O vazio existencial na contemporaneidade

Ciência ou ciências no enfrentamento da pandemia?

A pandemia da covid-19 afetou toda a humanidade e, sendo incomum um evento dessa magnitude, obviamente, surgem desafios. Muitos desses desafios foram impostos ao sujeito que vive a pandemia, isto é, ao indivíduo mesmo, enquanto outros estão relacionados ao grupo de sujeitos, à sociedade. Com relação ao primeiro tipo, os direcionados ao indivíduo, viu-se muito mais do que o adoecimento físico proveniente da doença e suas sequelas, mas também o luto pelos falecidos, o adoecimento psíquico, problemas econômicos, pobreza, fome, entre outros. Talvez esses sejam os mais fáceis de perceber, pois ao longo de mais de um ano de pandemia estiveram presentes na vida de todos, senão direta, ao menos indiretamente.

Diante dessa realidade, a palavra enfrentamento tem destaque não apenas por ser muito ouvida em discursos políticos, mas porque é uma atitude de todos que vivem a pandemia. Em maior ou menor grau, todos os indivíduos tiveram de enfrentar os desafios advindos dela, cada qual a seu modo, com suas particularidades. Em última análise, o enfrentamento, seja da pandemia, seja de qualquer outra questão que convoque o indivíduo, é sempre singular, pois evidencia e se explicita naquilo que há de único no sujeito. Cada um de nós experimentou a pandemia a seu modo, teve de enfrentar novos desafios, por mais iguais que fossem para outros indivíduos, e deu respostas únicas, por mais “comuns” que fossem.

Entretanto, apenas unicidade e individualidade não são suficientes para enfrentar a pandemia, afinal, como dissemos inicialmente, existem também os desafios impostos ao grupo, à sociedade. Para enfrentar tais desafios são necessárias políticas públicas efetivas, abrangentes e eficazes, pois sem elas o enfrentamento se torna fraco e insuficiente, seja da pandemia, seja de qualquer outro problema que atravesse a sociedade. Defini-las não é uma tarefa simples, mas Souza (2006, p. 26) resume que se trata de “colocar o governo em ação”, isto é, implementar medidas, analisá-las e, quando necessário, realizar mudanças no curso das ações. A concepção de ser humano considerada na formulação de tais políticas influencia diretamente no sucesso ou insucesso das mesmas.

O tema “políticas públicas” envolve, como o próprio nome sugere, a governança política. Quando se pensa o enfrentamento da pandemia pela esfera pública brasileira, temos uma lista de questões a serem melhoradas (e talvez, julgadas): suspeitas de desvio de verbas, suspeitas de superfaturamento na compra de equipamentos, negligência e atraso de ações, desorganização entre os três poderes da República, falta de coordenação entre as esferas executivas (federal, estadual e municipal) e a lista continuaria. Além disso, falta de coerência entre o dizer e o fazer, discussões vazias e discursos equivocados envolvendo ciência também foram observados, por vezes, no meio político brasileiro.

De acordo com o dicionário Caldas Aulete digital, a palavra equivocar tem três significados: i) enganar-se, trocando uma pessoa ou coisa por outra; ii) ter uma opinião, impressão ou ideia errônea a respeito de alguém ou de algo; e, por fim, iii) confundir. Se pensarmos o uso da palavra “ciência”, nos discursos políticos, juntamente com as definições apresentadas, perceberemos o equívoco, uma vez que o significado de ciência não está claro nos discursos e uma nova busca no mesmo dicionário por tal palavra nos revela oito definições distintas, além de uma série de outros usos, como ciências biológicas, ciências da saúde, ciências econômicas etc. Pode-se levantar a possibilidade de que o uso da palavra ciência se refere ao método científico (que não é único), mas quando olhamos os recursos utilizados nas políticas públicas de enfrentamento – tanto instrumentais quanto humanos –, vemos uma área em destaque, a Medicina.

Nesse sentido, dar destaque a uma ciência, que pode não estar explícita no discurso, uma vez que este é inespecífico, mas nas ações, é diminuir a importância ou não valorizar as demais ciências que colaboram no enfrentamento. Diante disso, pode-se falar de um reducionismo científico, na medida em que, no discurso político, a palavra faz da parte o todo, isto é, faz de uma ciência a ciência. De forma alguma esta reflexão é uma crítica à ciência médica enquanto área do conhecimento, imprescindível à saúde e bem-estar humanos, e que realmente adquiriu ainda mais valor em tempos de pandemia. Antes, é uma crítica ao reducionismo da ciência, proferido em palanques públicos.

