A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

O ódio no cotidiano

Temos muitos exemplos dos efeitos desse sentimento no cotidiano, basta abrir um jornal para encontrar uma tipologia das formas como odiamos: misoginia, polarização, racismo, guerras, violências etc. Reagindo aos mais variados tipos de ódios, encontramos, por outro lado, posicionamentos calorosos a favor de um lado da história. Sobretudo as redes sociais acabam se tornando ringue de opiniões, julgamentos que dão combustível para a “máquina do ódio” continuar a funcionar. 

Sabemos que o ódio, uma emoção negativa profundamente enraizada, manifesta-se de diversas formas no cotidiano das pessoas. Este artigo explora como o racismo estrutural e as teorias da conspiração sem base lógica afetam as interações diárias, as percepções e as atitudes das pessoas em ambientes comuns como locais de trabalho, escolas e plataformas online.

Mas sem nos prender a uma tipologia das expressões do ódio, quero guiar o pensamento através da pergunta direcionada à segunda palavra do título: afinal, cotidiano de quem? Como psicólogo, minha lente se direciona para as pessoas que atendo: algumas expressam ódio, outras são vítimas do ódio, e há aquelas que não querem falar sobre esse sentimento. As pessoas que enfrentam o ódio, que expressam de alguma forma, tentam entender o que ocorre com elas; como muitas vezes são tomadas por essa experiência, procuram entender o sofrimento que as atingem. Quem é vítima do ódio, da violência, está procurando se estruturar novamente, porque perdeu o seu “chão”, tendo sofrido física e mentalmente. São pessoas que precisam de ajuda, de acordo com o grau de violência que a atingiram. E existem as pessoas que não querem falar a respeito, como um escapismo, procuram sempre falar de outra coisa, que não o reflexo do ódio que porventura vivenciaram ou que presenciaram de alguma forma. 

Nesse sentido, em vez de qualificar os tipos de ódio, podemos ensaiar observar as formas como as pessoas se colocam diante desse sentimento denso na contemporaneidade: as que tentam a todo custo escapar do peso dessa discussão, negando o tema ou não o colocando em pauta; as que sofrem pontual ou diariamente com a expressão do ódio no cotidiano, em nível mental, físico e espiritual; e as reagem aos seus sofrimentos e condições com ódio, praticando as violências mais diversas com outras pessoas. Fato é que, como indivíduos, todas as pessoas que se colocam diante da questão do ódio no contemporâneo estão em sofrimento. O DSM (pg.461-480), manual diagnóstico e estatístico de transtorno mentais, aponta que quando as pessoas odeiam, elas possuem algum tipo de transtorno e as que são vítimas desse ódio, no nosso cotidiano, adoecem e apresentam transtornos mentais, ou seja, esses dois grupos precisam de ajuda. Tal sofrimento aparece e pode se manifestar de várias maneiras.

Quando falamos do nível individual, tendo ao viés da saúde mental, ou seja, analisar o ódio como adoecimento ou sofrimento psíquico. Viktor Frankl, em seu conhecido Em busca de sentido (2008, p. 39-43) traz uma interpretação importante sobre esse sofrimento quando é inevitável. O neuropsiquiatra austríaco, que sobreviveu a quatro campos de concentração nos anos 1940, defende a ideia de que podemos sobreviver e resistir ao ódio: não se entregar a essas questões e apontar algum tipo de saída. Ele enfrentou o ódio buscando um espaço para criar algo de valor na vida; no caso dele, atender ao sofrimento de quem sobrevivia com ele no campo e relembrar sua tese sobre a busca de sentido na vida em micro papéis que escondia nos trapos que vestia. 

