Estudos Sobre Morte e Pós-morte

Não possessividade: o Yoga-Sutra de Patanjali da vida eterna

Praticar um voto de não possessividade pode parecer a negação de uma cultura que estimula o consumo, mas os Yoga-Sutras de Pantajali, cuja origem é anterior à era cristã, revelam que o alcance deste voto transcende a negação do consumismo.

O voto da não possessividade é um dos sutras do tratado Yoga-Sutras de Patanjali, que, segundo a professora doutora Lilian Cristina Gulmini, é o texto técnico mais antigo de que dispomos no presente sobre Yoga. E, apesar deste tratado ser de autoria de Patanjali, os Yoga-Sutras são codificações de algo que já era praticado e conhecido muito antes de ter sido registrado em forma escrita. Ou seja, Patanjali não é o descobridor do Yoga, mas sim aquele que condensou de forma magistral, em mais de 190 sutras, o essencial da filosofia e da técnica do Yoga.

Em sânscrito, a palavra sutra vem de sutram, que significa um fio. Segundo Taimni[1], a compreensão de um sutra requer esforço para se reconhecer o fio oculto no raciocínio, sob ideias aparentemente desconexas. Por isso, o entendimento desse texto antigo não se limita ao estudo da teoria, mas exige do aluno contínua e intensa reflexão e prática para extrair os conteúdos por si mesmo, reconhecendo o fio oculto que revela o significado sutil dessa disciplina.

Abordaremos aqui apenas um sutra do sistema do Yoga descrito por Patanjali, que é o voto de não possessividade, cuja tradução do sânscrito é apresentada no livro de Taimni da seguinte forma:

Com o estabelecimento da não-possessividade, surge o conhecimento do “como” e do “porquê” da existência. (TAIMNI, 2006, p. 193)

Em um primeiro estágio, o praticante tem o desafio de discernir sobre o que é essencial à manutenção da vida e o que não é. O problema é que, muitas vezes, quando se alcança o nível essencial que um dia imaginamos que seria necessário, não se sente satisfeito, e se estabelece um novo nível, seguindo para o conforto, para o luxo, e assim por diante, concentrando a energia de vida em satisfazer um desejo insaciável.

Taimni comenta que

é claro que essas coisas supérfluas de nada servem, exceto para satisfazer nossa vaidade infantil e o desejo de parecer superior aos nossos semelhantes. Não há limite para nossos desejos de riqueza e de coisas materiais, (…) portanto, estamos tratando aqui de um instinto, que nada tem a ver com a razão ou o bom senso. (TAIMNI, 2006, p. 174)

No comentário acima, Taimni aborda o instinto do desejo da posse, caracterizando assim a possessividade. Por isso, esse sutra se refere ao estabelecimento da restrição ao desejo da posse, e não necessariamente à possessão, ou seja, à posse em si.

A possessão de muitos bens não impede uma pessoa de praticar esse sutra, desde que exista uma disposição em reparti-los sem hesitação, se necessário. De qualquer forma, Taimni alerta que, mesmo que o desejo da posse seja controlado pelo praticante, a manutenção dessas posses demandará uma quantidade de tempo, energia e força mental do indivíduo que constituem uma fonte de constante perturbação da mente. Sendo assim, o praticante agiria bem se eliminasse o desnecessário, aprendendo a viver uma vida simples e austera. (TAIMNI, 2006, p. 175)

Inicialmente, a busca da não possessividade pode exigir uma fuga deste mundo, fuga das tentações, pois os estímulos de consumo que os diferentes meios de comunicação consistentemente alimentam na sociedade reforçam incessantemente o instinto da possessividade e tornam extremamente desafiador discernir o que é essencial e do que é supérfluo. Mas o verdadeiro autocontrole – necessário para o estabelecimento da não possessividade – será conquistado no enfrentamento das tentações que se apresentam no convívio social.  

De forma geral, conforme mencionado acima, esse sutra, assim como os demais, conduzem o praticante a eliminar as perturbações mentais que o impedem de acessar uma consciência mais ampla de si mesmo. E esse sutra aponta, de forma bem específica, o que será alcançado através do estabelecimento da não possessividade, que é o conhecimento do como e do porquê da existência, além de, segundo Taimni, do nascimento e da morte.