Existe um componente histórico no reducionismo científico, a saber, a grande valorização que era conferida à ciência médica há décadas em nosso país. Não à toa, graduados(as) em Medicina são chamados Doutores(as) até hoje. Por outro lado, não se pode negar o avanço contra esse reducionismo ao longo do tempo, que levou a aprofundamentos importantes nas ciências em geral e também no trabalho em conjunto entre diferentes áreas. Ainda assim, a vivência da pandemia mostrou que o reducionismo perdura em nossa sociedade, como se evidenciou, principalmente, nas políticas públicas de enfrentamento. Como dito anteriormente, embora as ações públicas sejam tomadas em benefício de um grupo, a visão que se tem de sujeito é importante, pois o grupo é formado por seres humanos. Nessa linha, o reducionismo científico apresenta uma raiz mais profunda que o simples componente histórico: o reducionismo do homem.

Esse problema foi bastante visível ao longo do século XX. Com o avanço contínuo das ciências e dos métodos, houve uma tendência a explicar o ser humano a partir de uma ou outra disciplina. A exemplo, olhemos para a Psicologia: no início de sua curta história (parafraseando a célebre frase creditada a Hermann Ebbinghaus), lançava sobre o homem um olhar fisiologista, isto é, reduzia o ser humano a uma dimensão puramente fisiológica. Em um momento posterior, o psicologismo, ou seja, a explicação unicamente psíquica dos fenômenos humanos, prevaleceu. Esses episódios não representam a totalidade da ciência psicológica, mas foram momentos importantes. Tão importantes que muitos pensadores, médicos e psicólogos buscaram ampliar a visão que se tinha de homem.

Uma dessas pessoas foi Viktor Emil Frankl (1905-1997), psiquiatra e neurologista vienense, fundador da terceira escola de psicoterapia de Viena, a Logoterapia. Frankl aponta que o ser humano possui três dimensões: i) a dimensão física, envolvendo processos físico-químicos; ii) a psicológica, que abarca sentimentos, pensamentos, comportamentos dentre outros; e, por fim, iii) a dimensão noética, também denominada espiritual, que representa o que há de genuíno no homem – a liberdade, a capacidade de ir além de si mesmo (autotranscendência) e de ver a si mesmo (autodistanciamento). Propõe ainda que o indivíduo é livre apesar de tudo, pois a dimensão espiritual não adoece e não é passível de condicionamento. Essa dimensão permite ao indivíduo ser humano, expressar atitudes humanas, vivenciar valores e encontrar sentido na existência (FRANKL, 2011).

O reducionismo do homem à época de Frankl se caracterizava, principalmente, por uma visão desumanizadora. Sobretudo na área da saúde, não se considerava a tridimensionalidade do ser humano, no máximo se alcançava uma bidimensionalidade, conforme critica Frankl (2005, p. 68): “O que no presente momento parece necessário na psicologia, mais que qualquer outra coisa, é que a psicoterapia entre na dimensão humana, a dimensão dos fenômenos humanos.” Essa necessidade se justifica pelos problemas gerados pelo olhar bidimensional, como a exclusão de pessoas portadoras de doenças mentais, incluindo a criação dos manicômios, que serviam também para “guardar” todos aqueles que familiares abastados quisessem, assim como a medicalização irrestrita, baseada na ideia mecanicista de homem.

Na esfera individual, o reducionismo, seja qual for, acarreta sofrimento, pois há uma dicotomização do indivíduo, isto é, ele não é considerado por inteiro. Ao excluir uma dimensão do homem, toda ação tomada visando seu bem-estar pode não ser eficaz. Em razão disso, a Organização Mundial de Saúde, em sua constituição de 1947, ao apresentar a definição de saúde como um completo bem-estar físico, psíquico e social, estabeleceu também um olhar tridimensional ao ser humano (WHO, 2006).

Partindo da ideia de reducionismo do homem, que é base para o reducionismo científico, quais são as implicações práticas no enfrentamento da pandemia? O reducionismo encerra o debate sobre outras questões e necessidades do sujeito, e quando há espaço para debate, não há prioridade nas políticas públicas. A exemplo, o cuidado em saúde mental foi objeto de atenção ao longo da pandemia, incluindo de organizações internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, porém a ação política não seguiu essa direção. Em um estudo sobre o impacto da pandemia sobre serviços de saúde mental, neurológica e de abuso de substância, 93% dos países envolvidos afirmaram considerar saúde mental em suas políticas públicas de combate à pandemia. No entanto, apenas 7% possuíam os recursos necessários para a aplicação dessas políticas (PAHO, 2020).

