
A clínica da contingência
Um dos fenômenos mais claros na atualidade é o quanto cresce nos mais jovens as demonstrações de desinteresse ou evasões em relação a atividades de adultos que eram esperadas com bastante ansiedade pelos jovens de outrora. Chegar aos 18 anos significava alcançar a etapa final da adolescência quando alguns rituais de passagem contemporâneos tinham vez. Entre eles, como exemplo, o ser legalmente possível dirigir um carro. Simbolicamente dirigir um carro pode ter diversos significados, mas, sem dúvida, comunga de modo universal a ideia de ter o controle da direção, ou seja, o controle sobre os rumos da própria vida. Em meio a diversos exemplos similares, pode-se questionar por que alguns destes rituais ou marcos da entrada em condição de maior autonomia pessoal e independência na relação com os pais, pode se transformar nos dias de hoje em algo indesejável. Afinal parte-se do pressuposto que a tarefa de cada indivíduo é amadurecer no sentido de assumir as rédeas da própria vida e tornar-se responsável pelas decisões quanto a isto, vindo a participar de um modo crescente na sociedade onde vive. Nas palavras de Winnicott, é imperativo que as pessoas ao amadurecer:
“…têm de aceitar o que são e aceitar a história de seu amadurecimento pessoal, juntamente com as influências e atitudes ambientais locais; elas têm de continuar vivas, e vivendo, tentar se relacionar com a sociedade de modo a haver contribuição nos dois sentidos.” (1970, p.189)
Assim que, o recuo da estudada geração Z permanece desafiando o entendimento. No mais, profeticamente, há 100 anos, Ortega y Gasset (2016) anunciava a síndrome comum do europeu em acreditar-se numa posição garantida de nobre herdeiro de modo a despreocupadamente eximir-se de cuidar da herança. Adiante, já vivendo-se isto, a questão vislumbra os percalços na continuidade da manutenção da civilização e da espécie. A preocupação em garantir uma zona de conforto para si substitui e desgasta o impulso de busca pelo outro e por transitar na sociedade.
A percepção de Jonathan Haidt (2024) sobre estar no mundo de hoje operando uma reconfiguração no brincar com a entrada da tecnologia virtual, do brincar encarnado anterior para o brincar desencarnado atual, atinge amplitude maior no existir humano. O nível de preferência pelo trânsito no mundo virtual escala em igual proporção ao aumento deste viver desencarnado, que, no mais, minimiza os custos emocionais pois tem zero custo de entrada e zero custo na saída. De certo que não estão sozinhos nisto, os adultos também embarcaram nesta nau. Frank Furedi (2002) reflete o quanto os pais paranoides foram ativamente fomentadores desta condição titubeante dos filhos na medida que se potencializava neles uma parentalidade dominada por sentimento de ameaça a segurança, de si mesmos e dos filhos, derivada de fatores internos e externos imbricados. Estes adultos tampouco podem ser entendidos isoladamente. Como na boneca russa Matrioska, o indivíduo, a família, a estrutura institucional de apoio e a sociedade, estão encaixados. Nos dois sentidos, a cultura que norteia o viver e pertencer de cada indivíduo transmite os valores aos quais se edifica pelo conjunto da atuação dos indivíduos que a compõem. Enfim, na atualidade, a insegurança generalizada transmite a liquidez de bases oriundas de inconsistência relacional e relativização moral. Um sentimento que fica quanto mais acentuado como diz Furedi (2025) quanto o homem comum e respectivo senso comum é deslegitimado em prol de experts e uma elite pensante e respectivas pretensões visionárias.
A permanência num mundo acolchoado provido pelo ambiente, seja familiar ou social, é infantilizante, mas, sobretudo, é incerta e improvável. Ainda que existam esforços neste sentido de pais em excessos de cuidados já não mais necessários, ou através de políticas públicas assistencialistas em substituição a escassez nos investimentos prévios na estruturação social, a própria vida não segue planos. De um modo pessoal, mais para o patológico, a resposta diante das incertezas da vida é manter tudo sobre controle, evitando no que for possível de ser evitado, a própria vida. Em termos econômicos o que acontece é uma troca: sai o regozijo e o sofrer aportado pela diversidade em experiências de todos os tipos e fica a manutenção rígida de situações num modo mínimo. Um mundo ao ser mantido pequeno e restrito facilita um estudo prévio, a planificação e o devido preparo ao que poderá surgir adiante. A geração Z então representaria um desvio das gerações anteriores?
