Sala Hannah Arendt

Como reconstruímos uma realidade americana compartilhada fundada em mentiras?

Artigo gentilmente cedido para publicação pelo
Hannah Arendt Center for Politics and Humanities do BARD COLLEGE

Tradução: Adriana Novaes | Revisão: Flávia Sarinho | © LABÔ
Texto original publicado em 15 de outubro de 2020 em HAC/BARD

Sobre o colapso da informação na era Trump


No dia 28 de maio de 1975, o então senador Joe Biden escreveu uma carta para Hannah Arendt.

Prezada sra. Arendt,

Eu li em um recente artigo de Tom Wickler sobre um texto seu apresentado no Boston Bicentennial Forum.
Como membro do Comitê de Relações Exteriores do Senado, estou muito interessado em receber uma cópia de seu texto.

Obrigado.

Sinceramente,

Joseph R. Biden Jr.
Senador dos Estados Unidos

O texto ao qual o senador Biden se refere é “Home to Roost” [“Tiro pela culatra”, no Brasil], uma palestra que Arendt proferiu em 20 de maio de 1975, no Faneuil Hall, que também foi transmitida cinco dias depois na Rádio Pública Nacional [1]. A palestra foi então publicada no New York Review of Books. Arendt morreu de repente poucos meses depois, em dezembro de 1975, fazendo desse discurso sua última aparição pública e de “Home to Roost” seu último ensaio concluído. “Home to Roost” foi republicado na notável coletânea de ensaios Responsabilidade e Julgamento.[2]

“Home to Roost” reúne preocupações que Arendt teve ao longo de toda a sua vida em relação à mentira totalitária e a teorias obscuras, ao lado de seu medo profundo da corrupção e do fracasso da tradição republicana americana de autogoverno livre. Convidada a falar na cerimônia do bicentenário considerada uma festa de aniversário dos Estados Unidos, Arendt se concentrou naqueles recentes “anos de aberração” nos quais o país viu seu prestígio e poder declinarem. Sua esperança, expressa nas frases finais de sua fala, é de que quando os fatos acerca da corrupção do país se revelassem “tiros pela culatra” na crise enfrentada pela república, nós “ao menos tentaríamos” tornar os fatos bem-vindos. “Não nos deixemos levar por algumas utopias – imagens, teorias ou pura bobagem”. Pela causa da liberdade, Arendt questiona, vamos procurar confrontar os fatos sobre quem somos e onde ficamos aquém de nossos ideais.

Os fatos da crise enfrentada pelos Estados Unidos são inúmeros na fala de Arendt. Apenas nove meses antes, o presidente Nixon havia renunciado em decorrência do Watergate e foi perdoado pelo presidente Ford. Acrescente a derrota no Vietnã, a crise do macarthismo, a falência da cidade de Nova York, a “destruição de um confiável e devotado serviço civil”. Tudo isso foi seguido pela aparição do “americano feio” nas relações exteriores imperialistas. Foi por isso que ela considerou que, para comemorar o aniversário de duzentos anos da República dos Estados Unidos, “eu temo que nós não poderíamos ter escolhido um momento menos apropriado”.

Quarenta e cinco anos depois do senador Biden ter escrito para Hannah Arendt, agora o vice-presidente Biden concorre à presidência em meio a outro momento de crise para a democrática e constitucional República dos Estados Unidos. Os fatos de nossa crise atual incluem o impeachment do Presidente por abuso de poder pela câmara (Casa dos Representantes), uma guerra cultural e política opondo elites educadas contra americanos de estratos sociais mais baixos, rebeliões contra orientações de especialistas e um serviço civil profissional, um contínuo acerto de contas com mais de 200 anos de escravidão, 100 anos de Jim Crow e o racismo que justifica os dois, uma pandemia que se transformou numa batalha partidária com consequências letais e a recessão mais desigual da história dos Estados Unidos, mal impactando aqueles que trabalham de suas telas, enquanto causam miséria da era da depressão para milhões que estão na base da pirâmide econômica.

