Comportamento Político

O paradoxo da falsa liberdade: neurociências, algoritmos e polarização política

Você já abriu a geladeira para pensar? Ou melhor, você já abriu a geladeira sem pensar e, no momento seguinte, pensou na inquietante questão de por que cargas d’água abriu a geladeira sem intenção de pegar nada dali de dentro? Não seria a primeira vez que a soberania da consciência sofreria tão larga afronta. Da psicanálise de Freud até as neurociências de hoje, cem anos depois, sabemos que a maior parte do nosso processamento mental é inconsciente. Mas será que tamanha inconsciência ameaça nossa liberdade?

A década de 1990 ficou conhecida como a década do cérebro. De lá para cá neuro está em quase tudo – neurodesenvolvimento, neuropsiquiatria, neuropsicologia, neuromarketing, neuropsicanálise – pois, aparentemente, ninguém quis ficar de fora dessa neurose moderna. Acontece que, a despeito do conhecimento adquirido no volante das técnicas de neuroimagem, “o mérito das neurociências é superestimado” (Dalrymple, 2016, p. 187) e nosso fetiche por neurônios e neurotransmissores, ironicamente, como qualquer superstição, tem afetado nossas frágeis sinapses. O que se descortina é uma drástica redução no seu uso, graças às novas tecnologias – que nos dão uma sensação tão falsa de conforto quanto de liberdade. Gostamos dos dois (conforto e liberdade), mas somos bons em confundir alhos com bugalhos.

Como andamos relapsos, é oportuno mencionar que o smartphone é novidade na Terra, o cérebro humano não. O modelo anatômico do nosso cérebro tem mais de cem mil anos. É evolutivamente preguiçoso e avaro, não de maneira negativa, e sim estratégica: evita gastar para poupar energia, cabendo ao corpo estocar reservas. Incrivelmente, houve uma época em que a comida não chegava por aplicativos, nem era encontrada em bandejas em ambientes climatizados. A comida era escassa e o cérebro um órgão faminto – sozinho, ele consome cerca de 20% da nossa energia. Como resolver? Gastar o mínimo possível automatizando o máximo possível. A automatização confere velocidade a baixo custo. Lembra alguma proposta contemplada em seu smartphone?

Sendo o nosso cérebro como é – e não como gostaríamos que ele fosse –, deixar alguém pensar por nós custa menos às nossas reservas energéticas. E, não só por isso, nós evitamos escolher a fim de amenizar o risco de perder. “O cérebro evita a todo custo perder” e “escolher implica certas perdas, o que é sempre doloroso para o cérebro” (Lavareda & Castro, 2016, p. 47). Como não se ganha sempre, pensar é opcional, portanto, pensar e perder não são o nosso forte. Mas, afinal, não somos seres racionais?

No fundo, no fundo, não. Nós não somos assim tão racionais. A emoção tem peso muito maior nas nossas condutas. Nosso cérebro primitivo, encapsulado por uma recente camada de córtex, manda muito mais. Uma breve explicação: os neurocientistas dizem que temos “dois cérebros”, o primeiro, mais interno, voltado às questões básicas de sobrevivência (como dormir e respirar); e o outro, mais recente na evolução, com predominância de desenvolvimento do córtex frontal e pré-frontal, ficou responsável pela nossa arquitetura racional. A parte emocional, a primeira, fica no meio como um alicerce; a parte racional veio depois, como paredes e um teto, e foi o que deu vantagem adaptativa a um bicho tão porcaria como somos (na dúvida, se imagine em uma floresta e você terá uma ideia melhor sobre humildade de espécie).

Se houvesse um cabo de guerra entre as partes racional e emotiva do cérebro, esta última venceria. Mais do que isso, a parte emocional do cérebro convenceria a parte racional a jogar do mesmo lado e a tomar uma decisão unânime (Lavareda & Castro, 2016, p. 48).

Então, como pensamos?

“O padrão cérebro é operar no automático” (Lavareda & Castro, 2016, p. 28), usando mais a via emocional, mas “a mente é especialista em nos dar a impressão de que cada passo que damos é milimetricamente pensado” (Lavareda & Castro, 2016, p. 27). Para o neurocientista António Damásio, “somos máquinas de sentimentos que pensam e não máquinas racionais que se emocionam” (Lavareda & Castro, 2016, p. 13). “Emoções e sentimentos são os sensores”, “são precisamente tão cognitivos como qualquer outra percepção” (Damásio, 2012, p. 19). Passando o marca-texto: nos emocionamos primeiro e pensamos (com sorte) depois. E abrimos mão de pensar com muita facilidade. Como escreveu Machado de Assis, é preciso muito interesse para ser ativo e pródigo.

A seleção natural deixou-nos um sistema cuja regra básica é, vale repetir, a de gastar o mínimo possível automatizando o máximo possível. Não foi ideia, portanto, dos aplicativos, nem dos algoritmos, mas ambos se beneficiaram disso. Algoritmos são processos de codificação e decodificação de ações digitais, por meio de fórmulas, com o intuito de acompanhar essas ações e prevê-las, como veremos mais adiante. Toda vez que usamos qualquer dispositivo online, deixamos pegadas digitais e os algoritmos captam todas elas. Além de anotar todas essas pegadas, os algoritmos são capazes de nos guiar o caminho.

