Sala Hannah Arendt

Uma biografia com humor e arte

Hannah Arendt foi uma das raras intelectuais que alcançou notoriedade em vida. Uma judia, nascida no Império Alemão, cuja morte, em dezembro de 1975, aos 69 anos, foi noticiada com destaque na mídia nova-iorquina. Biografias e análises de momentos específicos de sua vida e obra foram abordados por livros, filmes e artigos em vários idiomas. Em maio de 2021, Die Zeit, renomado periódico alemão, dedicou a primeira página e longo artigo à “Profetiza da Liberdade”. Membros da Comissão Parlamentar de Inquérito instaurada para avaliar as respostas do governo brasileiro à pandemia da COVID-19 recorrem a conceitos propostos pela influente professora de filosofia e teoria política para compor seu discurso.

O livro “As Três Fugas de Hannah Arendt: uma Tirania da Verdade” oferece uma história em quadrinhos sobre essa relevante pensadora do século XX. Seu autor, Ken Krimstein, cartunista do The New Yorker e do Wall Street Journal, entre outros veículos de imprensa norte-americana, demonstra em cada página sua habilidade para expor ideias complexas de forma simples e bem-humorada. Um romance gráfico original e envolvente.

Na apresentação à edição brasileira, Claudia Perrone-Moises, coordenadora do Centro de Estudos Hannah Arendt da USP, reconhece a qualidade da pesquisa realizada por Krimstein e concorda com a perspectiva do artista no sentido de que vida e obra de Arendt se entrelaçam. Ela arrisca dizer que Hannah Arendt gostaria de ver sua obra divulgada para um público mais eclético e avalia que o uso dos quadrinhos não resultou em perda de seriedade.

Krimstein desvela uma mulher que nitidamente admira e optou por construir o texto na forma de autobiografia. A ilustração de Hannah Arendt fumando, em questionamento constante, sempre com uma peça de roupa verde, ganha expressão diferente em cada fase de vida. Pais, amigos e amores são esboçados com maestria e alguns mudam de expressão de forma dramática, como nos traços galantes e sombrios de Martin Heidegger e nos sucessivos desenhos do cineasta Billy Wilder. O surgimento de novos personagens é acompanhado de sínteses, algumas delas apontando esquisitices e particularidades, e todas em tipo miúdo, provavelmente para não poluir a composição de páginas que exprimem a atmosfera dos momentos.

A história começa em Königsberg, no Império Alemão, com uma criança cheia de perguntas indagando sobre o estado de saúde do pai. A mãe é sua referência e proteção. A dúvida e o inconformismo aparecem na infância. A identidade judaica se mostra sob a forma de acusação, vem de fora da família nuclear. Johanna Arendt se descobre judia a partir de um colega e o judaísmo lhe é introduzido como religião não praticada, uma pertença. Uma adolescente impetuosa, leitora de tragédias gregas e de Kant, escolhe estudar filosofia na Universidade de Marburg, matriculando-se nos cursos de Martin Heidegger.

A jovem apaixona-se pelo professor. Ela é a única moça entre alunos magistrais como Leo Strauss, Emmanuel Levinas e Herbert Marcuse. Transfere-se para Heidelberg, para redigir seu doutorado sob orientação de Karl Jaspers, a quem Krimstein dedicou pequena atenção, em que pese a profunda e longeva ligação entre Arendt e Jaspers. Certamente o autor teve que fazer escolhas diante do grande leque de amizades cultivadas pela protagonista.

Na sequência, Berlin, onde acontece o primeiro casamento. Krimstein retrata de forma delicada as complexidades da relação entre Günter Stern, Hannah (Stern, no período) e sua mãe Martha Arendt-Beerwald (Cohn), na esfera privada, enquanto utiliza o Café Romanisches para caracterizar o ambiente intelectual e artístico de 1933. A “sala de partos do mundo moderno” era frequentada por Sigmund Freud, Albert Einstein, Billy Wilder, Bertold Brecht, Irving Berlin e Marc Chagall, entre muitas outras pessoas que formaram nosso pensamento. Hannah Arendt já era uma intelectual reconhecida naquele contexto e algumas de suas preocupações, ideias e conceitos emergem progressivamente ao longo do livro: a(s) verdade(s), pluralidade, antissemitismo, totalitarismo, espaço público e privado, pensar e compreender, para citar alguns.

A primeira fuga, com a mãe, tem Paris como destino. A partir desse momento, Walter Benjamin recebe atenção especial no relato, tanto na formação das ideias como na vida afetiva da pensadora. A dinâmica social no campo de detenção em Gurs, quase na fronteira com a Espanha, de onde ocorre a segunda fuga, é mostrada de forma cativante, tornando-se impossível interromper a leitura. A terceira e última fuga, com mãe e segundo marido, Heinrich Blücher, conduz o trio à Nova York, onde Hannah Arendt se estabelece, conquista posição acadêmica, publica obras marcantes, constrói renome, levanta polêmicas, revela verdades virulentas que incomodam muita gente e paga um alto preço por expressar seu pensamento.

A tristeza ao acabar a leitura é amenizada pela possibilidade de voltar a saborear as páginas aleatoriamente e descobrir novos detalhes. Kim Krimstein proporciona um encontro com a arte ao compartilhar sua visão sobre Hannah Arendt, com afeto e sem idealização ou santificação. Ele homenageia uma mulher original, brilhante, destemida diante dos desafios do seu tempo, capaz de propor ferramentas intelectuais úteis e adequadas para enfrentar o mundo contemporâneo.

Imagem: Ken Krimstein (divulgação)

Sobre o autor

Ruth Steuer

Mestre e doutora em Serviços de Saúde na Faculdade de Saúde-Pública da USP. Pós-Doutorado em Estudos Organizacionais na EAESP – FGV. Integrante do Núcleo de Filosofia Política e do grupo de pesquisa "A filosofia em Hannah Arendt: significado e experiência viva" do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.