Mas, afinal, por que o conhecimento do “como” e do “porquê” do nascimento, da morte, enfim, da existência, se revelam quando se vence o instinto da não possessividade?

Taimni explica que, ao longo das sucessivas reencarnações, carregamos a memória das experiências das vidas anteriores em nossa individualidade permanente, que é a raiz de cada personalidade. Sendo assim, a cada encarnação é formada uma nova personalidade, que resulta da identificação, pela consciência, com as coisas do nosso ambiente, com as vivências desta vida e com o corpo físico. As memórias das vidas passadas se encontram em veículos mais sutis e distantes do centro da consciência, quando comparadas ao conteúdo que surge através da interação do corpo com as coisas que o rodeiam e que estão a todo momento ocupando a consciência.

O desenvolvimento da não possessividade liberta-nos, em grande parte, desse hábito de nos identificarmos com nossos corpos e com as coisas que os rodeiam, afrouxando os grilhões da personalidade. O resultado natural desse afrouxamento é que o centro da consciência gradualmente se transfere para os veículos superiores da jīvātma [2]. (TAIMNI, 2006, p. 194)

Dessa forma, acessamos o conhecimento neles presente, que são as memórias das experiências das vidas anteriores.

Enfim, o sutra da não possessividade é um voto de abstinência através do qual, quando alcançado o estágio avançado do verdadeiro autocontrole, o praticante eliminará as barreiras que o impedem de acessar o conhecimento sobre o como e o porquê da vida e da morte.

O livro Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, tem uma passagem que descreve esta capacidade de acessarmos o conhecimento desenvolvido ao longo das sucessivas reencarnações. Yogananda conta que “Sabe-se de muitos iogues que conservaram ininterruptamente a consciência de si mesmos durante a dramática transição da ‘vida’ para a ‘morte’ e de uma vida para outra.” (YOGANANDA, 2008, p. 4)

A relação da não possessividade com a vida eterna também é abordada em uma passagem descrita na Bíblia, na qual um jovem, praticante dos mandamentos, pergunta a Jesus o que mais ele deveria fazer para ter a vida eterna. O jovem é orientado, então, a se desfazer de todos os seus bens e seguir Jesus. “Quando ouviu essa palavra, o jovem foi embora, cheio de tristeza, pois possuía muitos bens” (Mateus 19, 16-26). A possessividade impediu o jovem de seguir em direção ao que buscava. A resposta de Jesus é como um sutra, cujo sentido sutil não será encontrado nas palavras, mas nas revelações particulares que a incessante prática provoca naquele que se mantém no caminho.

O alcance da não possessividade requer tempo, continuidade da prática e maturidade espiritual para reconhecer o sentido sutil dos sacrifícios que são exigidos neste caminho para libertação das limitações e ilusões da vida humana. Taimni comenta que a senda do Yoga, assim como cada parte que a compõe, incluindo o voto da não possessividade, deve ser trilhada com espírito de reverente devoção: 

Quanto tempo isto tomará, dependerá de muitos fatores: nosso estágio evolutivo, o tempo que já empregamos no trabalho em vidas anteriores e os esforços que fizemos nesta. (…) Aquele que estiver pronto para trilhar esta senda ficará tão absorvido pelo fascínio do trabalho, e terá tanto a fazer, que não lhe sobrará tempo para preocupar-se com quando atingirá o objetivo. Se o tempo pesa-nos nas mãos, e continuamente nos preocupamos com quando teremos sucesso, isto mostra falta de interesse real (TAIMNI, 2006, pp. 30 e 31)

Antes de encerrar as explicações e reflexões sobre o sutra em si, vale comentar o verbo “surge”, que é utilizado para caracterizar a forma com que o praticante que alcança o estado de não possessividade entra em contato com o conhecimento sobre o como e o porquê da vida e da morte. O conhecimento já está no próprio individuo, não é algo que será adquirido ou concedido por algo ou alguém. Assim que são removidos os obstáculos, as perturbações e distrações da mente, a luz da sabedoria da vida eterna surge.