O termo para isso é modulação. “Modular comportamentos e opiniões é conduzi-los conforme os caminhos oferecidos pelos dispositivos algorítmicos que gerenciam os interesses de influenciadores e influenciados” (Souza; Avelino & Silveira, 2018, p. 9). A modulação é diferente da manipulação. Não se trata de enganar – isso é atitude de iniciante –, mas de assumir os processos intelectuais, “automatizar o pensamento” a tal ponto que “o cérebro se torna redundante” (Foer, 2018, pp. 64-65), enquanto apenas parece que facilita a nossa vida. A modulação é mais vantajosa que a restrição, pois passa a sensação de liberdade com o conforto de vermos problemas cotidianos sendo resolvidos. Todo mundo se sente confortável e livre na rede para ir aonde quiser. Será que realmente podemos ir aonde quisermos?

“A modulação opera pelo encurtamento do mundo” (Souza; Avelino & Silveira, 2018, p. 38). “O usuário tem a ilusão de que escolhe o que lê, visualiza, curte, comenta e compartilha, mas isso é uma falsa liberdade” (Souza; Avelino & Silveira, 2018, p. 93). “Para modular é necessário reduzir o campo de visão dos indivíduos que serão modulados (…) A modulação encurta a realidade e a multiplicidade de discursos e serve assim ao marketing” (Souza; Avelino & Silveira, 2018, p. 38). A liberdade de escolha resume-se ao que é ofertado, sejam produtos, sejam ideias, tudo dentro de algumas bolhas.

Com espaço restrito, o ar torna-se rarefeito e a respiração fica difícil. Como pensar exige oxigênio, a demanda adequa-se à oferta. Quer melhor exemplo da regra dos nossos cérebros de gastar o mínimo possível automatizando o máximo possível do que a polarização política? A regra foi muito bem surrupiada pelos algoritmos, inclusive bem mais ligeiros do que os nossos lentos neurônios da Idade da Pedra – maior rapidez é uma das vantagens do progresso técnico.

A polarização funciona mediante o achatamento da complexidade humana em dois polos, o polo certo (onde estamos) e polo errado (onde estão aqueles que não concordam conosco). Tal achatamento é garantido por nossa ancestral dinâmica neuronal e segue estimulado na rede: enquanto reduzimos nossa capacidade cognitiva, permitimos o aumento da eficácia da modulação. Soou muito comportamental?

Não se trata de apoiar aqui uma abordagem psicológica em detrimento de outra, apesar dos destemperos entre seus filiados. Fato é que a psicologia comportamental é mensurável e cabe bem nas tabelas de excel, caderno de notas dos algoritmos. E se há duas matérias que os algoritmos estudam, essas matérias são neurociências e psicologia comportamental. O algoritmo não se interessa por interpretar os sonhos de quem só consegue chegar em casa usando o Waze. Ao algoritmo, interessa que você faça algo que interessa a quem domina o algoritmo, mas com a sensação de fazer isso por livre e espontânea vontade, da mesma forma com que você abre uma geladeira para pensar. Como?

O algoritmo capta e cataloga os comportamentos digitais, sistematiza suas ocorrências e, por meio de modelos matemáticos que são patenteados pelas empresas, encontra a tendência comportamental para modular as próximas ações. Na verdade, a ideia é modificar pedaços de uma cadeia de eventos para alterar o resultado em favor daquilo que o algoritmo intenta. Nenhuma grande revolução para os comportamentalistas.

A psicologia comportamental faz uso do modelo sequencial de antecedente, comportamento e consequência (conhecido como modelo ABC, do inglês antecedent, behavior, consequence). A principal ferramenta teórica das psicoterapias de linha comportamental é reconhecer as relações entre as contingências e os comportamentos, analisando os antecedentes, o comportamento deflagrado e as consequências do comportamento do indivíduo, que podem funcionar como reforçadoras ou acarretar sua extinção. Aliás, “modelagem” é como chamam os comportamentais, ou seja, nem o termo “modulação” é tão original.

B. F. Skinner, famoso psicólogo behaviorista, entendia todo o comportamento humano como fruto das consequências de ações anteriores. Assim, para Skinner, o livre-arbítrio era uma ilusão. Talvez seja mais do que nunca.

Sugestões e referências bibliográficas

Dalrymple, T. (2016). Qualquer coisa serve. São Paulo: É Realizações.

Damásio, A. R. (2012). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras.

Foer, F. (2018). O mundo que não pensa: a humanidade diante do perigo real da extinção do homo sapiens. Rio de Janeiro: LeYa.

Lavareda, A. & Castro, J. P. (2016). Neuropropaganda de A a Z: o que um publicitário não pode desconhecer. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record.

Souza, J.; Avelino, R. & Silveira, S. A. (org) (2018). A sociedade de controle. 1ª ed. São Paulo: Hedra.

Imagem: cadeira tranquilizadora de Benjamin Rush (1746-1813) / American Philosophical Society/Science Photo Library

Sobre o autor

Carolina Rabello Padovani

Pós-doutora em Ciências pelo Instituto de Psicologia da USP. Doutora e Mestre em Ciências pelo Instituto de Psicologia da USP. Especialista em Neuropsicologia pelo CEPSIC do HCFMUSP. Psicóloga, bacharel e licenciada pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político e pós-doutoranda no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.