Ledo engano. A geração Z é continuidade. Vislumbra-se dois aspectos básicos que apontam esta continuidade. O primeiro aspecto acompanha a linha temporal antropológica do homem em seu esforço por garantir a sua existência desde os primórdios. A busca em proteção pela morada e pelo pertencimento familiar/tribal, a busca pela obtenção da comida, o aprimoramento dos meios técnicos facilitadores da vida, a busca de explicações para a morte nos rudimentos da religião já compunha todo um arsenal de modos e recursos diante da contingência. Em termos filosóficos, o que não segue planos e nem se tem controle sobre, é a contingência. No caso do contexto primevo dos nossos antepassados, o nível de exposição à contingência era enorme. A natureza mãe e madrasta fustigava os homens impulsionando-os em soluções cada vez mais assertivas. Com o passar do tempo, os contextos ficaram mais complexos assim como as respostas diante da contingência variaram, mas persevera o esforço assegurador num gradual aumento na necessidade de certezas e segurança. No entanto, na contemporaneidade, reconhece-se o aumento de conforto material e tecnológico provido pelas gerações anteriores. Os modos de recuo da geração Z desafiam a lógica: não seria de se esperar que o maior asseguramento material aportaria maior segurança e sentimento de segurança. Com tudo isto, apesar disto ou por isto mesmo encontramo-nos mais ainda expostos diante da contingência?
A pesquisa psicanalítica, ao qual recorremos para entender a dimensão dinâmica psicológica do ser humano, pretende circunscrever a ideia de contingência sob o nome de realidade. Grosso modo, para Freud a realidade era algo dado como princípio, ou seja, algo que o indivíduo-bebê tinha que se haver e se havia desde o início da vida, razão pela qual lidamos com uma angústia primordial por ter caído do paraíso e chegado no inferno quando nascemos pois experimentamos esta vulnerabilidade. Para ele, a instintualidade inata intermedia as relações com esta realidade de modos diferentes através das fantasias de sentido no transcurso do desenvolvimento. Impossibilidades de lidar com a brutalidade do real fazem com que o indivíduo recue e este recuo é da ordem do que se chama psicose. No mais, em Futuro de uma Ilusão Freud argumenta o quanto ter crenças religiosas significa apoiar-se em um sistema irracional, indemonstrável e de recusa da realidade que se origina do sentimento de desespero e vulnerabilidade infantil, não ultrapassado ao longo do crescimento. De qualquer modo, o que mais se destaca em seu entendimento sobre a contingência, é que esta é um dado inicial e que cabe ao indivíduo lidar com isto e que não existem colchões possíveis para amenizar seus efeitos a não ser a fuga para a doença da psicose ou tomando medidas infantis de apoio e amparo na construção de certezas artificiais. Significativamente em termos interpretativos, a realidade para Freud era a lei dos limites, das regras, da ordem das coisas, assim que em seus casos transbordam informações sobre as relações dos pacientes com o pai. Pouco se sabe sobre a mãe e as dinâmicas existentes entre ela e o filho/filha. Neste sentido, o complexo de Édipo torna-se seu exemplar no entendimento do adoecer humano da ordem da neurose. O problema humano da ordem da psicose apontava uma falta de estrutura pessoal impossível de ser tratada permanecendo sem amparo por parte da psicanálise.
Entre outros na filosofia, encontram-se as afirmações de John Kekes que versam a respeito da condição humana na qual a contingência opera quer inicialmente ou ao longo da vida e imprime limites. Assim confirma o caráter incontrolável da contingência no viver, considerando que “não temos todos os dados para prever quais condições, adversidades e crises podem ocorrer no futuro” (2021). Mas, por outro lado, reafirma o quanto lidar com ela é a tarefa humana. Para ele, enxergar os limites não é disruptivo, é um fator que imprime a necessidade de busca por melhores condições desde que contabilizado o fator real limitador. Não pode haver esperança sem enquadre, e o enquadre é a realidade de ser imperfeito dentro de realidade imperfeita. Em seu pensamento, apesar de estarmos sujeitos a contingência, não somos governados por ela. “Nós temos controle, mas ele é imperfeito”. Em resumo, o fato de estarmos cientes da contingência não nos exime de enfrentá-la e para isto deve-se buscar meios de fazê-lo e encarar o sofrer.
