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A democracia poderia ser despolitizada?

A crença de que exista uma realidade mais real do que outras é uma constante presente nas análises que se fazem sobre a dimensão política que conta com nada menos do que a alegoria da caverna como fonte originária. Sabemos que essa crença depende do compartilhamento com o que Platão chamou de dianóia, o processo através do qual se abandona o mundo sensível e se caminha para o inteligível. Estamos, então, no interior da envolvente filosofia idealista, formadora que foi do primeiro aparato metafísico que veio a contar com uma aderência duradoura. De tal modo que esse entendimento tenha se tornado uma metanarrativa, dando conta de explicar o que se passava no interior das dinâmicas de convencimento que eram praticadas desde que nos organizamos em grupos, grandes o suficiente para que as abstrações pudessem vir a tomar o lugar daquilo que constatávamos a partir dos nossos próprios sentidos.

Nietzsche não se equivocara ao reputar a Sócrates e Platão a criação oportuna do lugar do filósofo como sendo aquele do portador da sabedoria, o que forjou a oposição ao mais humilde entendimento de que se tratavam de pessoas com afinidade pelo conhecimento. Esse sendo um marco de transição que veio a exilar os pensadores que lhes antecederam, colocando-os na vala comum dos pré-socráticos, isto é, um corpo generalizado do qual se passa o pano somente em Parmênides e isso porque teria sido ele o mentor de Platão. Má lembrança é essa em que até os filósofos acolhem histórias formadoras que demarcam preconceitos, exclusividade e abandono daqueles que, por acaso, escolheram pensar fora do cânone.

De todo modo, tendo esses dois pesos-pesados como parceiros, como poderíamos questionar a fundação de uma escola de pensamento que chega até nós demonstrando tanto vigor? É o que se nota quando acompanhamos as preocupações de que a maioria dos eleitores são facilmente engambelados pelo que vem sendo jogado nas redes sociais como desinformações ou fake news. E aqueles que assim se manifestam, como o Sócrates da República, tomam o lugar de visionários que se anteciparam ao que verdadeiramente iria acontecer. As referências a esse tipo de situação podem ser recuperadas na literatura ou na sua retomada nas ficções levadas às telas de cinema.

Na teoria política, Marx segue sendo o principal continuador de Platão ao pretender colocar o mundo para fora da fantasmagoria provocada pelo capital. O confronto entre cães e gatos que ganha corpo na dialética havida entre alienação e consciência nada mais é do que uma configuração platônica adaptada aos tempos modernos. Novidadeiros que somos, reeditamos essa história sempre que entendemos que estamos em uma nova era a qual veio a romper com uma outra foi devidamente superada. Temos então uma nova versão dessa trama.

Alguns entre nós, ungidos que foram, julgam que as redes sociais são a única fonte de formação política a que muitos têm acesso e que, por isso, elas perigosamente podem vir a enganar os incautos que irão supor que sejam verdades as mentiras que são divulgadas a partir de interesses escusos àqueles que deveriam se interpor. Esses sendo os sábios que julgam diferenciar a realidade da ficção e que se arvoram em protetores da maioria ignara que compra o livro pela capa e que é incapaz de discernir o certo do errado.

É somente a partir desse tipo de compreensão que se pode assimilar e trocar por aí como se moeda fosse, a crença de que as fake news tenham a eficiência que se alardeia que elas possuam. Ao menos, não por enquanto. Essa é a conclusão dos autores Felix M. Simon and Sacha Altay no artigo Don’t Panic (Yet): Assessing the Evidence and Discourse Around Generative AI and Elections (Knight First Amendment Institute at Columbia University, Julho, 07, 2025). Munidos de muitas referências longamente pesquisadas e que supriram o artigo com mais de 90 páginas, ambos os autores argumentam que as influências reputadas à desinformação são superestimadas e que as fontes tradicionais de informação tendem por enquanto a prevalecer. Além disso, ambos indicam a dificuldade havida em traduzir em métricas aceitáveis todas as variáveis envolvidas entre a assimilação de posicionamentos políticos por meio da massa de seguidores das redes sociais. O entendimento de que haja eficácia na manipulação de massa somente faria sentido se as pessoas passassem 24 horas diárias de suas vidas unicamente conectadas, a tal ponto que dependessem das informações obtidas nas redes como fontes para toda e qualquer formação de opinião.

Pode-se supor então, que se essa persuasão de massa provoca dúvidas quanto aos seus resultados, o fato dessa hipótese ser aventada teria um outro objetivo mais plausível. Ora, não estaríamos longe das ambições platônicas e nem da crítica apontada por Nietzsche se supormos que por detrás da preocupação com a manipulação das massas se encontre nada mais do que uma estratégia de comunicação política a serviço dos segmentos que mais se afinam com o uso pragmático do humanismo como meio de conquista e de permanência no poder. E é bom que se recorde que as esquerdas se vangloriam por serem as herdeiras dessas bandeiras que fazem com que os seus representantes se assumam como arautos do bem como se percebe. Como os clichês midiáticos optam preguiçosamente por dizer, em pleno século XXI ainda nos deparamos com a concepção de que parte do espectro político detenha o monopólio do exercício do bem. Trocando em miúdos, é politicamente oportuno que se dê crédito à crença de que alguns poucos conseguiram se livrar da permanência na caverna.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.