Sala Michael Oakeshott

Em mim e agora: o Bem

Texto-resumo do debate do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ,  realizado em 10 de setembro de 2021 sobre o ensaio “Religion and the World” de Michael Oakeshott.

No ensaio “Religião e o Mundo” (Religion and the World, no original em inglês — Oakeshott, 1993), Michael Oakeshott recorre à literatura para ilustrar seus argumentos. A citação mais representativa no texto é esta de Goethe: “Se nós nos perdemos, perdemos tudo”. Por que, nos argumentos de Oakeshott, ‘perderíamos a nós mesmos’? Porque nós, ocidentais, somos o resultado de duas principais formadoras visões de mundo: uma de religiosidade dogmática e outra de secularismo racionalista. Em ambas o ser humano, como indivíduo no presente, deixa de ser seu próprio fim. Sua vida é um meio para alcançar um bem maior.

A visão religiosa, que M. O. chama de “homem religioso”, foi constituída sob a crença de que o Bem será alcançado em outro mundo – a Vida Boa, portanto, é aquela que permitiria adentrar esse “outro mundo”. Para os primeiros cristãos, esse outro mundo ocorreria com a segunda vinda d’O Salvador; seria, assim, um novo mundo a suceder àquele em que viviam, na Terra. Já os cristãos da Idade Média acreditavam que esse mundo se encontrava numa espécie de plano diferente. Nos dois casos, os indivíduos só passariam para esse outro mundo se estivessem apartados do mundo concreto, o mundo das sensações, necessidades e desejos em que viviam. O “homem religioso”, então, deveria viver de maneira a não atender seu corpo, mas apenas sua alma. O que significava sacrificar toda e qualquer sensação, exceto as mais básicas, necessárias à sobrevivência.

A visão secularista-racionalista, por seu turno, apresentava uma perspectiva segundo a qual o que tem valor é aquilo que pode ser empiricamente estudado, manipulado, produzido, experimentado e sentido. Maneira de entender o mundo derivada do Iluminismo. Para esse “homem do mundo”, o valor da vida estava no sucesso e não nos indivíduos. As pessoas teriam valor em função daquilo que eram capazes de produzir, em função do que seu trabalho gerasse e não em si mesmas. A vida e as atitudes dos indivíduos são, dessa forma, meros meios para se alcançar aqueles fins — vida vil, segundo Oakeshott.

M. O. afirma que “o ser humano é permanente e durável” e que, assim, “a coisa mais importante é preservar nossa integridade de caráter” (Oakeshott, 1993, p. 34). Aqui entra uma premissa fundamental do “homem religioso”, ilustrada pela já citada passagem de Goethe: “Se nós nos perdemos, nós perdemos tudo”. Vejamos a seguinte passagem do ensaio:

O homem do mundo não é cuidadoso com nada, a não ser consigo mesmo e com sua vida; mas para o homem religioso, a vida é muito curta e incerta para ser entesourada, muito valiosa para ser desperdiçada ao prazer dos outros, do passado ou do futuro, muito preciosa para ser jogada fora em algo que ele não está convencido de que seja seu mais precioso Bem. (Oakeshott, 1993, pp. 34-35).

A covardia, na visão de Oakeshott, é o vício mais incompatível com a religião; entendendo covardia como uma disposição para refrear o advindo do Novo e para resistir às suas consequências.

O mundo, com seu ideal carreirista, apresenta uma completa miscelânea de possíveis propósitos para a vida, os quais o homem religioso vê como não mais que distrações. Para esse, ela não é um jogo de habilidades; ele tem horror à vilania, não à morte; ama demais a vida para desperdiçá-la apenas existindo. O homem do mundo vê a vida como um episódio insignificante, um sonho breve. Oakeshott argumenta, com genial ironia, que a perspectiva científica é a “criação e um tipo particular e abstrato de pensamento por parte de um número insignificante de insignificantes habitantes desse planeta insignificante” (Oakeshott, 1993, p. 32). Segue: “A importância relativa das coisas é um objeto acerca do qual a ciência é impotente para nos iluminar”. M. O. coloca como principal oposição entre “o homem do mundo” e o “homem religioso” a noção do significado da vida. Para o primeiro, um sentido produtivista, a vida de cada um vale a medida do que produz; para o segundo, sua própria vida e os valores morais que carrega ao longo dela.

Na melhor forma da tradição filosófica conservadora, Oakeshott defende que há uma possibilidade mais equilibrada de vida; usando um termo aristotélico, há um “caminho do meio”. Com o característico ceticismo conservador, M. O. defende que o Bem não está no futuro — seja esse futuro uma vida espiritual “pós salvação”, seja numa vida à frente com mais produção, tecnologia, riqueza, conforto e prazeres —, reside, isto sim, no “discernimento presente”. O Bem reside no melhor discernimento moral interno e em seu exercício no presente. Um exercício, assim, próximo daquele do “homem religioso”, mas com motivação e propósito diferentes. De tal forma que pode e deve ser realizado sem que seja preciso rejeitar a necessária produtiva vida mundana.

Referência

OAKESHOTT, Michael. Religion and the World. In: Religion, politics and the moral life. pp. 27-38. Ed. T. Fuller. New Haven / Londres: Yale University Press, 1993.

Imagem: Michael Oakeshott (autor não identificado)

Sobre o autor

Marcos Pena Jr

Graduado em Economia com MBA pela Universidade Potiguar (UnP), especialista em Planejamento e Estratégias de Desenvolvimento pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e bacharelando em filosofia pela Universidade Católica de Brasília (UCB); pesquisador do Núcleo de Estudos Prospectivos da Universidade Católica de Brasília, pesquisador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ. Poeta, articulista e escritor. Autor de “Do riso às lágrimas: poemas contra ressentimentos” (Caravana, 2021).