O vazio existencial na contemporaneidade

O medo que paralisa, o vínculo que salva

Não há quem passe por este mundo sem ter a intrusa experiência do medo. Sim, o medo! Geralmente fugimos dele, pensamos que é algo a erradicar da nossa vida, algo que nos impede de grandes realizações ou mesmo de ser feliz. Mas, tratando-se de um sentimento tão primitivo, seria possível afastá-lo, ou melhor, seria viável fazer isso?

A vida de Viktor Frankl, que, entre tantos dilemas, passou pela dolorosa experiência dos campos de concentração nazistas, nos ensina que NÓS PODEMOS TER MEDO, MAS O MEDO NÃO PODE NOS TER!

De alguma forma, podemos dizer que esse pensamento sintetiza a vida do pensador austríaco, fundador da logoterapia, que nos iluminará nesta breve reflexão.

Partimos da experiência humana pura e simples, concreta e real, que toca cada pessoa: o medo que em algum momento tenta nos derrubar por completo, nos provoca e tenta nos paralisar. De qual medo estamos falando? Do medo que PARALISA.

Certamente, cada um de nós pode perceber, porque sentimos, quais são os nossos medos paralisantes (a falta, a dor, o vazio). Aqui refletiremos sobre alguns níveis desses medos, a fim de colocar luzes sobre todos.

Por exemplo, a falta que produz o luto, em suas diversas faces, e que está sempre atrelada à perda, talvez da morte de alguém que amamos ou ainda da paz que outrora tínhamos ou pensávamos, ingenuamente, ter. O resultado desse luto é a crise, e, dela, o medo que paralisa! A dor física, moral ou mesmo espiritual, da qual ninguém pode se furtar.

Não se trata aqui da dor do atleta que percorreu uma longa maratona e enfrenta o cansaço, nem sequer da dor do parto daquela que deu à luz uma nova vida, mas daquela dor que é fruto da experiência crítica da ferida que parece não ter nenhum sentido.

Esse vazio existencial apresenta diversas faces, não se trata de um privilégiodos nossos tempos, mas se tornou uma marca profunda da contemporaneidade. Pascal, em sua obra chamada Pensamentos, já nos falava dessa angústia profunda, a qual chamava de “Ennuì”. Mais recentemente, Kierkegaard a denominava “doença mortal”.

Certamente, existem muitos caminhos para enfrentar e vencer o medo paralisante. Para demonstrar esse fenômeno, analisaremos um possível caminho sugerido por Frankl para a cura: O VÍNCULO QUE SALVA.

Frankl concebia o homem como um ser espiritual. Ele explica exatamente que ser espiritual significa “ser junto a”. Em outras palavras, o ser humano é sempre relacionado a algo ou a alguém intencionalmente diferente de si mesmo e este vínculo pode e deve ser construído junto de si.

O ser homem significa ser dirigido no rumo de, e subordinado a, algo que é mais que o indivíduo. A existência humana caracteriza-se pelo fato de transcender a si mesma (…) Foi pelo menos a lição que me coube aprender em três anos passados em Auschwitz e Dachau.[1]

É verdade que a experiência humana do vínculo pode estar abalada por diversos motivos, às vezes fragmentada pela solidão, desejada ou não, e por rupturas inesperadas. O falseamento da experiência do vínculo também é causado pela virtualidade dessas relações, e os danos são sentidos individualmente. De fato, a vida das redes sociais quase sempre se distancia muito do mundo-da-vida.

Como não estamos imunes ao vírus da solidão, da ruptura e do falseamento das relações, percebemos diretamente seus sintomas: a falta, a dor, o vazio. Ou seja, estamos diante daquele medo que paralisa e é necessário respondermos mais uma vez: PODEMOS TER MEDO, MAS O MEDO NÃO PODE NOS TER.

Para a tríade trágica (dor, culpa e morte), a resposta de Viktor Frankl é o otimismo trágico: manter-se aberto às dúvidas, pois uma vida cheia somente de certezas não é possível aos seres humanos; às reflexões, não é necessário responder sempre automática e rapidamente; e, por fim, fazer o melhor possível frente às circunstâncias. “O sentido não só deve ser achado, como pode ser achado. E nessa busca o homem deve ser orientado pela consciência.[2]

O caminho para o vínculo autêntico pode ser mais simples do que parece e, nessa jornada, Viktor Frankl nos indica três formas de valores pertinentes à vida de cada ser humano, e que são fundamentais no processo de superação dos nossos medos paralisantes e na construção de vínculos autênticos: valores de criação, valores vivenciais e valores de atitude.

Os valores de criação têm papel fundamental na superação do medo, na aquisição do entendimento de que ele faz parte da nossa vida e pode ser um impulso de ação ou um moderador que ajuda a exercer a virtude da prudência. De que forma construímos, ou melhor, des-cobrimos esses valores? No trabalho, no serviço, na arte, na espiritualidade…

O trabalho, no sentido do que nos ajuda a desenvolver capacidades e potencialidades na dimensão do que é útil ao outro, ao mundo. Viktor Frankl costumava dizer que descobriu o significado de sua vida tentando ajudar as pessoas a encontrar o sentido das suas[3], mas poderíamos tranquilamente dizer que essa tarefa se resumiu em ajudá-las a enfrentar seus medos, a responder às convocações da vida e a encontrar nessas ocasiões pequenas ou grandes oportunidades de realizar sentido.