O que une esses dois momentos de crise separados por meio século é a fuga da realidade que Arendt entendeu estar no centro de nosso dilema moderno. Ela liga esta aversão à realidade primeiro ao instinto de eruditos e intelectuais para procurar “causas mais profundas” do que deu errado. As especulações dos intelectuais são “muitas vezes rebuscadas e quase sempre baseadas em suposições que são anteriores a um exame imparcial do registro fatual”. É da natureza de tais teorias especulativas “esconder e nos fazer esquecer a rigidez, a brutalidade nua dos fatos, das coisas como elas são”.

Arendt também traça a fuga moderna da realidade para a doutrina do progresso, a “premissa fundamental de toda esta era” de que devemos nos manter crescendo, nos tornando maiores e mais eficientes.

Tanto no socialismo quanto no capitalismo, há uma crença de que devemos nos tornar sempre mais ricos e maiores. Não porque haja algo bom ou belo em se tornar maior, mas porque vivemos amedrontados com o que vamos encontrar se pararmos de seguir adiante. “[Parar] de ir, parar de desperdiçar, parar de consumir cada vez mais e mais rápido, dizer a qualquer momento que é suficiente, seria sinal de desgraça iminente.”

Mais importante, Arendt argumenta que a recusa da realidade está ligada à “manipulação em massa de fatos e opiniões”,[3] que ela atribui às consequências “decisivas” do aumento das relações públicas que “invadiram nossa vida política”. O principal exemplo de Arendt do domínio da criação de imagem na política é a Guerra do Vietnã. Olhar para a Guerra do Vietnã é ser confrontado com uma realidade que é “inacreditável”: o horror da guerra, as falhas da política dos Estados Unidos; as mentiras e a corrupção; e as atrocidades cometidas. Esta empreitada “não muito honrada e não muito racional era”, ela escreve, “guiada exclusivamente pelas necessidades de uma superpotência para criar para ela mesma uma imagem que convenceria o mundo de que era na realidade “a mais poderosa potência da terra.” A guerra no Vietnã não foi feita por “poder nem lucro”. Não visava dominação imperialista. O objetivo não era nem mesmo influência na Ásia. “A terrível verdade” revelada pelos Documentos do Pentágono era que o “único e permanente objetivo se tornou a própria imagem.” A guerra foi feita para “espectadores” de acordo com “cenários” imaginados e como eles seriam percebidos. E no final, todo o esforço não era para evitar a derrota, mas “evitar admitir a derrota e manter a imagem de ‘mais poderosa potência da terra’ intacta.”

Hoje, nossa paixão pelas imagens e nossa fuga do mundo real estão ao nosso redor. O presidente mentiu sobre o tamanho do público no dia de sua posse. Ele mentiu para o povo americano sobre o coronavírus. Ele agora mente sobre a ameaça de fraude eleitoral. Ainda nesta semana, ele apareceu na corrida eleitoral depois de ter testado positivo para a COVID-19. A audácia das mentiras de Trump é às vezes difícil de entender. O que precisa ser compreendido, contudo, é que as mentiras do presidente não são tentativas de convencer ou persuadir; suas mentiras são calculadas para dar suporte a sua imagem. Suas mentiras sobre a posse são para proteger sua imagem de líder poderoso. Mas acima de tudo, suas mentiras que atacam especialistas, funcionários públicos, as agências de inteligência e nossas instituições políticas são destinadas a lustrar sua imagem de alguém que diz a verdade.

