Comportamento político

O mito da mídia manipuladora de consciências

Dez entre dez pessoas que passaram pelo ensino formal e que se interessam minimamente por política não teriam dúvida em apontar que a mídia exerce influência sobre a opinião das pessoas numa escala bem alta. Raras são as vezes em que estas opiniões, dadas em tom de alarme, não vêm acompanhadas de expressões superlativas, tais como manipulação, lavagem cerebral e controle de corações e mentes.

Muito difícil mesmo duvidar desse tipo de juízo. Tudo parece se acertar e levar à conclusão de que haja interesses políticos claros nas corporações de comunicação, especialmente na chamada grande mídia. A possibilidade de que tudo isso esteja certo existe, mas o problema é a comprovação. Alguma influência existe, podemos falar de um modo geral. Mas como conseguir fazer uma medição? Nos aproximamos muito das teorias da conspiração, particularmente quando associamos as notícias aos interesses de poder ou econômicos. Tudo isso, sem dúvida, bastante incensado pelos romances, filmes e séries.

Mas o que os estudos fundamentados na empiria, na prática de laboratórios ou nas pesquisas de opinião pública nos oferecem como dados? Eles vão confirmar essas crenças e opiniões? Diga-se que as pesquisas são feitas exatamente porque essas impressões estão espalhadas pelas sociedades, evidentemente as democráticas, que tomam como referência a liberdade de expressão e a existência de diferentes conglomerados de mídia. Vamos então ver o que a pesquisa em comportamento político tem a nos dizer sobre esse tema a partir da seguinte referência: Holli A. Semetko, Political Communication in DALTON, Russell J. and KLINGEMANN, Hans-Dieter. The Oxford Handbook of Political Behavior. Oxford: Oxford University Press, 2009. O paper apresenta uma extensa pesquisa, tanto no campo da psicologia comportamental quanto nas surveys, realizadas à exaustão nos Estados Unidos.

Não, não se pode afirmar que a mídia influencie politicamente uma pessoa, ao menos não no nível em que se pretende acreditar. Não é possível isolar todas as variáveis, que são muitas. As pessoas em questão possuem família, têm amigos, gostam ou desgostam de alguns, têm identificação com outros. Apreciam alguns órgãos de imprensa e desgostam de outros e não conseguem explicar o porquê. Alguns gostam de ler notícias, outros não. Podem possuir alguma relação de proximidade com um jornal, uma emissora, bem como podem ter uma aversão que não se consegue explicar racionalmente. Tudo isso e muito mais, em conjunto ou não, não dá para ser considerado isoladamente, e não é possível realizar um experimento que consiga se voltar para um fator somente.

Semetko enfatiza três conceitos-chave na pesquisa em comunicação política, que são: definição da agenda (agenda setting), preparo (priming) e enquadramento (framing). Na configuração ou definição da agenda, “a mais importante questão da mídia é a questão que se tornou a mais importante para a opinião pública”. Passa-se a impressão, então, de que se pode arriscar vários temas – alguns pegam, outros não. E se pegam, podem ser amplificados. Como saber o que passa realmente pela cabeça das pessoas? O priming revela a persistência de uma questão para além do momento em que ela se configurou inicialmente. O enquadramento foca no que as pessoas falam ou pensam, do ponto de vista da política. Mas também em como as pessoas pensam e falam sobre as questões que saem na mídia.

Todos esses aspectos, somados ou separados, são pensados na forma de estratégias que passam pelo interesse jornalístico, pela ambição de se alcançar o público, de manter o leitor, ouvinte ou aquele que vê notícias, ligado no assunto. Quando se toma contato com a pesquisa em comunicação política, percebe-se que ela tenta a sorte, tanto quanto a política propriamente dita e, nessa direção, ambas as práticas resistem às abordagens e definições inspiradas na matemática.

Mas quem não gosta de uma teoria da conspiração?

Imagem: Laranja Mecânica (Stanley Kubrick, 1971)

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.