Essa referência de um autor do passado, em outro continente, nos ajuda a olhar para como lidamos hoje, por exemplo, com o ódio racial. Não fui o primeiro a fazer essa conexão. Franz Fanon, psiquiatra antilhano, no seu livro Pele Negra Máscaras Brancas (2020, p.136), também aponta uma certa ligação entre o ódio aos negros e judeus, dizendo:

Uma vergonha!
O Judeu e eu: não satisfeito em me racionalizar, por um feliz acaso, eu me humanizava. Eu me unia ao judeu, irmãos na desgraça.
Uma vergonha!
A primeira vista, pode parecer surpreendente que a atitude antissemita se assemelhe ao negrófobo. Foi um professor meu de filosofia, de origem antilhana, que me alertou um dia: “Quando ouvir falar mal dos judeus, fique atento, estão falando de você”. E achei que ele tinha razão num sentido universal, compreendendo naquilo que eu era responsável, em meu corpo e em minha alma, pelo destino reservado ao meu irmão. De lá para cá, entendi que ele basicamente queria dizer: Um antissemita é necessariamente um necrófobo. 

Fanon dedicou sua vida para tentar entender o ódio aos negros, o porquê é tão forte e tão pesado. Ele faz colocações que nos fazem pensar como as questões sociais impactam a subjetividade e influenciam os mecanismos individuais para lidar com o ódio. Trago aqui a questão do racismo para ilustrar que o cotidiano de algumas pessoas em nossa sociedade é muito mais afetado pelo ódio do que outras. 

E é por isso que lidar com este sentimento não é exclusivamente um desafio individual, mas coletivo. Daí a importância de criarmos e respeitarmos leis que protejam pessoas em situação de vulnerabilidade social e pessoas historicamente marginalizadas ou com menos privilégios do que outras. 

No ambiente de trabalho, por exemplo, o ódio pode surgir disfarçado de preconceito sutil ou até mesmo de discriminação aberta. Funcionários negros, por exemplo, podem enfrentar desafios únicos que vão desde comentários microagressivos até barreiras explícitas na progressão de carreira. Essa realidade é agravada quando figuras de sucesso, como líderes negros ou profissionais altamente qualificados, são alvo de ressentimentos e estereótipos negativos.

Esses cenários não apenas afetam o bem-estar emocional e profissional dos indivíduos afetados, mas também criam um ambiente de trabalho tóxico, prejudicando a produtividade e a moral da equipe. As organizações precisam reconhecer e abordar ativamente essas questões, promovendo a igualdade e a inclusão, e educando sua força de trabalho sobre a importância de combater o preconceito e o racismo.

Um grande desafio que enfrentamos na contemporaneidade, inclusive para fazer valer leis que protegem vítimas de ódio, é que esse sentimento se alastra com rapidez e de forma anônima no mundo virtual. Diferentemente de enfrentar uma situação de violência física e verbal no mundo de carne e osso em que nos relacionamos, em que geralmente é possível denunciar, identificar ou mesmo enfrentar um fato vivido, é lidar com uma situação que acontece no campo da virtualidade, imaterial, que desperta sentimentos reais em nós. 

Parte da nossa vida hoje está nas redes sociais, porque acordamos e já estamos lá. A questão do ódio aparece nesse veículo de massa como um discurso, que programado, que tem uma intencionalidade de atingir determinado grupo, determinada pessoa, destruir a imagem e é possível fazer isso. As pessoas conseguem criar ferramentas com o uso da Inteligência Artificial, criar imagens na intenção de desinformar, difamar, de destruir. Prática esta absolutamente presente no nosso cotidiano, este tipo de violência é pautado na intolerância, nas diferenças, na não aceitação do diferente, não aceitação do outro, e, nos ambientes cultural, religioso, étnico, além de orientação sexual etc.

O mundo online se tornou um caldeirão de ódio e desinformação, no qual teorias da conspiração florescem e se espalham rapidamente. Essas teorias muitas vezes visam grupos específicos, criando e reforçando preconceitos e ódio. A exposição constante a tais ideias pode moldar as percepções das pessoas, levando a atitudes e ações discriminatórias no mundo real.

Os discursos de ódio que circulam nas redes virtuais afetam muito a nossa saúde mental, ou seja, crianças, adolescentes, adultos e idosos, que estão preocupados com a autoimagem, com a apreciação do outro.  Há uma estética falsa, criam-se padrões e pessoas são forçadas a entrar nesses padrões. Todos acabam entrando nesse jogo (crianças, jovens, adultos etc.). Há uma dificuldade em se distinguir o que é ilusório e o que é verdade. Tudo é interpretado literalmente.

