O vazio existencial na contemporaneidade

Envelhe-ser

No Brasil de 2020, Luiza Erundina foi candidata ao cargo de vice-prefeita da maior cidade da América do Sul. Tal afirmação passaria despercebida se não fosse por um detalhe: como se não bastasse ser mulher (na política nacional majoritariamente masculina) e nordestina (pleiteando pelo cargo na capital paulista), Luiza tem 85 anos de idade.

Quando questionada sobre as duras críticas que recebeu por ter “passado da hora” de pendurar as chuteiras e aproveitar a aposentadoria, cedendo seu lugar para gente mais nova junto a Guilherme Boulos, de 38 anos, sua resposta foi inusitada:

que se danem! Estou vivendo meu tempo, minha experiência. (…) E, para aqueles que se sentem incomodados, desejo que tenham a sorte de chegar onde cheguei com a energia e convicção que tenho. Sabe, se você perde seu projeto de vida, tudo perde o sentido. (…) A velhice não é doença, não é defeito, a velhice não impede o sonho.

O trecho acima, retirado de uma entrevista dada por Luiza em data próxima a das eleições municipais, pode por si só tocar o leitor, ao revelar, nesta fala apaixonada, sua busca por mudança e melhoria contínuas, seu foco e objetivos claros, todos estes ideais que andam deveras em falta no cenário político nacional.

Entretanto, pode-se também versar sobre a (grata) surpresa contida nesta fala, por se tratar de uma senhora idosa cujo discurso não apenas foge do estereótipo da vovó maternal, doce e calada, como também mostra uma vitalidade que infelizmente deixa de fazer parte da realidade da maioria da população dita madura.

Palavras como energia, convicção, sonho, carregam uma conotação de juventude, que contrasta com as mais de oitenta primaveras da candidata.

O sociólogo David Guttmann diz que, dentre os tantos desafios característicos da velhice, etapa derradeira da vida, certamente o maior deles é o de que a sociedade contemporânea entende o processo natural e fisiológico de envelhecer como problemático, e o recebe com reservas. A juventude é vendida como a salvação da lavoura e envelhecer tem sido um processo historicamente negado pelo capital.

Se a deterioração biológica que nos é inevitável deve ser escondida a todo custo, postegar o envelhecer vira regra até que os limites do corpo falam mais alto e a velhice se apossa, sobrevindo quase como que uma surpresa.

Tradicionalmente nos encontramos velhos não apenas quando o corpo físico ja não apresenta mais a mesma tonicidade dos vinte anos, mas quando descobrimos que deixamos de ser respeitados, que perdemos um lugar de fala, que não somos mais vistos como produtivos ou desejáveis depois de certa idade. Em nossa sociedade, o idoso é deslocado para um espaço de inutilidade, de ociosidade e de substituição. Porque ser velho é considerado o mesmo que ser obsoleto, inútil, e ser inútil é o mesmo que levar uma vida sem sentido.

Se você, leitor, planeja viver um tempo em território desconhecido, seja um novo estado ou um país, terá de aprender, de antemão, o máximo possível sobre o lugar: como é o clima, o povo, a história. Deverá conversar com pessoas que lá viveram. Precisará, sem dúvida, aprender um pouco sobre o sotaque, a culinária, as raízes.

A velhice, sendo este estágio negado nesta sociedade que se fortalece daquilo que é novo e leve, é, também por analogia, e em parte, um território novo e totalmente desconhecido. Diferentemente da mudanca de localidade, que certamente geraria um mínimo interesse de pesquisa e preparação, com a velhice tende-se a fazer o movimento contrário, e raramente há disposição de querer saber mais a seu respeito – o que é surpreendente, visto que a fórmula para a vida eterna ainda não foi descoberta e todo homem tem em seu destino morrer. Com os avanços da medicina atual, muito provavelmente, morrer de velhice.

O país da velhice, é fato, se mostra nada animador. Não é descrito em brochuras coloridas de agências de viagens. Ao contrário, é tido como época de sofrimento, doença e miséria. A máxima “todo mundo quer viver muito, mas ninguém deseja ser velho” nunca fez tanto sentido. Ė urgente questionar: se idade não é apenas um número, se outono da vida limita e intimida, existe algo na velhice que justifique continuar vivo?

Viktor Frankl, criador da Logoterapia, dizia da importância de sentido e significado em todas as etapas da vida humana, e isto certamente inclui a velhice. Rumo ao fim, quando finalmente os véus caem e as desculpas se esvaem, todo ser humano enfrenta a chamada “liberdade espiritual”, que nada mais é do que a grande motivação de ser honesto consigo mesmo, acreditar menos em ilusões e aceitar com misericórdia seus erros passados.

Então por que, quando envelhecemos, há uma tendência de viver cada dia como apenas mais um dia, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar? Por que não ser mais como Luiza, e colocar sentido em primeiro lugar, independentemente de em qual etapa da vida nos encontramos?

