
Uma sociedade saudável é um ideal nobre e urgente. No entanto, será que esse horizonte é possível sem cairmos na armadilha da ingenuidade ou da paranoia do controle absoluto? Como cuidar e amar uma humanidade tão adoecida, marcada por guerras, desigualdade, solidão e medo? A pergunta que ecoa é: ainda há esperança para um projeto humano que preserve a dignidade de cada pessoa sem sacrificar a singularidade no altar das ideologias coletivas?
Entre os extremos da ingenuidade e da paranoia, Winnicott (1988/1999) situa a verdadeira independência como fruto de um amadurecimento emocional sustentado por experiências reais de cuidado. A ingenuidade representa a recusa em reconhecer o mal e a fragilidade humana, uma forma de dependência infantil travestida de otimismo. Já a paranoia expressa o polo oposto: a desconfiança defensiva e o medo de ser invadido ou aniquilado pelo outro. Em ambos os casos, o indivíduo permanece aprisionado em reações imaturas. Somente quando o cuidado recebido se transforma em “cuidar-de-si-mesmo”, o sujeito alcança uma autonomia que integra confiança e realismo, nem cego diante do perigo, nem endurecido pelo medo. Essa é a base de uma vida criativa e seria também a de uma sociedade verdadeiramente saudável?
Theodore Dalrymple (2015), em seu texto Como amar a humanidade e como não amar, chama a atenção para um paradoxo histórico: de um lado, os inflamados discursos em defesa dos pobres e oprimidos; de outro, a constatação de que as piores atrocidades foram cometidas em nome da própria humanidade. Revoluções que prometeram liberdade e igualdade frequentemente desembocaram em regimes de terror. Dalrymple alerta para o risco de um amor abstrato pela humanidade, aquele que ignora o indivíduo concreto e, por isso, pode se tornar violento e desumanizador.
A comparação entre Turgenev e Marx ilustra bem essa contradição. O primeiro via cada ser humano como único, portador de consciência e sentimentos; já o segundo reduzia as pessoas a peças de uma engrenagem histórica. Enquanto Turgenev nos convida a sentir a dor alheia como algo singular e concreto, como no conto Mumu, que denuncia a crueldade do sistema servil russo, Marx, ao focar nas estruturas sociais, corre o risco de apagar a individualidade.
É justamente nesse ponto que Donald Winnicott oferece uma chave de compreensão: uma sociedade saudável só pode nascer de indivíduos emocionalmente integrados, pois “a sociedade não passa de uma duplicação maciça de indivíduos” (Winnicott, 1967/2021, p. 22). Para ele, saúde não é ausência de medo ou frustração, mas a experiência de viver a própria vida de modo autêntico, assumindo responsabilidade pelas próprias escolhas e omissões. Em tempos de despersonalização em que o consumo e o desempenho substituem a espontaneidade e a criatividade, essa visão é profundamente atual.
Pondé (2015), ao longo de seu estudo O conceito do medo em Winnicott, nos lembra que o medo não é apenas um sintoma, mas um mensageiro. Sua presença revela uma dimensão humana essencial: a capacidade de perceber o perigo, elaborar a angústia e buscar o cuidado. Cada medo carrega uma etiologia própria, marcada pela história e pela intensidade das experiências emocionais. Assim, o medo saudável não paralisa, orienta. É a ausência dele que denuncia o adoecimento, pois somente quem sente medo pode transformar a ameaça em possibilidade de crescimento. Nesse sentido, o medo é uma conquista do amadurecimento.
O indivíduo saudável, segundo Winnicott (2021), manifesta a capacidade de viver criativamente nas três dimensões da vida: a vida no mundo, em que as relações interpessoais conferem sentido à existência; a vida psíquica pessoal, onde se expressa a espontaneidade e profundidade; e a experiência cultural, que conecta o indivíduo à história, à arte, à religião e à comunidade. É o equilíbrio entre essas dimensões, individual, coletiva e cultural, que permite o ser humano viver uma vida que realmente vale a pena ser vivida.