Assim, transcender, doar-se ou mesmo lançar-se na busca pelo sentido pode nos fazer esquecer o medo e, nesse processo, estamos construindo vínculos autênticos com o nosso próprio ser e com os que se beneficiam do nosso servir.

Da mesma forma, a experiência estética tem esse poder de nos mover, de penetrar o mundo do belo, de provocar o êxtase que pode, ainda, se tornar uma experiência espiritual, já que no belo se encontra também o Criador e autor de toda beleza. “O Caráter próprio da arte é primeiramente fazer aparecer uma situação espiritual original.[4]

Na experiência da dor paralisante e da depressão profunda, comecemos com a singela e simples tarefa de abrir a janela do quarto e ver que fora dele existem luz e ar diferentes daqueles de dentro.

Os valores vivenciais podem ser percebidos de maneira ainda mais espontânea, mas requerem autenticidade para sua valoração, pois se trata do que recebemos da vida: o amor das pessoas manifestado de diversas formas, que não precisa ter valor para mais ninguém além de nós mesmos – e isso também revela uma autêntica expressão da beleza metafísica no seu plano mais real, porque podemos senti-la no mundo-da-vida.

Em suas inúmeras obras, Viktor Frankl costumava compartilhar algumas de suas experiências clínicas, para orientar seu leitor e explicar o que é a análise existencial. Um colega de nosso grupo de pesquisa trouxe-nos uma experiência clínica que talvez também possa iluminar essa nossa reflexão:

Um psicólogo acompanhou um adolescente acometido de depressão profunda durante dois anos e encontrava muita dificuldade em ajudá–lo no acompanhamento terapêutico, pois ele afirmava repetidamente que o único pensamento que lhe dava alguma paz interior era pensar na própria morte. O psicólogo tentou muitas vezes, e de muitas formas, oferecer subsídios para que o garoto pudesse encontrar sentido para viver, mas o plano divino ali era que ele aprendesse algo com seu paciente. Após dois anos de trabalhosa terapia, aquele garoto chegou sorridente e motivado para a consulta, afirmando que havia encontrado sentido para viver e não desejar a própria morte. Ele decidiu: não queria que sua irmãzinha ficasse conhecida na escola como a irmã do garoto que se suicidou. Foi esse vínculo que o salvou!

Será que podemos alcançar a beleza desse encontro? É o valor vivencial em sua forma mais genuína! O que o garoto experimentou foi exatamente o que Frankl chamava de otimismo trágico, “apesar de tudo, dizer sim à vida”, como costumava repetir. O VÍNCULO SALVA E O AMOR CURA! Nesse caso, a cura foi para o jovem, mas também um valor vivencial poderoso para aquele psicólogo e, agora, para cada um de nós que compartilhamos dessa história.

Por último, pensemos nos valores de atitude, que podem ser entendidos de tantas formas, mas aqui seguimos acompanhados do fundador da logoterapia:

do modo ao qual uma pessoa aceita o seu inelutável destino e com este destino todo o sofrimento que lhe é infligido, do modo ao qual uma pessoa toma sobre si o sofrimento como sua cruz, surgem infinitas possibilidades de atribuir significado a vida, também nos momentos difíceis e até o último ato de existência.[5]

Terminamos esta reflexão com perguntas, já que ter todas as respostas parece sempre muito chato e demasiadamente teórico. Se a vida real nos convoca muito mais questionando-nos, por que não seguir por aí: esta leitura pode contribuir para alguma cura ou enfrentamento de algum dos nossos medos paralisantes?

A resposta poderá ser afirmativa se nos abrir àqueles valores de criação, vivenciais e de atitude que ajudam a nos mover nos caminhos do vínculo autêntico e a des-cobrir o que queremos da vida e para onde ela nos convoca, pois não podemos jamais esquecer: “o sentido não pode ser dado, deve ser encontrado.”[6]

[1] FRANKL, Viktor E, O Sofrimento Humano, Fundamentos Antropológicos da Psicoterapia, p. 66. É Realizações, São Paulo, 2018.

[2] Ibidem, p. 30.

[3] cfr. FRANKL, Viktor E, A psicoterapia na prática, tradução C. M. Caon, p. 47, Papirus. Campinas, 1991.

[4] LAVELLE, Louis. Ciência Estética Metafísica, Crônicas Filosóficas, p. 87, São Paulo, É Realizações, 2012.

[5] FRANKL, Viktor E. Uno Psicologo nei Lager, p. 117, Milano, Edizioni Ares, 2013. (tradução nossa)

[6] FRANKL, Viktor E. O Sofrimento Humano, Fundamentos Antropológicos da Psicoterapia, p. 29, É Realizações, São Paulo, 2018.

Imagem: Heraldo Galan

Sobre o autor

Gilberto Lombardo Jr

Mestre e Bacharel em Filosofia, com especialização em Metafísica e Ciências pela Pontifícia Universidade da Santa Cruz (Roma). Docente e Diretor da Faculdade de Filosofia do Instituto São Boaventura. Docente do curso de Filosofia do Seminário Maria Mater Ecclesiae do Brasil. Pesquisador do grupo de pesquisa "O Vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido", do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.