O estabelecimento da não possessividade permite acessar o conhecimento de vidas anteriores e assim expandir sua consciência para além das experiências desta vida, acessando uma realidade que transcende o processo de nascimento e morte. Um sutra que oferece ao praticante uma nova consciência sobre a morte, uma consciência que só será percebida com a prática, deixando morrer aquilo que o impede de penetrar em uma consciência mais profunda de si mesmo.

Através desta leitura sobre o sutra da não possessividade, dedicamos alguns instantes de consciência para refletir sobre vida e sobre um tema que nos acostumamos a evitar, a morte.

A morte não é bem-vinda ao pensamento. Vivemos longos tempos reprimindo conversas e reflexões sobre morte. E, assim, já temos gerações inteiras desprovidas de uma razoável herança cultural sobre a morte.

A pandemia de COVID-19 parece quebrar a inércia desta atitude de repressão e indiferença perante a morte, que se acomodou por séculos, fazendo com que o medo da morte emergisse sedento por consciência. Continuamos resistindo, nos agarrando a toda certeza de vida, mas já não conseguimos evitar a presença da morte como antes. Afinal, a morte é tema principal dos noticiários e das conversas sociais.

Compartilho abaixo um trecho do livro Sentido Oculto dos Ritos Mortuários, de Jean-Pierre Bayard, que estudamos no grupo de estudo e pesquisa sobre morte e pós-morte, e que nos convida a nos reaproximarmos da sabedoria da morte:

Nossa sociedade voltada para as ciências “exatas”, quer esquecer este momento irrelutável [o momento da morte]; procura esquecer os ritos e as crenças antigas, mas no dia de nossa passagem para o outro mundo, eis-nos ainda mais despojados, desamparados e mergulhados no temor, ao passo que civilizações mais antigas aceitavam e alegravam-se com o fato de ir para esse outro mundo. (BAYARD, 1996, p. 32)

E, Bayard encerra o parágrafo acima com uma pergunta, que pode ser um convite ou talvez uma provocação: “Não convém então falar da morte, a fim de superarmos nossa angústia?” (BAYARD, 1996, p. 32)

O grupo de estudo e pesquisa sobre morte e pós-morte, assim como Bayard, também nos convida a falarmos de morte, a resgatarmos a compreensão de ritos e crenças e do poder estruturador e tranquilizador que podem nos oferecer. Além de reconhecermos nossas angústias, não só com relação à morte em si, mas também com relação à vida diante da realidade da morte. Dessa forma, e respondendo ao convite do Bayard, eu acho que convém sim falar da morte.

Bibliografia

BAYARD, J. P. Sentido Oculto dos ritos mortuários: morrer é morrer? São Paulo: Paulus, 1996.

GULMINI, L. C. As Várias histórias do Yoga. In: Marcos Rojo (Org.) Estudos sobre o Yoga. São Paulo: Phorte, 2006.

TAIMNI, I.K. A Ciência do Yoga (Comentários sobre os Yoga-Sutras de Patanjali à luz do Pensamento Moderno). Brasília: Teosófica, 2006.

YOGANANDA, P. Autobiografia de um Iogue. Traduzido em português pela Self-Realization Fellowship, 2008.

[1]Os comentários sobre os Yoga-Sutras que serão apresentados neste artigo terão como principal referencia o livro A ciência do Yoga, do doutor I. K. Taimni, importante referência para os estudiosos do Yoga.

[2] Nota da autora: termo em sânscrito que significa individualidade.

Imagem: reprodução de escultura de Patanjali

Sobre o autor

Louise Paiva Greca

Orientadora em desenvolvimento profissional e pessoal, pós-graduada em psicologia junguiana pelo IJEP- Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa. Certificada no curso de Capacitação em Yoga pelo IEPY - Instituto de Ensino e Pesquisa em Yoga em parceria com a escola de Kaivalyadhama (Índia). Pesquisadora do grupo de pesquisa Estudos de Morte e Pós-morte do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.