Consequências da pandemia também têm influência negativa sobre a saúde. Conforme apontam Papalia e Feldman (2013), a pobreza é um fator de risco não apenas para a saúde de modo geral, mas também para o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Nesse sentido, a economia tem um papel de grande relevância nos debates e nas políticas públicas, pois se relaciona com empregos, renda, arrecadação de impostos e, por consequência, também com o financiamento das políticas públicas. Além disso, a própria política de isolamento social merece maior atenção, porque traz consigo consequências negativas, como sentimentos de tristeza, alterações no sono, dificuldade de adaptação, dentre outros. Isso evidencia a necessidade de expandir a discussão sobre os determinantes da saúde para além do processo saúde-doença e corrobora a ideia de que a atuação política na pandemia se pautou pelo reducionismo (ALVES et al., 2020; BEZERRA et al., 2020).

Áreas técnicas não relacionadas diretamente à saúde também têm importante espaço no combate à pandemia. Quando olhamos grandes centros urbanos, vemos, nos chamados “horários de pico”, gigantescas aglomerações de pessoas aguardando para entrar em um trem ou em um ônibus. Sendo bastante provável que o transporte público tenha contribuído muito para a transmissão do vírus, seria essencial estabelecer formas de diminuir e/ou diluir o fluxo de pessoas nessa modalidade. Além disso, a distribuição de insumos, equipamentos, vacinas e medicamentos também dependem de organização logística eficiente, sobretudo em um país continental como o nosso. Esses são alguns exemplos que mostram a necessidade de ampliar o debate e a elaboração de políticas públicas.

O enfrentamento da pandemia é, portanto, multifacetado: é mais do que o cuidado biológico e o combate a um vírus, é mais que o cuidado em saúde mental e vai além de simples aspectos econômicos e sociais. O enfrentamento efetivo se faz utilizando-se de todas as ferramentas que nós mesmos criamos: as ciências. Mas mais que isso, se faz também com o que há de mais genuíno em nós: a humanidade. Por isso, ela precisa ser considerada, seja no debate público, seja no enfrentamento individual.

A partir do exposto, constituem desafios: i) à política brasileira, a incorporação efetiva e eficaz de outras disciplinas no debate e na elaboração de políticas públicas; ii) aos órgãos de classe, que necessitam colocar-se, de fato, diante das demandas sociais que lhes competem; e iii) à população, que além de exigir um cuidado integral, deve também buscar as iniciativas já existentes e ampliar a própria percepção de saúde. Esse conjunto aponta para um desafio maior, a longo prazo: a humanização do ser humano. Como já mencionado, essa questão é antiga e já teve algum progresso, mas não se pode regredir quando a situação pede um olhar humano para o ser humano.

Referências

ALVES, Thiago; FARENZENA, Nalú; SILVEIRA, Silvia A. Dragone; PINTO, José Marcelino de Rezende. Implicações da pandemia da COVID-19 para o financiamento da educação básica. Rev. Adm. Pública, v. 54, n. 4, pp. 979-993, 2020.

BEZERRA, Carina Bandeira; SAINTRAIN, Maria Vieira de Lima; BRAGA, Débora Rosana Alves; SANTOS, Flaviano da Silva; LIMA, Ana Ofélia Portela; BRITO, Edla Helena Salles de; PONTES, Camila de Brito. Impacto psicossocial do isolamento durante pandemia de covid-19 na população brasileira: análise transversal preliminar. Saúde e Sociedade, v. 29, n. 4, 2020.

FRANKL, Viktor Emil. A vontade de sentido: fundamentos e aplicações da logoterapia. Tradução de Ivo Studart. São Paulo: Paulus, 2011.

______. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Tradução de Victor Hugo Silveira Lapenta. Aparecida: Ideias&Letras, 2005.

PAN AMERICAN HEALTH ORGANIZATION – PAHO. The impact of COVID-19 on mental, neurological and substance use services in the Americas: results of a rapid assessment, 2020.

Disponível em: pahonmhmhcovid-19200044_eng.pdf (bvsalud.org)

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento humano. Tradução de Carla Filomena Marques Pinto Vercesi. 12 ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

SOUZA, Celina. Políticas públicas: uma revisão da literatura. Sociologias, n. 16, pp. 20-45, 2006.

WORLD HEALTH ORGANIZATION – WHO. Constitution of the World Health Organization. 45 ed., 2006. Disponível em: who_constitution_en.pdf

Imagem: Zelig (Woody Allen / divulgação)

Sobre o autor

Felipe de Souza Andrade Martins

Psicólogo clínico com formação complementar em Logoterapia. Pesquisador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.