
A consciência política, quem diria, escancara um caminho livre para a convivência e aceitação de qualquer tipo de corrupção, bastando para isso que se viva para asseverar que Maquiavel fez os melhores conselhos ao príncipe. Mas que se entenda aqui que tudo é feito para um bem maior, ainda que ele esteja garantido para quem é participante ativo da política. Poderia ser diferente? Pensemos juntos.
A política é o meio de ação nos bastidores e é ali que se constitui a experiência e que repercute o que venha a dar créditos à história de uma pessoa que alça à condição de liderança. Num certo sentido, essa pessoa se qualifica como sendo hábil no trânsito entre pares e opositores. Sim, pois é preciso que se conheça com mais intimidade àqueles que lhe servirão como contraste. E, na democracia, exige-se que essa plumagem seja exibida em praça pública uma vez que se faz necessário o reconhecimento mais amplo do quanto de poder se manipula.
Ser servido e buscado por necessitados que mendigam a sua aceitação faz com que a sina do delito motivado por uma causa ganhe expressividade. E tudo o mais que caminha por corações e mentes, o que se diz e o que dá sinais de sua presença através do inconsciente mais superficial, se comunica para os outros a partir de um cerimonial que a todos seduz. O estigma assinalado por Lord Acton (1834-1902) de que o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente é o que se impõe sobre quem se descobre afeito ao faz de conta de parecer honesto, mesmo que atuando de acordo com o script cuja má fama já vem de longe. Tudo pode ser ainda mais constrangedor quando levamos em consideração que os regimes democráticos se estabeleceram na aceitação de que os políticos necessitam de credibilidade para que seus empreendimentos tenham sucesso.
Os céticos já supunham que era infinita a capacidade humana de forjar novas crenças. E eles não tinham visto quase nada, ao menos se nos concentrarmos no período helênico que viu surgir a escola pirrônica. Não se tratava de uma época em que a vida filosófica fluía com as braçadas seguras forjadas por Platão e Aristóteles e, pelo contrário, o ensimesmamento ocupou o protagonismo em uma Grécia já transfigurada pelas guerras que vieram a eclodir.
Os céticos desconheciam a versão popularizada de uma crença, assim como Nietzsche nomeou o cristianismo em sua alusão a ter sido o platonismo dos pobres. Mistério, revelação, redenção e compaixão conceberam um arco de autoestima e preservação de tudo o que pode se confirmar em amparo à miséria de se descobrir como um nada. Contudo, em que caminhos adentramos quando nos afastamos das referências heroicas que tanto divertiam os deuses olímpicos e passamos a adorar criaturas que julgávamos santas? Prosseguimos em Nietzsche quando entrevemos que a metafísica cristã deu lugar à expectativa de que os fracos e as vítimas terão os seus lugares garantidos no além para todo o sempre.
É outra a referência que quero abordar aqui e ela trata da instauração de uma personagem que, sendo humana, transita para o sobrenatural e o faz com indicações bem precisas de seus feitos e habilidades. E, em se tratando de uma metafísica que se colocava em oposição ao senso comum – Platão novamente – aprendeu-se a partir de erros e acertos o que seria melhor para ser disposto às pessoas para que elas, ao se colocarem em dúvida em relação às suas certezas, mobilizassem-se na direção do outro espectro.
Não incorremos em erro quando acreditamos encontrar no passado os instantes em que as lideranças surgiam tendo por lastro a defesa daqueles que passaram a ser vistos como excluídos. Em um primeiro momento, essas personagens se legitimaram em relação à promessa de uma sociedade justa e tornavam-se mártires ao lutarem contra a cultura predominante. Essa relação de custo alto para um benefício abstrato deve ter contribuído para que se almejasse chegar e permanecer no poder, ainda que em uma época marcada pela violência de uma revolução.
As épocas se sucedem e os benefícios se ampliaram quando o consenso se materializou em relação à aceitação do modelo democrático. Nada há para ser colocado em seu lugar e isso por que as lideranças não aceitariam um sistema que viesse a ampliar os riscos da fortuna, de tal modo um caudilho se vê assediado no exercício do poder. A expectativa de que o modelo de alternância prevaleça tem sido o cimento mais eficaz para que tudo permaneça como sempre foi, em especial, nas nações que forjaram uma elite política que respeita os combinados tramados entre si.
Os eleitores são os observadores entediados de uma história de mau gosto e que somente prende a atenção quando se finge acreditar que um político consegue ser melhor que o outro e quando se baixa a régua do ceticismo e se embarca naquilo que de pior podemos produzir.
Rimar e aproximar a política da emoção e jogar com palavras como liberdade e igualdade fazem parte do que a elite veio a conceber e tudo piora quando essa metafísica de baixo valor vem adornada com o que a nossa cultura produziu em prosa e verso.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

