A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

É possível permanecer de pé em meio à devastação?

Reflexões sobre o século XXI a partir de Donald Winnicott e Jordan Peterson

Esse texto é fruto das discussões realizadas no grupo de estudos Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, ocorridas no segundo semestre de 2021. Minha proposta é apresentar como as discussões, a partir de textos do psicanalista inglês Donald Winnicott e do livro 12 Regras para a Vida, do psicólogo canadense Jordan Peterson (2018), nos auxiliam a pensar algumas formas de enfrentar dilemas que vivenciamos cotidianamente em nossa época. O texto está separado em três partes: sobre a devastação; sobre a capacidade de ficar em pé; e sobre a possibilidade de permanecer em pé.

Inicialmente, gostaria de apresentar o que estou chamando de “devastação”. Apoio-me nos livros A era do niilismo: notas sobre tristeza, ceticismo e ironia (2021a) e (In)Felicidade para corajosos (2021b), ambos de Luiz Felipe Pondé, para sustentar o que estou descrevendo como esse cenário devastado. De forma sintética, podemos deduzir três elementos apresentados nessas obras que caracterizam nosso zeitgeist (espírito de nosso tempo): a mentira, o marketing e a psiquiatria.

A mentira e o marketing operam de forma conjunta. A primeira é o método de que o marketing se utiliza para manter o moinho do consumo girando. Como operador deste moinho, o marketing coloca-se como grande propagador de narrativas que servirão, repetidamente, ao incentivo e centralização do consumo como marco existencial para a vida de cada pessoa (PONDÉ, 2021a).

Simultaneamente, a psiquiatria colabora com os dois anteriores colocando-se como subsidiária fisiológica das drogas para que o moinho da mentira permaneça em atividade. Atenta a qualquer deslize, ela enfatiza a performance dos operadores e consumidores para que estejam sempre fora de sua “zona de conforto”, buscando sempre novas metas para alcançar (PONDÉ, 2021b).

Ressalto que entendo essas características como pertinentes à descrição de nosso tempo. Não visualizo nenhuma saída redentora diante de nossa época, não vislumbro plenitude em momento algum do passado nem prevejo nas utopias futuras. A devastação de hoje é marca de nossa insuficiência que permite um caminho cambaleante rumo às nossas expectativas e ambições.

Dito isso, passo ao segundo momento deste texto, em que pretendo discorrer sobre a nossa capacidade de ficar em pé. Winnicott (1969/1994) descreve, em seu texto “Fisioterapia e relações humanas”, a importância da integração da psique com o soma, para que possamos nos perceber enquanto indivíduos. Ou seja, essa acomodação não está garantida pelo nascimento, é preciso que um ambiente proveja os cuidados necessários para que um bebê integre seus movimentos e percepções corporais à sua realidade psíquica.

Isso reforça que os cuidados por terceiros são extremamente necessários em nossa história e, por se dedicar a pensar sobre esse fenômeno, Winnicott enfatiza reiteradamente essa posição. Diversamente dele, Jordan Peterson não está preocupado em descrever uma psicologia do desenvolvimento, mas, sob minha perspectiva, seus escritos dirigem-se ao que Winnicott chamava de “indivíduo saudável”.

Em seu texto “O conceito de indivíduo saudável”, Winnicott (1971/1999) descreve três aspectos que envolvem esse tema: a vida no mundo; a realidade psíquica interna; e a cultura. A vida no mundo refere-se às relações que uma pessoa nutre com as demais que estão ao seu redor, bem como a capacidade de dedicação a outras atividades cotidianas. A realidade psíquica pessoal designa a vastidão interior de uma pessoa com sua criatividade e sonhos, ou seja, certa elaboração que ela possui de suas próprias experiências. E, por último, a cultura, a qual Winnicott descreve como a capacidade de uma pessoa aproximar-se de e reconhecer-se nos objetos culturais como as artes, os mitos religiosos, os grupos e as religiões.

