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As eleições e a legitimação da vileza

Vez por outra e nos deparamos com eleitores que manifestam saudades de outros tempos em que os candidatos debatiam projetos e propostas de governo com franqueza e cordialidade. Essa lembrança poderia ter alguma validade se a pessoa em questão tivesse vivido para compartilhar os debates havidos entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos em 1858. Abraham Lincoln e Stephen Douglas tornaram-se famosos pelo tempo de fala e escuta do que cada um pretendia fazer. Não há qualquer indício de que essa experiência pudesse ser compartilhada em outras circunstâncias ou épocas. Os políticos quando em campanha são assessorados para que evitem qualquer tipo de tema que lhes escape do controle e, no mais das vezes, a demanda do público é que haja algum tipo de duelo orientado por falas que demonstrem agressividade controlada ou não. O fato é que o comportamento político do suposto eleitor é mapeado de alto a baixo e o que se tira é que a política em si não é um tema que venha a atrair a atenção de quase ninguém.

Pesquisadores experimentados desse campo asseveram que sequer há alguma preocupação com a baixa presença dos eleitores no dia das eleições até porque os gastos em campanha seriam maiores do que já são. Qualquer pessoa que tenha uma mínima noção de custos bem sabe o tamanho do orçamento de fazer uma divulgação de seu negócio ou até mesmo de uma festa em família para muitos convidados. E é só passar os olhos pelas ruas de uma grande cidade e imaginar os custos dos totens que estão por aí poluindo a já degradada paisagem urbana.

Os candidatos já sabem desde antes de iniciarem as suas campanhas em que lugar irão ficar, se vão disputar com chances de serem eleitos ou se somente manterão os seus nomes como lembrados em pleitos futuros. É claro que temos eleições em que dois candidatos chegam emparelhados e, de tal forma, há incerteza em relação em quem será eleito. Mesmo assim, ambos os políticos já supunham que isso viesse a acontecer posto que bem sabiam o quanto foi investido em cada uma das campanhas.

Podemos ser enredados pelo mito da folk theory, como se diz na literatura sobre comportamento político nos Estados Unidos quando se pretende retomar a era romântica das candidaturas como aquelas que deram suporte aos filmes dirigidos por Frank Capra em que os protagonistas eram políticos honestos como que forjados pelos Federalist Papers, a bíblia dos pais fundadores da democracia norte-americana. E quem se enrosca nessa teia até acredita que as eleições são como jogos finais de um campeonato em que se aguarda com expectativa o grande final.

Precificação, uma palavra infeliz tanto por ter sido concebida em português quanto por designar a verdade do que ocorre, vem a justificar a sua criação. Não falamos em ideias ou propostas, mas sim em custos necessários para se eleger para um posto na política. É claro que as variáveis existem e que casos às vésperas das eleições podem vir a definir os resultados, o que nos explica por que os candidatos se blindam nos finais de semana que antecede a ida às urnas. Contudo, nada disso implica em propostas para se colocar em prática.

Os eleitores costumam ter o seu voto decidido antes mesmo do início das campanhas e o fazem em geral por ódio e aversão ao candidato opositor ao que escolheram. E em se tratando dessa manifestação, nada fará com que sua intenção de voto venha a ser mudada, nem sequer as acusações de envolvimento em casos rumorosos de corrupção. Todos se sentem informados o suficiente para saber que esses ataques nada mais são do que fundamentados em conjectura. A política segue sendo o campo em que qualquer sinal de verdade ou de mentira será capitalizado ou do contrário estaríamos falando de evidências comprováveis como aquelas típicas das ciências. Exemplo: não foi através da constatação de uma incoerência que se questionou a aceitação do heliocentrismo, mas sim somente por intermédio da política havida entre o alto clero do Vaticano naquele momento histórico. Esses casos se repetem muito mais do que podemos supor e onde a política está presente, o oportuno relativismo cresce como praga.

Melhor seria se os eleitores fossem céticos o suficiente para se postarem em relação à política de uma maneira menos acalorada ou afetiva. Mesmo assim, outros meios seriam encontrados para que a caravana continuasse a passar e em que as pessoas continuassem a manifestar que votam como quem está decidindo o futuro da nação, como se a política pudesse conter tal dimensão metafísica.

Aferidos pela média, os eleitores não são nem um pouco diferentes do cidadão comum que tem os seus gostos massificados pelo que lhes é oferecido pelas mídias com as quais tem contato. E repetem as idiossincrasias que costumamos ver nas ruas da cidade, no compartilhamento social ou nos seus instantes de folga.

A máquina política acompanha esses marcadores e busca oferecer ao público um quase nada que venha a retirá-lo do tédio em que ele se encontra. No mais, cada um de nós tem a suspeita de que tudo continuará como sempre num mundo em que a cultura já nos orientou a reconhecer aqueles que mandam e os que devem ser tangidos. Os livros de história do ensino básico assumem um perfil de superação quando elencam uma série de procedimentos que faziam com que as eleições no Brasil tivessem os seus resultados conhecidos antecipadamente.

Os candidatos de hoje têm condições de se adiantarem e conhecerem com mais precisão o resultado que as urnas irão revelar. A cultura que se forjou por aqui, quando remetida ao instinto de sobrevivência, possui a sabedoria acumulada por mais de 500 anos de experimentações furtivas e desvirtuadas que atestam o seu funcionamento pleno.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.