É uma ironia que o maior mentiroso a ocupar a presidência tenha vencido em grande parte porque as pessoas o viram como alguém que estava contando a grande verdade – de que o sistema está quebrado e é corrupto. Donald Trump pode parecer alguém que diz a verdade porque ele rejeita as teorias e as especulações feitas pelos especialistas e eruditos que têm justificado globalização, imperialismo, racismo sistemático, cultura do estupro e objetividade da imprensa. Globalização e livre comércio foram vendidos como bens sem restrições pelas classes cosmopolitas que rodavam o mundo assistindo a conferências e abrindo fábricas, enquanto milhões de pessoas das classes baixa e média viam seus ganhos diminuírem com poucos benefícios. A intervenção dos Estados Unidos em outros países é defendida pela elite da política externa como necessária para sustentar a ordem mundial liberal, mas as pessoas que lutam nessas guerras são quase exclusivamente aquelas da base da escada econômica e social. Racismo sistemático e privilégio branco abrigam uma teoria de culpa coletiva, ignorando diferenças de classe, origem e dificuldades, e esquecendo que, onde todos são culpados, ninguém é culpado – tudo isso leva à estratégia de relações públicas de admitir uma culpa abstrata dissociada das consequências. A reivindicação do movimento #MeToo para que se “acredite nas mulheres” – fundamentada, claro, no silenciamento de longa data das mulheres – cria a demanda ideológica de que se deve acreditar em todas as mulheres, até, claro, alguém como Tara Reade acusar Joe Biden de estupro ou professores feministas populares serem acusados de assédio, ponto em que a frase “acredite nas mulheres” chega ao seu limite. E a adoção do “jornalismo de resistência” pela maioria da elite da mídia, finalmente, deixou claro o viés real do jornalismo da grande imprensa que amplamente ignora e reduz a visão de mundo daqueles que estão fora dos centros de cultura urbana e elitista. Não há maior exemplo disso do que o esforço contínuo de alguns da imprensa em conectar os pontos mostrando o conluio do presidente Trump com a Rússia mesmo depois do relatório Mueller não encontrar nenhuma evidência de tal conluio.

O problema hoje não é simplesmente que o presidente Trump mente incessantemente. Não é apenas que aqueles à esquerda insistem em teorias e especulações que desafiam o bom senso. É fácil focar nas mentiras específicas que o presidente conta, porque elas são muito descaradas. Conspirações são bem-sucedidas e não apenas nas margens de nossa sociedade: há a acusação da Qanon acerca de uma rede de pedofilia que abrangeria todo o governo americano; a fantasia do #Obamagate de que o presidente Obama e o vice-presidente Biden conspiraram para impedir que o presidente Trump vencesse a eleição; há a alegação fictícia de que o presidente Obama e o atual congressista Ilhan Omar não são cidadãos americanos; os que negam o Holocausto estão crescendo e apoiadores do “Russiagate” insistem que o presidente Trump é controlado por Moscou. Apontar que conspirações impactam tanto a esquerda quanto a direita não é estabelecer uma equivalência; é, contudo, reconhecer que há uma fuga da realidade em nossos mundos social e político: hoje, mentir se tornou um modo de vida.

“Mentir como um modo de vida”, Arendt observa, foi “muito bem-sucedido em países sob comando totalitário”. Em regimes totalitários, a mentira era orientada por ideologias e reforçada pelo terror. Apenas um regime totalitário pode fazer mentiras audazes e óbvias parecerem críveis. Eles fazem isso primeiro escolhendo ficções ideológicas plausíveis, mas simples – que uma conspiração de judeus controla a política mundial – e organizando uma narrativa lógica e coerente em torno dessa ficção. Esses “fatos” não são objetivos, mas são considerados parte da fantasia ideológica, se tornam um “elemento real e intocável em suas vidas como as regras da aritmética.” E como o “fato” de uma conspiração judaica não é um fato, mas o eixo de um mundo logicamente coerente, é infalível contra argumentos baseados na realidade.

Em estados totalitários, a mentira era orientada por uma ideologia e portanto teve uma consistência lógica que dissocia completamente as mentiras da realidade, que é sempre complicada e nunca lógica. O totalitarismo promete às massas solitárias o que elas querem: uma fantasia logicamente coerente que substitui uma realidade confusa e desconfortável. Mas os Estados totalitários só poderiam consolidar suas mentiras pelo terror – normalizando uma “criminalidade absoluta” pela qual mentiras seriam certificadas pelo assassinato em massa. Pois um modo seguro de “provar” o fato da conspiração judaica mundial é exterminar os judeus e fazer deles os inimigos que você diz que são. Ao trazer a criminalidade para dentro do processo político em uma escala gigantesca, a Alemanha nazista garantiu a crença na realidade ideológica ficcional.