Winnicott deu continuidade à pesquisa psicanalítica, mas como pediatra tinha muito mais acesso ao início da vida, portanto muito mais próximo das relações mãe/bebê. Assim suas observações construíram um novo entendimento sobre a saúde e o adoecer humano que elucidam as patologias mais graves como derivadas de falhas ambientais nos primórdios de vida que, por isto, incidem na compreensão dos modos relacionais do indivíduo de alcançar a realidade e de nela transitar.
Para Winnicott, na perspectiva do bebê não existe realidade. Nos modos que vem ao mundo, o bebê não sabe de nada, não tem consciência de nada e nem mente para dotar de sentido o que quer que lhe aconteça. Enfim, não sabe de sua existência e nem do outro que dele cuida. É uma pessoa existente somente porque nos braços de um outro que assim o percebe e o sustenta. Ou seja, existe para o observador e não a partir de um si mesmo ainda incipiente. Como apontado pelo autor, o bebê é absolutamente ou 100% dependente dos cuidados da mãe ou de sua substituta. Deste modo, no que se refere a pensar-se sobre a condição humana inicial na matriz da contingência, pensando no bebê e sem que ele tenha a menor noção disto, TUDO É CONTINGÊNCIA. Se ele é totalmente isento de “se preocupar” com o que lhe acontece, neste sentido de independência absoluta derivada desta condição total de alienação, configura-se uma situação de 100% de exposição a arbitrariedade contingencial sob a qual se encontra.
Entretanto, mesmo esta contingência em grau máximo ou a realidade da qual nada sabemos para Winnicott não assume um lugar de fatalismo, pelo contrário, ele vai apostar justamente nisto para compreender a importância do ambiente e as relações de mutualidade indivíduo/ambiente como as centrais para facilitar o desenvolvimento maturacional saudável. O bebê não é uma tabula rasa na medida que é herdeiro de condições genéticas e da natureza humana quanto espécie; o potencial cerebral, as sensações, a motilidade, a instintualidade, a fisiologia lhe são inatas desde o início. No entanto, todo este conjunto em potencial somado ao ambiente em que vive lhe são externos e o percurso maturacional é marcado pela integração destas capacidades inatas através de compassos temporais em experiências relacionais consigo mesmo e com o ambiente de modo a reunir o estatuto fragmentado inicial em uma unidade. Winnicott acentua esta visão ao afirmar uma natureza humana com a tendência inata à integração, ou seja, impulsionada pela busca da saúde. Saúde entendida como sinônimo do amadurecer e alcançar a plenitude da realização dos potenciais nas linhas crescentes da fundação da pessoalidade, do crescimento físico e intelectual, da socialização e da riqueza de gozar de interesse cultural no intercâmbio com o mundo das produções humanas. Ainda que, em modos de ser mais patológicos como os marcados por uma interrupção significativa do processo maturacional, todos os sintomas são sinais de SOS ao ambiente e seguem na direção de solicitar um amparo do ambiente para conseguir seguir adiante neste processo.
Em relação ao controle sobre a contingência e a contingência, se em parte para Winnicott o que Kekes falou é verdade, esta verdade é resultado processual. Não o é na condição inicial de vida, momento em que atribui os fundamentos saudáveis da personalidade humana. Para que constituam-se recursos maturacionais para dar conta adiante da contingência, no começo da vida a contingência potencial de 100% em que o bebê está mergulhado, precisa ser 100% tornada previsibilidade e controlável pelo ambiente. Esta é a grande tarefa inicial do ambiente, a mãe cuidadora. Por meio de sua disposição emocional qualificada em cuidar, a mãe facilita as acontecências; adapta-se indo ao encontro da necessidade alucinada do bebê existente, por exemplo no impulso da fome; apresenta em pequenas doses o mundo formado por ela e as condições ambientais outras, assim protegendo-o do ingresso de uma realidade para a qual não está preparado. Nas palavras de Winnicott:
O processo maturacional impulsiona o bebê a relacionar-se com objetos, no entanto, isso só pode ocorrer efetivamente quando o mundo é apresentado ao bebê de modo satisfatório. A mãe que consegue funcionar como um agente adaptativo apresenta o mundo de forma a que o bebê comece com um suprimento de experiência de onipotência, que constitui o alicerce apropriado para que ele, depois, entre em acordo com o princípio de realidade. (1970, p. 13).