Ponderando sobre o problema, Kierkegaard explica que o desespero, como conceito filosófico, não se manifesta, necessariamente, em sentir-se desesperado, paralisado, mas também no exato oposto disso. Tal desespero ocorreria quando a busca de sentido real de viver foi postergada durante toda a vida. Sendo assim, em vez de ser a etapa da verdade e do confronto honesto consigo mesmo, a velhice passa a ser marcada por um excesso de tarefas cotidianas ordinárias, vazias em si mesmas, mas aplaudidas pela sociedade contemporânea porque mantêm o mesmo “ritmo” da juventude. Todos nós conhecemos algum aposentado que insiste maniacamente em dizer que “nunca esteve mais ocupado do que agora”, quase com uma necessidade doentia de quantificar o seu valor.

Isto porque, como sociedade, falhamos em reconhecer o desespero, e fazemos qualquer coisa para evitar dar de cara com a desconfortável verdade de que idosos, ao se manterem ocupados com qualquer outra coisa irrelevante, não precisarão pensar (nem aqueles ao seu redor) sobre o que realmente significa viver a deterioração física e biológica que a velhice naturalmente causa. E se deparar com a finitude da vida causa um sofrimento inevitável a qualquer ser humano.

É importante lembrar o que Frankl teoriza acerca do “otimismo trágico”. Em resumo, uma pessoa deve exercer sua capacidade de se tornar otimista (trágica), ao permanecer positiva ante os três aspectos inevitáveis da existência humana, quais sejam, dor, culpa e morte.

A proximidade física da velhice aos três aspectos levanta as questões: “Como é possível dizer sim à vida, apesar de tudo? Como pode a vida conservar seu sentido apesar dos seus aspectos trágicos?” Frankl pressupõe que a vida, potencialmente, tem um sentido sempre, mesmo nas horas mais assustadoras. Em outras palavras, o que importa é o seu posicionamento pessoal perante os desafios colocados em seu caminho.

Como reagir diante da finitude da vida? Posicionando-se no mundo, assumindo a responsabilidade de fazer de cada um dos seus dias um dia com sentido.

Para Frankl, há três caminhos principais através dos quais se pode chegar ao sentido: (i) pelo trabalho; (ii) experimentando algo ou encontrando alguém (em outras palavras, o sentido pode ser encontrado também no amor); ou (iii) quando, mesmo sem muitos recursos, numa situação de desesperança, enfrentando um destino que não se pode mudar, erguer-se acima de si mesmo, com o objetivo de transformar a tragédia pessoal em triunfo.

Veja bem, em nenhum momento Frankl diz que o sofrimento é indispensável à descoberta de sentido da vida. Se o sofrimento for pequeno ou inexistente, que sorte a sua! O que ele afirma aqui, entretanto, é que o sentido estará disponível desde que, quando sofrendo, este sofrimento for inevitável (nada puder ser feito a respeito). Ora, nada pode ser feito acerca da velhice, prosseguida de finitude da vida.

Sem dúvida, para Frankl, as ações, os amores amados e, não menos importantes, os sofrimentos enfrentados com dignidade trazem o tão esperado sentido existencial. A partir disso, é verdade que os idosos já não têm tantas possibilidades no futuro, uma vez que estão limitados pelo tempo. Mas eles têm mais do que isso. Em vez de oportunidades, eles têm realidades no passado – as potencialidades que efetivaram os sentidos que realizaram, os valores que viveram – e nada nem ninguém pode lhes tirar tudo isso.

Se a vida foi vivida com a certeza de ação, amor, resiliência, persistência e responsabilidade pessoal, envelhecer deixa de ser um espaço de angústia para se tornar um território extraordinário, em que você tem a liberdade de se tornar a pessoa que sempre deveria ter sido.

Bibliografia

Kierkegaard, S. (1967). The concept of dread (Lowrie, W., Trans.). Princeton, NJ: Princeton University Press. (Original work published 1844)

Guttman, D. (2010). A logotherapeutic approach to the quest for meaningful old age. pp. 117-128 | Published online: 26 Apr 2010

Whittington, Frank J. (2009). The search for meaning in later life. Published by Oxford University Press, on behalf of The Gerontological Society of America. Vol. 49, No. 6, pp. 856–864

Frankl, V (1987). Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. Porto Alegre, Sulina, 1987; São Leopoldo, Sinodal, 1987.

Skinner, B. F., Vaughan, M.E. (1985). Viva bem a velhice: aprendendo a programar a sua vida (tradução de Anita Liberalesso Neri). São Paulo: Summus, 1985.

Cortez, Natacha (2020). Candidata à vice-prefeita de SP, Erundina tem pressa: “A velhice não impede o sonho”. Revista Marie Claire Brasil, acesso em 11 de novembro de 2020

Imagem: Heraldo Galan

Sobre o autor

Beatriz Zanichelli Sônego

Psicóloga Clínica pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Mestranda do programa de Psicoterapia Psicanalítica da University of Essex – Tavistock and Portman NHS Foundation Trust, e Pesquisadora do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.