Zygmunt Bauman, em Medo líquido (2008), acrescenta a essa reflexão a análise de uma era marcada pela instabilidade e pela fluidez. Nessa modernidade líquida, as identidades tornam-se frágeis e mutáveis, obrigando o sujeito a se reinventar continuamente. Enquanto Winnicott valoriza a previsibilidade do ambiente como base do amadurecimento, Bauman revela como a ausência dessa estabilidade gera medo, solidão e fragmentação. O desafio contemporâneo é equilibrar constância emocional e flexibilidade adaptativa diante das transformações incessantes da vida.
Em meio a essa fluidez, a sociedade digital amplia o distanciamento humano: o olhar é substituído pela tela, a escuta pela resposta automática, a presença pela performance e seguidores nas redes sociais. Crescem a depressão, a ansiedade e o isolamento. Uma sociedade adoecida não pode gerar indivíduos saudáveis e sem indivíduos saudáveis, nenhuma sociedade pode florescer.
Dalrymple recorda que o poder não desaparece, apenas muda de forma, e deve ser exercido com compaixão e justiça. Turgenev, em sua literatura, lembra que toda opressão é, antes de tudo, uma experiência humana. Marx, em sua ânsia de mudar o mundo, talvez tenha esquecido que nenhuma revolução social é sustentável sem a transformação do indivíduo.
A resposta, portanto, talvez esteja em como escolhemos amar a humanidade. Se esse amor for abstrato e distante, será apenas uma ideia estéril; mas se for vivido como cuidado concreto no encontro real com o outro, na escuta e no reconhecimento da dor e da singularidade, poderá, de fato, transformar o mundo.
Winnicott (2021) adverte: “Os seres humanos provavelmente serão os responsáveis pela destruição do mundo. Se for assim, talvez possamos morrer na próxima bomba atômica sabendo que isso não é saúde, mas medo; é parte do fracasso das pessoas e das sociedades saudáveis em dar suporte a seus membros doentes.” A verdadeira revolução, então, talvez seja aprender a amar o humano no homem antes de amar a humanidade como conceito.
É nesse ponto que a experiência de Richard Rohr traz um sopro de esperança. Frade franciscano e místico contemporâneo, Rohr seguiu o exemplo de São Francisco de Assis, pregando simplicidade, fraternidade universal e respeito pela dignidade humana. Em 1987, fundou o Center for Action and Contemplation (CAC), em Albuquerque, Novo México, com a missão de integrar ação social e contemplação espiritual. Suas obras são convites a um amadurecimento espiritual que liberta e cura, tocando vidas em diferentes contextos culturais e religiosos. Além disso, Rohr dedicou-se a caminhar junto a pessoas marginalizadas, especialmente homens em busca de reconexão com sua essência e espiritualidade, por meio dos Men’s Rites of Passage e da rede internacional Illuman. Seu amor pela humanidade manifesta-se não apenas como afeto, mas como compromisso concreto com o despertar espiritual, a justiça social e a reconciliação consigo mesmo e com o outro.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido de “avançar para trás”: resgatar a humanidade perdida nas relações, sustentar os frágeis, cuidar dos doentes e reconciliar-se com o medo como parte essencial da vida. Se saúde é maturidade, então toda forma de imaturidade representa uma deficiência no processo de integração psíquica, uma ameaça ao indivíduo e uma perda para a sociedade (Winnicott, 1983/2007, p. 63). Assim, uma sociedade verdadeiramente saudável não será construída por ideologias ou tecnologias, mas pela coragem de cada indivíduo em viver uma vida real, madura e profundamente humana.
Referências bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Medo líquido. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
CENTER FOR ACTION AND CONTEMPLATION. Books by Richard Rohr – CAC Bookstore. Disponível em: https://store.cac.org/collections/richard-rohr-books. Acesso em: 5 out. 2025.
DALRYMPLE, Theodore. Como amar a humanidade e como não amar. In: Nossa cultura… ou o que restou dela. São Paulo: É Realizações, 2015.
PONDÉ, Danit. O conceito do medo em Winnicott. São Paulo: DWW editorial, 2015.
WINNICOTT, Donald W. Tudo começa em casa. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
WINNICOTT, Donald W. Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago, 1999.
WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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