Ao longo do processo, gradualmente as condições de dependência variam se relativizando de modo a cada vez mais facilitar o ingresso mediado da realidade. Quando suficientemente preparado e calçado em recursos crescentes, o bebê passa a se dar conta de que existe um eu, por isso existe um não eu e um mundo de coisas outras. Esta é a condição que substancia a resiliência, ou seja, a condição de negociação com a contingência sem sucumbir aniquilado ou sem sucumbir ao medo de ser aniquilado. O medo de ser aniquilado é memória do passado primitivo e se expressa na rigidez de controle do mundo que diminui as fronteiras e aprisiona o viver. Liberdade existe como condição de liberdade, ou seja, para aqueles que podem experimentar-se no mundo em modos flexíveis como as molas subterrâneas nas construções japonesas antiterremotos.
Resta ainda responder, então, o que seria uma clínica da contingência. Simplificadamente, em primeiro lugar, entender do que se está tratando. A demanda é por colchões, mas fora dos marcos inicias da vida maturacional, é fora de cogitação. No mais, impossível. Mas demanda não é necessidade. E a necessidade sempre será a de amadurecer e alcançar níveis crescentes de saúde em sentido pessoal e gozo da vida. Para isto, legitimar e entender de onde deriva é um primeiro passo que remete à pergunta do porquê com tantos asseguramentos materiais, os indivíduos continuam a se sentir tão ameaçados a ponto de congelar ou diminuir os passos rumo a autonomia?
Este é o segundo aspecto em ato contínuo em nossos tempos: a confusão entre individualismo e individualidade. O “cada um com seus problemas”, seria o individualismo. A individualidade é a condição saudável de existir e estar no mundo. O alcance da individualidade é fruto de experiências acumuladas pelo bebê em suas relações apenas porque existiu o ambiente para prover e sustentar o cenário para estas experiências. Daí que na contingência, ou em situações contingentes, que a qualquer idade pode vir a irromper, a maior afronta para um ser humano é sentir-se só, desacreditado ou ser responsabilizado pela contingência. Casos tratados no Hospital da Mulher Pérola Byington no departamento de abuso sexual confirmam isto. A contingência é o princípio de realidade e é sempre uma afronta. Entretanto é menos violenta do que a solidão de se estar enfrentando sozinho sem apoio ou compreensão. Assim, ao falar em clínica da contingência, apoia-se na qualidade ambiental de apoio ao enfrentamento. Ser autônomo não é ser só nem autossuficiente. É poder contar com um outro cuja saúde o dota de capacidade de identificação cruzada, ou
a capacidade que um indivíduo tem para penetrar através da imaginação, e ainda de modo preciso, nos pensamentos, nos sentimentos e nas esperanças de outra pessoa, e também de permitir que outra pessoa faça o mesmo com ele. (Winnicott, 1970, p.111)
Nas origens etiológicas do não ir para a frente, reconhecemos os efeitos nefastos de interrupção da continuidade de ser que impede o alcance da saúde plena associada ao adulto maduro como consequência de falhas ambientais. Falhas que não dizem respeito ao progresso em suas facetas técnicas, conhecimento e manuais de apoio à parentalidade. Falhas que dizem respeito sim à pobreza relacional e à falta adaptativa que pode estar vinculada a diversos fatores. Psicologias da funcionalidade, da positividade ou da intelectualidade ao invés de curar acirram ainda mais a dissociação que se observa nos exercícios do mundo virtual desencarnado e do individualismo infantil onipotente. Ali se pode tudo, alimentando-se artificialmente o mundo da onipotência primitiva. Ao mesmo tempo, cada vez menos se pode no mundo real encarnado e com seus limites marcados pela realidade diante do qual se sentem ameaçados. Este é um sintoma de SOS, cabe a quem goza de saúde entender e amparar este pedido.
Referências bibliográficas
COPPE, R. (2021): Entrevista com John Kekes. Off Lattes.
FUREDI,F.(2002): Paranoid Parenting. Chicago, Chicago Review press Incorporated. USA
FUREDI,F. (2025): Democracy is in serious trouble. Site: Roots&Wings with Frank Furedi.
HAIDT, J. (2024): A geração ansiosa. Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo, Editora Schwarcz, BR.
ORTEGA Y GASSET (2016): A Rebelião das massas. São Paulo, Editora Vide, BR.
WINNICOTT,D.W.(1970): Saúde e Doença. In: Tudo começa em casa. São Paulo, Martins Fontes Editora, BR.
WINNICOTT,D.W.(1970): A cura. In: Tudo começa em casa. São Paulo., Martins Fontes Editora, BR.
WINNICOTT,D.W.(1970): Este Feminismo. In: Tudo começa em casa. São Paulo., Martins Fontes Editora, BR.
Imagem gerada por IA
