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Até onde aguentaremos o custo da privacidade?

O mercado editorial norte-americano, aquecido como sempre, tem despejado muitos títulos sobre comportamento político, algoritmos, redes sociais ou big data. Esses assuntos de fato têm despertado a atenção inclusive dos streamings, haja vista os documentários O Dilema das Redes, Privacidade Hackeada ou Coded Bias. Tanto os livros quanto os documentários, em geral, contam com autores ou protagonistas que obtiveram destaque em empresas relacionadas às Big Techs, quando não elas próprias, como Google, por exemplo.

Em uma abordagem em conjunto, notam-se semelhanças entre esses lançamentos. Em primeiro lugar, eles visam um público leigo que se deixa atrair por narrativas que se aproximem das teorias conspiratórias. O tema das redes sociais se presta bastante bem a essa finalidade. Logo nos vindo à cabeça as distopias de Orwell, Aldous Huxley ou Zamiatin, ou, para quem não os leu, séries como Black Mirror ou filmes como V de Vingança ou O Doador de Memórias.

Em segundo lugar, o tema tem perspectivas de atrair a atenção de um grande público, uma vez que é evidentemente expressivo o número de pessoas que se conectam às redes sociais. Cifras gigantescas chamam atenção. Some-se a esse fato um impulso humano de constatar o seu insight como verdadeiro e comprovado por dados e estatísticas que sempre são ofertadas em profusão nesses tipos de propostas. Mas não é só isso. A atração também passa pelo tema das celebridades, muitos querendo conhecer o que está por trás da riqueza dos CEOs das Big Techs. Finalmente, se pouco sabemos sobre o tema, acreditamos estar conhecendo novidades e talvez valorizemos essas publicações mais do que elas merecem: muitas vezes se trata de obras que logo esqueceremos daquilo que lemos ou vimos.

Algoritmos de Destruição em Massa: como o big data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia, de autoria de Cathy O’Neil, (Editora Rua do Sabão, de Santo André, São Paulo, 2020) se ajusta bem a essa introdução. A obra nos interessa na medida em que recupera um percurso histórico que nos auxilia na identificação de modelos que eram colocados em ação de um modo mais espontâneo, na contratação de um empregado, na avaliação de professores ou quando da solicitação de um empréstimo junto a um banco. Para todos esses casos, era necessário um critério que muitas vezes consistia na tentativa de manutenção do que melhor funcionava e descarte do que era considerado equivocado.

No entanto, alerta a autora, na economia de dados em que vivemos, algoritmos são criados no intuito de melhor configurar esses modelos e a partir deles, cruzando dados como Ceps, escolaridade, aspectos psíquicos e de saúde ou scores de crédito, para alcançar o que tem sido visto como mais eficaz, produtivo e rentável. Mas nem tudo é tão alentador assim. Algoritmos de Destruição em Massa (do título em inglês, Algoritms of Math Destruction), na visão da autora, tendem a perpetuar a desigualdade econômica e social, uma vez que crédito, empregos ou até mesmo planos de saúde tornam-se cada vez mais distantes para quem não se encaixar no perfil dos algoritmos aplicados em cada um desses modelos.

Quando passamos a aceitar a monitoração remota de nossa saúde, pressão sanguínea, nível de colesterol ou quantos quilômetros andamos por dia tornam-se dados que, uma vez mapeados pela Internet das Coisas – os dispositivos de acompanhamento pessoal –, são passados para os planos de saúde. Nesse sentido, O’Neil entende que a privacidade, cada vez mais, terá um custo. No caso particular, quem aceitar abrir o sigilo de suas informações de saúde conseguirá descontos no pagamento de seu plano de saúde. E esse desconto será pago por aqueles que não aceitarem o compartilhamento desses dados.

Lembrando aqui que o tema da privacidade ou de sua invasão se perfaz em um aspecto bastante caro para a cultura que se forjou nos Estados Unidos. Quase tão incensado quanto o conceito de liberdade. Em meio às especulações sobre as ADM, será que poderíamos pensar também no custo de nos mantermos livres?

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.