tendo isso em mente, afinal, o que esperamos hoje? No que depositamos esperança? No que perdemos a esperança?

Trazendo novamente a perspectiva de Viktor Frankl, que é minha base de reflexão para pensar o ser humano e seu modo de viver e também de minha atuação clínica, observo como ele concebe a esperança (assim como a felicidade) como sentimento edificante do que chama de otimismo trágico humano. Diferentemente de uma positividade infundada, que pode ser alienante, tóxica e até violenta para um indivíduo que atravessa uma fase de sofrimento, Frankl apresenta esse conceito de um otimismo que inclui e, portanto, dá sentido à chamada tríade trágica pela qual todo ser humano passa em vida, a saber: sofrimento, culpa e morte.

Esse otimismo humanizante coloca o indivíduo diante da realidade que se apresenta e, apesar da sensação da falta de sentido (sofrimento), ou da dificuldade de perdoar e aceitar falhas (culpa), ou da finitude da vida (morte), propõe a busca de caminhos para a conservação da vida. A grande pergunta de Frankl orientada à esperança é: “a despeito de todos esses aspectos trágicos da existência humana, apesar disso, como podemos dizer sim à vida?” (Frankl, p. 83)

Hoje, tão importante quanto dizer “sim” à vida individual, é tempo de buscar um “sim” à nossa vida na coletividade. Somos seres interdependentes e coabitantes do meio ambiente e, muitas vezes, esquecemos isso em favor de um “sim” voltado apenas ao nosso próprio umbigo. Esse “sim” alienante costuma ser resultado de três traços de sentimento e comportamento: tédio, ou seja, da falta de interesse genuíno pelo mundo e pelo outro; indiferença, que aparta o sujeito do mundo a partir da perda da iniciativa de mudança, de ação; e proteção narcísica, quando o sujeito, autocentrado, adota um comportamento egocêntrico e de superioridade, quando acredita que algo não pode atingi-lo[2]. No contexto pandêmico, esses traços aparecem em falas que diminuem a gravidade da doença e seus impactos sobre os afetados direta e indiretamente, aparecem em comportamentos que se negam a seguir o protocolo sanitário básico proposto nas diferentes fases, como o uso de máscara e o isolamento social preventivo – ao contrário disso, temos notícias de festas, shows, praias lotadas, como se os frequentadores estivessem numa grande celebração onde a COVID-19 é negada ou tira férias nos momentos de diversão. Uma série de questões envolve esses comportamentos negacionistas e escapistas, mas não são eles a base de uma esperança genuína.

O otimismo trágico exige de nós amadurecimento para encarar o que estamos atravessando nesta pandemia, juntos, mas em barcos com condições completamente diferentes. Atravessar esse mar com a lancha em festa cheia de amigos, nestes tempos, sem olhar para o lado ou para trás, não é dizer sim à vida, é se distanciar dela. Não é ser otimista, é ser egoísta e escapista.

E só posso ser um homem pleno e realizar por inteiro minha individualidade na medida em que transcendo a mim mesmo em direção a algo ou a alguém que se encontra no mundo. Preciso, pois, levar em consideração esse algo, respectivamente, esse alguém, e não a própria autorrealização.” (Frankl, 2019, p. 86)

Graças aos cientistas e profissionais de saúde, temos hoje um fato concreto para alimentar nossa esperança: o plano inicial de imunização em nosso país começou em meio de janeiro com a CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan com insumos chineses. Agora, ao lado do grande número de afetados pela doença, temos também um contador de imunizados. Uma dose de vacina que traz uma boa dose de esperança para o povo e a lembrança de que, cada vez mais, é preciso despertar para o coletivo, preservar a vida em comum, não só a própria vida.

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. [1983] Argumento a favor de um otimismo trágico. O sofrimento humano (fundamentos antropológicos da psicoterapia). São Paulo: É Realizações, 2019. p. 84-88.

PEREIRA, A. B. (2018). Ideologia, eu quero uma pra viver: sujeito, discurso e busca por um posicionamento na letra musical de Cazuza. Linguagem: Estudos E Pesquisas, 21(1). https://doi.org/10.5216/lep.v21i1.52226

[1] “Em meio a tantas situações negativas, o sujeito se encontra perdido, sem posicionamento concreto, sente-se incapaz de reação frente às situações. Contudo, é possível perceber que há uma semente de esperança, que o sujeito busca por uma saída, que apesar de toda negatividade momentânea, é preciso tomar para si uma posição, uma ideologia.” (Pereira, 2018, p. 46)

[2] “Acham-se acima do comum dos mortais. Consideram que estão acima da lei e das normas sociais e que têm direito a um tratamento especial e exigem esse tratamento”. Daniel Rijo citado por Teresa Firmino em “As máscaras do narcísico”, 5/3/16. Disponível em: https://acervo.publico.pt/ciencia/noticia/narcisismo-outro-lado-da-confianca-1725240

Imagem: O Falso Espelho (1928) / René Magritte / Moma-NY

Sobre o autor

Francisco Carlos Gomes

Psicólogo Clínico e Logoterapeuta. Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Fundador e diretor clínico do Núcleo de Logoterapia AgirTrês. Coordenador do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