Behavior

Da persistência das referências de Esquerda e Direita

Difícil supor que sejam devidamente reconhecidas e dominadas as origens do que se entende por esquerda ou direita. Muito menos se pode dizer sobre a espessura histórica dessas palavras. Imaginamos somente que elas chegam até nós a partir de rumores e que muito pouco se sabe sobre o desenvolvimento desses termos ou práticas ao longo da história. O pesquisador Peter Mair concorda com essa tese e discute a situação no capítulo “Left-Right Orientation”, que se encontra na obra de Russell J. Dalton e Hans-Dieter Klingemann, The Oxford Handbook of Political Behavior, Oxford: Oxford University Press, 2009. O autor examinou o que ele chamou de Resiliência da Esquerda e da Direita, no sentido da permanência de seus significados no uso político, em relação aos eleitores, partidos e lideranças.

O fato é que o uso que se faz de esquerda e direita na atualidade parece ser bastante livre. Podemos supor um mapa de palavras sobre cada uma dessas expressões e a partir dele elaborar algumas hipóteses de pesquisa.

A esquerda a partir de quem tem afinidade por ela: mais liberal do ponto de vista dos costumes; voltada para a diminuição da desigualdade social; busca implementar medidas que propiciem a justiça social; a favor das causas feministas, do acolhimento da diversidade racial; promotora de reformas que culminem numa melhor distribuição de riqueza; comunista; ateia.

A esquerda a partir de seus detratores: hipócrita, uma vez que quando chega ao poder preocupa-se mais com perpetuar-se; corrupta, toma conta dos cofres públicos; unicamente preocupada com os seus interesses; aumenta os impostos e cria outros; é populista, depende da manutenção da pobreza para que suas ações sociais possam ganhar repercussão; comunista; ateia.

A direita a partir de quem tem identidade com ela: nacionalista, buscando defender os interesses nacionais; liberal do ponto de vista econômico, procurando deixar o mercado agir por sua própria conta; preocupada com o que pode ser feito para a manutenção da família e dos bons costumes; contra a criação de novos impostos; a favor da privatização das estatais; capitalista; religiosa.

A direita no entendimento de quem a odeia: autoritária, próxima aos militares; preconceituosa, do ponto de vista da não aceitação do debate sobre gênero e orientação sexual; elitista, somente preocupada com as camadas sociais mais ricas; privatizadora, desejando vender o patrimônio público representado nas estatais; fascista; capitalista, religiosa.

Um pouco disso tudo se encontra no debate público contemporâneo – sendo que algumas expressões podem faltar e outras podem figurar em excesso. Observe-se que tanto a defesa quanto o ataque são feitos a partir de palavras de luta, carregadas de laivos de emoção e subjetividade. Alguns dos autores estudados no LABÔ – Jason Brennan, Christopher Achen, Larry Bartels e Bryan Caplan – contrariam a tese da escolha racional no momento do voto e a realidade empírica oferece suportes para crermos que estejam corretos. As paixões são os meios mais diretos, rápidos e certeiros para o envolvimento, inclusive e talvez até mais, de ordem política. É nessa chave que devemos compreender a proliferação de memes políticos, da tentativa de se rotular e simplificar as personas políticas, para o bem e para o mal, o que inclusive pode explicar a permanência dos vieses de esquerda e direita.

Um outro traço importante nessa história é a participação de pessoas – e elas são bem poucas, levando-se em consideração aquelas que lideram um ou outro segmento. São aquelas que encarnam a ideias, atitudes e ações que perpassam cada um desses blocos em separado. Os anos mais recentes têm demonstrado que há um trabalho intenso de manutenção de recall, a busca pela permanência de um nome associado à corrente que se promove. A democracia moderna possibilitou, ampliou e profissionalizou esse tipo de procedimento.

Acredito que adentramos então o campo da pantomima, dos discursos acalorados para fazer crer que de fato são acalorados, dos interesses complexos e difíceis de serem conhecidos. Ou seja, a política na sua acepção clássica e que se estabelece, mesmo que com distinções de época, da mesma forma de sempre.

A pesquisa em comportamento político pode estabelecer objetivos de mapeamento dessas expressões que dispõem atitudes e buscam representar seus emitentes. Seria interessante, por exemplo, pesquisar e procurar matizar os sentidos e significados das palavras que são usadas tanto como defesa de um lado quanto como ataque ao mesmo bloco. Uma metodologia deve então ser discutida e implementada. As palavras que aqui foram citadas podem ser buscadas e medidas através de pesquisas – survey – e os resultados podem ser interpretados. O produto desse trabalho poderá aprimorar o debate público relativo aos fazeres políticos em nosso país ou, no mínimo, auxiliar na compreensão do comportamento político brasileiro.

Entre em contato com a coluna
labo.behavior@gmail.com

Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.