Arendt não acreditava que o totalitarismo, como existiu na Alemanha nazista ou na Rússia bolchevista, fosse uma ameaça nos Estados Unidos. Ela percebeu que a opinião pública nos Estados Unidos, ciente dos perigos do totalitarismo, não estava preparada para tolerar assassinato em massa, campos e terror. E, no entanto, escrevendo logo após a mentira flagrante sobre o Vietnã, os roubos e acobertamentos do Watergate, inflação desenfreada e decadência urbana em meio à recusa em assumir a crise econômica no país, ela acredita que a opinião pública parecia pronta para tolerar “todas as transgressões políticas exceto assassinato”. Em outras palavras, se “mentir como um modo de vida” poderia não sustentar os tipos de evidência de criminalidade em Estados totalitários, pode servir para ofuscar e justificar um nível mais baixo de criminalidade em uma República Americana em declínio.

Políticos americanos consistentemente escapam impunes de mentiras e até de flagrante criminalidade. O primeiro exemplo de Arendt é Richard Nixon e o Watergate. Embora os crimes de Nixon “estivessem muito longe do tipo de criminalidade com o qual estávamos inclinados a compará-lo”, os fatos são claros: a administração Nixon incluía muitas pessoas que – se não criminosos – eram tão atraídos pela “aura de poder, suas armadilhas glamourosas”, que se viam acima da lei. Nixon e aqueles ao seu redor assumiram que poderiam e escapariam de seus crimes, porque acreditavam que “todas as pessoas são na verdade como eles”. Pensavam que todas as pessoas são, no fim, corruptíveis. Então, eles acreditaram que juízes, a imprensa e os políticos poderiam ser comprados ou intimidados. Eles buscaram negar a realidade de seus crimes espalhando a imagem da corruptibilidade humana – todos os homens teriam feito o mesmo.

Contra a coerência ideológica lógica respaldada pelo terror que sustenta a grande mentira em Estados totalitários, Arendt vê que a mentira na República Americana dos anos 1970 era baseada no poder persuasivo oculto de uma imagem: a saber, a imagem de que aqueles que se tornaram “cúmplices em atividades criminosas” na busca por poder eram normais, como todos os outros, e “estariam acima da lei”. O que Nixon buscava era substituir a sustentação totalitária da mentira como princípio do governo pelo terror por uma cultura da mentira como um modo de vida que poderia persistir porque ninguém se importaria. Ele e seus comparsas imaginaram que a mentira como uma atividade cotidiana na busca de poder seria tão aceitável para seus concidadãos quanto era para eles. E, para surpresa de Nixon, o público não foi receptivo a tal pressão e manipulação pelo Executivo. A imprensa e as instituições republicanas americanas contra-atacaram. “O grande erro de Nixon – além de não queimar as fitas a tempo – foi julgar mal a incorruptibilidade das cortes e da imprensa”.

O tipo de mentira que Arendt viu emergir nos Estados Unidos – mentir como um modo de vida – não era a mentira política tradicional que pretendia proteger segredos de Estado. Não dizia respeito a “dados que nunca se haviam tornado públicos”.[4] Em vez disso, a mentira moderna que emergiu no século XX “lida eficientemente com coisas que em absoluto constituem segredos, mas são conhecidas praticamente por todo mundo.”[5] Todos podem saber que Nixon era um criminoso; a questão é se eles se importariam.

De modo semelhante, todos hoje sabem não apenas que o presidente Trump mente, mas também que ele é um vigarista na melhor e um criminoso na pior das hipóteses: o presidente sonega impostos; ele paga grandes quantias para prostitutas; assedia mulheres; importuna e intimida empreiteiros e empregados a aceitar menos dinheiro do que o devido; uma outra pessoa fez seu vestibular; ele encoraja líderes estrangeiros e corporações norte-americanas a fazer negócios em seus hotéis, lucrando graças à presidência; e abusa de seu poder para buscar vantagem política. O presidente é um vigarista e nós estamos todos na vigarice. Suas mentiras simplesmente fornecem negação plausível a sua verdade, de que ele é um vigarista que é poderoso o suficiente para escapar assumindo o controle do país mais poderoso da Terra. Suas mentiras não são elaboradas para serem críveis. São elaboradas para fomentar o caos e a instabilidade, tudo em nome da imagem de poder.

