
A pergunta que nos move é: o que essa prática revela sobre a saúde mental, a maternidade simbólica e os limites entre afeto, fantasia e delírio?
Winnicott (1951; 1971) define o objeto transicional como aquele que sustenta o bebê na travessia entre o mundo interno onipotente e a realidade compartilhada com o outro. Este objeto — um paninho, um urso, um cobertor — deve ser investido emocionalmente, mas também poder ser abandonado. O abandono do objeto marca a possibilidade de transição simbólica, tolerância à frustração e amadurecimento emocional. Green (2002) afirma que quando o processo simbólico falha, o sujeito perde a capacidade de manter viva a alternância entre ausência e presença, o que aprofunda a rigidez do vínculo com o objeto. Quando essa transição falha, o objeto se cristaliza como substituto permanente. Ele não facilita o encontro com o outro real, mas o evita.
Essa é a chave para entender o fenômeno das mães de reborn: o boneco, ao invés de ser um suporte simbólico, torna-se um refúgio afetivo fixado. A mulher não brinca com o reborn — ela se relaciona com ele como se fosse real, dissolvendo a fronteira entre fantasia e presença. Illouz (2011) aponta que o amor se tornou um bem simbólico mediado por performances afetivas e consumo emocional — o reborn cumpre exatamente esse papel de afeto empacotado. No tocante a isso, partimos da brincadeira ao delírio: O reborn e o estabelecimento do colapso do espaço potencial, que para Winnicott (1971), é o local onde o brincar acontece — uma zona de segurança criativa entre realidade e imaginação. Porém, quando o sujeito perde essa capacidade de simbolizar, o brincar deixa de ser transicional e se transforma em encenação do vazio. Nos deparamos diante da fronteira entre o brincar e o delírio: No caso das mães de reborn, essa fronteira parece se desfazer à medida que o boneco deixa de ser um objeto simbólico e passa a ser tratado como uma presença literal.
A hiper-realidade do reborn suprime a transição, eliminando a tensão criativa. Isso aproxima o fenômeno mais do delírio do que do brincar: a ilusão se torna cena vivida, e a fantasia não se reconhece como tal. Foucault (1972) nos lembra que as fronteiras do delírio são socialmente construídas — aquilo que chamamos de loucura pode ser, na verdade, uma outra forma de expressão psíquica não legitimada. Notamos a coisificação do outro: O cuidado sem alteridade.
A relação com o reborn não é intersubjetiva. Ela é unilateral e completamente controlável. Isso a aproxima da coisificação, conceito que pode ser lido por meio de autores como Jessica Benjamin (1995) e Axel Honneth (2003). O reborn é o “outro” que não é outro — é objeto moldado para não frustrar, não escapar e não ser diferente. Isso revela não só uma estrutura narcísica de relação, mas também a fragilidade emocional que não tolera contingência. Como observa Byung-Chul Han (2015), vivemos uma era que elimina a negatividade das relações.
A maternidade com reborn é maternidade sem falha, sem dor, sem alteridade. O filho real dá lugar ao objeto emocional perfeito: coisificado, estéril, emocionalmente unidirecional. Sendo didática sobre este prisma, em Honneth (2003), a coisificação elimina a possibilidade de reconhecimento — base moral da relação intersubjetiva. Em Benjamin (1995) há a complementação afirmando que a subjetividade só se forma plenamente diante de um outro que resiste, que devolve diferença e que não é extensão narcísica do eu. Podemos pensar sobre a busca pela natureza de vínculo seguro ou até um substituto patológico? Sim! O objeto transicional se posiciona como um substituto permanente.
O reborn ultrapassa a função saudável de um objeto transicional e se aproxima de um substituto permanente, mantido sob idealização rígida e ritualização emocional. Ao contrário do objeto que é usado e abandonado, ele é preservado como presença contínua. Não ensina a suportar a ausência — ele nega a ausência, encenando permanência imutável. A ausência de transição revela uma psique aprisionada: não há amadurecimento, há fixação.
O reborn não é ponte — é porto. Ele não simboliza a dor: ele a suspende. Benjamin (1995) afirma de forma contundente que o amadurecimento emocional exige a presença de um terceiro simbólico que impeça a fusão total com o objeto. Quando esse terceiro é abolido, resta a repetição narcísica do vínculo sem alteridade. Urge a questão: Qual o papel da cultura na manutenção da ilusão?
Vivemos em uma cultura que valoriza o afeto editável, controlável e performativo. Em um contexto no qual vínculos reais implicam risco, conflito e frustração, a sociedade passa a legitimar a evasão da realidade. O reborn surge como antídoto cultural contra a dor da relação verdadeira.
A maternidade idealizada permanece como símbolo de valor social, mesmo que desvinculada da biologia ou da reciprocidade. Ser “mãe de reborn” não é apenas cuidar de um boneco — é ocupar, simbolicamente, um lugar social em que o afeto é higienizado e sem contradições.
Temos a clareza de que a relação contingencial surge como uma dependência emocional ou impossibilidade de simbolização. Sabemos que, para Winnicott (1958), amadurecer é tolerar a frustração, simbolizar a falta e se relacionar com a alteridade. As mães de reborn, nesse sentido, não apenas buscam companhia, mas evitam o vínculo real e imprevisível.
A relação com o reborn oferece a segurança de um outro que nunca rejeita, nunca desaponta, nunca exige. É vínculo sem reciprocidade — e, portanto, sem crescimento. Han (2015) define esse fenômeno como a “expulsão do outro”: o outro é rejeitado porque frustra, porque exige negociação. Assim, o reborn torna-se uma solução cultural para uma maternidade sem risco — uma simulação afetiva esterilizada.
Por fim, obebê reborn, longe de ser apenas um boneco, é um sintoma cultural e subjetivo. Ele expressa o colapso da simbolização, a coisificação do vínculo e o desespero por contato emocional. À luz da psicanálise winnicottiana, ele não é um objeto transicional, mas um substituto fixado, que bloqueia o amadurecimento e aprisiona o sujeito na repetição do afeto idealizado.
O bebê reborn expressa o colapso da simbolização e a fixação em um vínculo sem alteridade. Foucault (1972) nos lembra que o que a cultura chama de irracional muitas vezes é apenas o modo de expressão de uma dor que não encontrou linguagem. Como um grito silencioso, o reborn representa não só uma ausência de vínculo — mas a ausência de mundo. Talvez o reborn seja, em última instância, o boneco que revela que não falta maternidade — falta mundo, faltam vínculos e falta o humano.
Referências
Benjamin, J. (1995). Laços de amor: psicanálise, feminismo e o problema da dominação. Brasiliense.
Foucault, M. (1972). História da loucura na idade clássica. Perspectiva.
Green, A. (2002). O discurso vivo: uma introdução à psicanálise. Martins Fontes.
Han, B.-C. (2015). A expulsão do outro. Vozes.
Honneth, A. (2003). Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. Ed. 34.
Illouz, E. (2011). O amor nos tempos do capitalismo. Zahar.
Winnicott, D. W. (1951). Transitional objects and transitional phenomena. International Journal of Psychoanalysis, 34, 89–97.
Winnicott, D. W. (1958). The capacity to be alone. International Journal of Psychoanalysis, 39, 416–420.
Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. Routledge.
Imagem: montagem sobre fotos de divulgação