Essa tríade permite a aproximação com o pensamento de Jordan Peterson. Diferentemente de Winnicott, como dito anteriormente, Peterson está preocupado em possibilitar que uma pessoa que esteja minimamente estável em sua vida encontre significado em sua vida por meio de responsabilidades por ela assumidas. É pertinente um certo alerta em relação à proposta de Peterson, para que não se deságue em uma perspectiva self-made man de si e da própria vida. Por isso, a aproximação com Winnicott torna-se apropriada para garantir ao psicólogo canadense uma abordagem relacional de suas 12 Regras.

Peterson (2018) descreve, na Regra 1 de seu livro Costas Eretas, Ombros para trás, a importância de manter a cabeça erguida para enfrentar as dificuldades da vida cotidiana. A postura corporal serve como metáfora para a capacidade de assumir responsabilidades e, a partir disso, encontrarmos significados em nossas vidas. A ênfase em nossa capacidade de ficar de pé é também a reiteração de nossa capacidade de enfrentarmos as situações e encontrarmos sentido em nossa existência a partir disso.

Em uma aproximação dos dois autores, entendo que a dupla significado e responsabilidade serve como ponto de enlace entre os três aspectos do indivíduo saudável descrito por Winnicott: vida com o mundo; realidade interna; e cultura. Não há possibilidade de realização pessoal fora das relações interpessoais, de certa estabilidade interna e o reconhecimento de si como pertencente ao oceano cultural.

Considerando isso, dirijo-me, então, ao último momento deste texto: sobre a possibilidade de permanecer em pé. Organizei três pontos que descrevem minha percepção sobre os caminhos possíveis que temos para enfrentar a devastação em nosso tempo.

Primeiro ponto: Ninguém fica em pé sozinho. A partir dos escritos de Winnicott, considero que não só nossa capacidade de ficar em pé pela primeira vez, mas também a possibilidade de assim permanecer, estão diretamente relacionadas aos cuidados iniciais que nos possibilitaram habitar o mundo de uma forma minimamente alegre. Fomos convencidos, inicialmente e cotidianamente, pela presença de outras pessoas, de que a vida é algo que vale a pena.

Segundo ponto: São necessárias gerações anteriores e futuras para que se encontre um sentido para permanecer em pé no presente. Aqui, tomo a ousadia de brincar com a frase de Edmund Burke a respeito do Estado como uma comunhão de almas. A própria vida também é uma forma de parceria entre os mortos, os vivos e aquelas que irão nascer. Perceber-se como laço no fio geracional da vida pode possibilitar raízes e horizontes prenhes de esperança.

Terceiro e último ponto: A partir dessa inserção histórica/geracional, é possível brotar um significado para enfrentar a devastação. Retomo aqui a importância da cultura como elemento primordial do indivíduo saudável e a capacidade de encontrar significado por meio das responsabilidades que se ampliam para um cuidado com uma comunidade e um grupo, não só individual. O significado brota no solo das vivências humanas que transcendem a existência individual daqueles que o compõem momentaneamente.

Por fim, ressalto que esses três pontos não são “receitas” para a devastação, mas pequenos convites que podem frear um ritmo frenético, nossa aceleração cotidiana e, assim, percebermo-nos, a partir de nossa insuficiência, capazes, talvez, de permanecer em pé em meio à devastação.

Bibliografia

PETERSON, J. (2018) 12 Regras para a vida. Rio de Janeiro: Altabooks.

PONDE, L. (2021a) A Era do Niilismo: Notas de tristeza, ceticismo e ironia. Rio de Janeiro: Globo Livros.

_________ (2021b) (In)Felicidade para corajosos. Rio de Janeiro: Planeta.

WINNICOTT, D. (1969/1994) Fisioterapia e relações humanas. In: Explorações psicanalíticas. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. Porto Alegre: Artes Médicas.

_____________ (1971/1999) O conceito de indivíduo saudável. In: Tudo começa em casa. São Paulo: WMF Martins Fontes.

Imagem: Yan Boechat/VOA – Wikimedia Commons

Sobre o autor

Renan Carletti

Psicólogo e professor universitário. Mestre em Ciência da Religião e Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Membro do grupo de pesquisa “Crise do amadurecimento na contemporaneidade” do Laboratório Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.