Considere uma de suas mais descaradas mentiras. Em meio aos protestos contra o assassinato de George Floyd por um policial branco em Minneapolis, no dia 25 de maio de 2020, um manifestante chamado Martin Gugino se aproximou de uma fileira de policiais em Buffalo, Nova York. A fileira de policiais, com oficiais usando equipamento de choque tático, estava avançando para afastar os manifestantes da Niagara Square, em Búfalo, às 8h10min da noite, dez minutos depois do toque de recolher das 8h00. Gugino, um senhor de 75 anos e “um pacifista de longa data e pessoa gentil”,[6] se aproximou da fileira da polícia. Dois oficiais brandindo cacetetes empurraram Gugino, que tropeçou e caiu para trás, batendo a cabeça. Seu ouvido começou a sangrar. A polícia formou um círculo ao redor de Gugino. Finalmente ele foi levado para um hospital, onde se recuperou.

Cinco dias depois, o presidente Donald Trump tuitou que Gugino “poderia ser um provocador da ANTIFA” e que ele pareceu “sondar as comunicações da polícia para bloquear o equipamento”. O presidente também escreveu: “Eu assisti, ele caiu com mais força do que foi empurrado. Estava querendo sondar. Poderia ser uma armação?”[7]

O tuíte do presidente foi rapidamente refutado pelos principais meios de comunicação [8] e até mesmo por um número limitado de senadores Republicanos.[9] Ninguém na grande imprensa ou na vida política do país acreditava no presidente. Então por que o presidente conta essas mentiras?

Há ao menos três respostas para a questão de por que o presidente pode mentir de forma tão óbvia. A primeira é que mentir é simplesmente uma parte da política. “A veracidade”, na famosa observação de Arendt, “nunca esteve entre as virtudes políticas.”[10] A ação política busca a mudança; ela deve iniciar algo novo. Mas uma mudança não é possível se não podemos “nos remover mentalmente de onde estamos fisicamente e imaginar que as coisas poderiam ser diferentes do que realmente são.” Assim, todo ativismo político e mudança exigem a imaginação, a capacidade de deliberadamente negar a “verdade dos fatos – isto é, a capacidade de mentir.”[11] Não só podemos dizer que o sol brilha quando está chovendo, podemos dizer que “todos os homens são criados iguais”, quando sabemos com certeza que eles são todos incrivelmente diferentes e únicos. Sem esta “liberdade mental de negar ou afirmar a existência”, Arendt escreve, nem a ação e nem a política é possível.[12] Mentiras estão no centro da iniciativa política.

A segunda razão pela qual o presidente pode mentir sem consequências é que fatos políticos são contingentes, dependem de concordância e persuasão. Mesmo a mentira aparentemente clara do presidente em seu tuíte sobre o Sr. Gugino pode se converter em declaração verdadeira. Seu tuíte é expresso sugestivamente: Gugino “bem que poderia ser um provocador da ANTIFA”. Gugino “parecia” sondar comunicações policiais. O presidente faz uma pergunta: “Poderia ser uma armação?” Chamar o presidente de mentiroso ou checar suas declarações bem pode levar a uma análise dos fatos de tal modo que todos se reduzem a declarações de opinião. Esta transformação de fato em opinião pode destruir o mundo comum. Isso nos lembra que “fatos” são contingentes e apenas são “verdadeiros” quando um número suficiente de pessoas da comunidade política acredita neles.

Finalmente, as mentiras do presidente mostram o crescimento cancerígeno da máquina de relações públicas para abranger todas as áreas da vida política e econômica, de modo que a mentira e a fuga da realidade se tornam questões de princípio. Quando mentir se transforma em meio de vida, a ideia de verdade é transformada em uma batalha de imagens concorrentes. A questão sobre se há fraude eleitoral deixa de ter uma resposta verdadeira; é transformada em uma disputa, um duelo entre imagens. Usar uma máscara é medicamente seguro? É, em vez disso, uma declaração tendenciosa, uma imagem representando o comprometimento político de alguém. “O resultado de uma substituição coerente e total da verdade dos fatos por mentiras,” Arendt escreve, “não é passarem estas a ser aceitas como verdade, e a verdade ser difamada como mentira, porém um processo de destruição do sentido mediante o qual nos orientamos no mundo real – incluindo-se entre os meios mentais para esse fim a categoria de oposição entre verdade e falsidade.”[13]

O objetivo final de mentir como um modo de vida não é fazer com que as mentiras sejam críveis, mas consolidar o cinismo. Quando o cinismo impera, não apenas tudo é permitido; mas também tudo é possível. O cinismo é o terreno fértil no qual o poder cresce sem parar, ausentes as restrições da realidade.

E para tal cinismo, Arendt se aflige, “não há remédio.”[14] O que a mentira consistente consegue é a “experiência de um movimento trêmulo e titubeante de tudo aquilo em que nos apoiamos para nosso senso de direção e realidade é uma das experiências mais comuns e mais vívidas dos homens sob um governo totalitário.”[15] Mas se a realidade no governo totalitário oscila como um resultado do terror impondo mentiras, na corrupção de nosso presente político, a realidade oscila porque a imagem, tendo ultrapassado a verdade, se tornou persuasiva.

Arendt oferece uma metáfora de se sentar ao redor de uma mesa para compreender o que significa quando o mundo real é perdido. Enquanto a mesa estiver lá, somos todos parte da conversa, conectados pela mesa que cria algo como o mundo que nos une. Remova a mesa e nós nos tornamos indivíduos isolados, sentados no espaço. De modo semelhante, estórias que contamos e canções que entoamos nos unem e nos guiam para vivermos juntos como uma coletividade. Instituições que respeitamos e símbolos que reverenciamos inspiram em nós um senso compartilhado de propósito. E celebrações e homenagens nos oferecem uma liturgia comum que constrói uma fundação sobre a qual nos firmamos, um terreno compartilhado apesar de nossas muitas diferenças. A construção e o cultivo desse mundo comum compartilhado é a atividade da política; política é a contação de estórias e construção de instituições que unem uma multidão de indivíduos em um projeto comum e significativo.

O mundo político precisa de uma realidade compartilhada que, por sua vez, é baseada em um mundo fatual; e ainda assim os fatos políticos são contingentes, eles dependem de concordância e persuasão. O fato de que a Terra está aquecendo por causa da atividade humana, o fato de que o aborto é um direito constitucional, o fato de que vivemos em uma democracia constitucional e o fato de que racismo sistemático ocasiona desvantagens aos negros americanos são fatos que poderiam ser de outro modo e que podem ser contestados. Mas a verdade fatual “relaciona-se sempre com outras pessoas” e tal verdade existe apenas na medida em que se fala sobre ela.[16] Verdades fatuais apenas são “fatos” quando são críveis por um número suficiente de pessoas em uma comunidade política, de modo que passem a fazer parte do mundo público.

É falando uns com os outros que passamos a compartilhar pontos de referência comuns e em nossa conversa conjuramos o mundo fatual. Nesse ponto, os fatos se tornam parte de nossas verdades compartilhadas, “o solo sobre o qual nos colocamos de pé e o céu que se estende acima de nós.”[17] A tendência a “transformar o fato em opinião, a borrar a linha divisória que os separa”, pode levar a uma situação na qual “simples afirmações fatuais não são aceitas”, e até os fatos mais básicos se dissolvem na diversidade de pontos de vista.[18] Quando isso acontece, não há permanência nem durabilidade no mundo. Um mundo sem durabilidade e permanência é um mundo inumano e deixa de ser um lar e um refúgio para seres mortais.

Embora Arendt se pergunte se não poderia haver remédio para o cinismo, ela também oferece uma fé de que, em meio às ruínas de nosso mundo humano, um novo mundo possa renascer. Ela tem uma crença fundamental no poder do discurso. Ela escreve: “tornamo-nos mais justos e piedosos ao refletir e falar sobre elas [justiça e piedade].”[19] Mas por quê?

Primeiro, ao falar sobre o mundo com outros, com aqueles que discordam, tornamos o mundo visível em sua complexidade. Segundo, falando sobre o mundo, também fazemos julgamentos e tomamos decisões sobre o mundo. Essas decisões, admite Arendt, “podem um dia se mostrar totalmente inadequadas.” Mas mesmo que não existam acordos sobre a natureza de uma crise e como resolvê-la, o ato de falar um com o outro sobre as crises de nosso tempo, ela argumenta, “eventualmente vai estabelecer a base para novos acordos entre nós, assim como entre as nações da terra, que então podem se tornar costumes, regras [e] padrões que outra vez serão congelados no que é chamado de moralidade.” Ao conversar uns com os outros criamos os tipos de experiências compartilhadas e pontos de conexões comuns que poderiam, ao longo do tempo, se tornar os tijolos para a construção de um novo mundo compartilhado que pode fazer nascer novas tradições e então uma ordem moral nova.

Este potencial renascimento de um novo mundo ético comum não é apenas possível, mas provável. Isso depende, contudo, da coragem de falar honestamente e abertamente uns com os outros sem rigidez ideológica. Se e quando o fizermos, vamos compreender o que compartilhamos e em que discordamos. Se e quando abrirmos de fato um mundo comum, começaremos o processo de tornar esse mundo existente. Essa é a fonte do otimismo de Arendt: “Eu pessoalmente não duvido que da turbulência de ser confrontado com a realidade sem a ajuda de precedentes, isto é, da tradição e da autoridade, surgirá finalmente algum novo código de conduta.” A única forma de se engajar na crise de nosso mundo oscilante é confrontar a realidade e falar honestamente sobre ela com outros.

Notas

[1] O artigo que o então senador Biden leu era “The Lie and the Image”, de Tom Wicker, publicado no The New York Times de 25 de maio de 1975.

[2] Citações de “Tiro pela culatra” são da edição brasileira do livro Responsabilidade e julgamento, edição de Jerome Kohn, tradução de Rosaura Eichenberg, editora Companhia das Letras, 2004.

Texto “Verdade e Política”, texto do livro Entre o passado e o futuro, 4ª Edição, editora Perspectiva, Tradução Mauro W. Barbosa de Almeida, 1997. p. 311.

[3] “Verdade e Política”, p. 311.

[4] “Verdade e Política”, p. 311.

[5] “Verdade e Política”, p. 311.

[6] https://nypost.com/2020/06/05/martin-gugino-buffalo-man-pushed-by-police-is-long-time-activist/

[7] https://www.nytimes.com/2020/06/09/nyregion/who-is-martin-gugino-buffalo-police.html

[8] https://www.nytimes.com/2020/06/09/nyregion/who-is-martin-gugino-buffalo-police.html

[9] https://www.politico.com/news/2020/06/09/republicans-deflect-questions-after-trump-tweet-75-year-old-protester-309075

[10] “A Mentira na Política”, texto do livro Crises da República, tradução de José Volkmann, editora Perspectiva, 2006. p. 15; “Verdade e Política”, p. 283.

[11] “A Mentira na Política”, p. 15.

[12] “A Mentira na Política”, p. 15.

[13] “Verdade e Política”, p. 317-318.

[14] “Verdade e Política”, p. 318.

[15] “Verdade e Política”, p. 318.

[16] “Verdade e Política”, p. 295.

[17] “Verdade e Política”, p. 325.

[18] “Verdade e Política”, p. 294. [19] “O caráter de crise na sociedade moderna”, texto do livro Pensar sem corrimão: compreender 1953-1975, organização e apresentação de Jerome Kohn, Tradução de Beatriz Andreiuolo; Daniela Cerdeira; Pedro Duarte; e Virgínia Starling; 1a Edição, editora Bazar do Tempo, 2021. p. 380.

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Sobre o autor

Roger Berkowitz

Diretor Acadêmico do Hannah Arendt Center for Politics and Humanities da Bard College e também professor de Política, Filosofia e Direitos Humanos da mesma instituição.