Essa realidade inventada que aparece no campo da internet, no cotidiano, cria uma realidade paralela.  Há uma codependência da quantidade likes. Cria-se um campo exageradamente fértil para as fake news que chegam ao nosso cotidiano, afetando nossas relações. Quem não rompeu nesses últimos anos alguma amizade por conta de algo que aconteceu em troca de mensagens em redes sociais?

Temos observado ultimamente um aumento significativo de crianças e adolescentes enfrentando sofrimento extremo e até casos em que encerram a própria vida, por se sentirem pressionados num discurso de ódio que chega sem filtro. Quando se percebe o que está acontecendo é tarde demais.Como afirma Fanon (2020, p. 68), “o ódio não está dado, precisa ser conquistado a todo instante, precisa ser alçado ao ser, em conflito com complexos de culpa mais ou menos assumidos. O ódio pede para existir e aquele que odeia deve manifestar esse ódio por meio de atos, de um comportamento adequado; em certo sentido deve-se tornar-se ódio.”

Nas instituições educacionais, o ódio e o preconceito podem ter um impacto profundo no desenvolvimento e na experiência educacional dos jovens. Estudantes de minorias raciais ou étnicas podem enfrentar bullying, exclusão e baixas expectativas, o que pode levar a uma diminuição do desempenho acadêmico e ao desengajamento escolar. Além disso, a falta de representatividade no currículo e no corpo docente pode perpetuar estereótipos e preconceitos, limitando a compreensão e a apreciação da diversidade cultural e racial.

Para combater isso, as escolas devem adotar um currículo inclusivo, promover a diversidade entre os professores e funcionários e criar um ambiente seguro e acolhedor para todos os alunos. Programas de conscientização e educação antirracista são essenciais para criar uma geração mais empática e informada.

Como profissionais de saúde também somos vítimas em algum momento do discurso do ódio e em algumas situações que podem chegar à morte. Muitas vezes, os sofrimentos migram desse mundo virtual e vão para o campo real, culpabilizando o outro com algo que não se consegue resolver em si mesmo. Isso tudo está no humano e precisamos cuidar desses aspectos relacionados a tal sentimento. 

Mesmo sendo algo da natureza humana, o ódio não deve prevalecer nas relações pessoais e sociais. Do ponto de vista psíquico, as pessoas que odeiam não vão buscar ajuda para resolver o seu comportamento, porque, na maioria das vezes, nem acreditam que estejam erradas. Quando estão escondendo algo e não conseguem lidar com isso, elas precisam destruir, atacar o outro por uma questão própria. Por isso, a moderação de conteúdo e a educação digital são cruciais para combater a disseminação de ódio e desinformação online. As plataformas de mídia social devem ser responsabilizadas por permitir que tais conteúdos proliferem e os usuários precisam ser equipados com habilidades críticas para navegar no ambiente digital e identificar informações falsas ou enganosas.

A frustração e a falta de sentido na vida são um terreno fértil para o ódio, porque a ausência de sentido remove as barreiras de limite saudáveis. É aí que se gera um terreno para disseminar violência em direção ao outro e a si mesmo. As pessoas que propagam o ódio apresentam, em geral, quadros de transtorno mental, sendo necessário uma correta avaliação e diagnóstico para um tratamento adequado com profissionais de saúde.

Podemos cair num vazio existencial criando essa grande neurose de massa, e precisamos de certa forma ir em direção a um otimismo trágico (Frankl, 2008, p. 159), entender que o ódio não tem cura, mas é preciso extrair o melhor que existe nessas situações extremas, para poder manter a saúde mental a fim de seguirmos nossas vidas. 

O otimismo é uma peça-chave dentro da concepção de felicidade de Viktor Frankl; não por acaso vem acompanhado do adjetivo trágico. É uma proposta de extrair o melhor que a vida possa oferecer, dentro das condições que são apresentadas. É dizer “sim” à vida e, nesse tempo de existência, realizar sentido.  A vontade de sentido é um caminho importante, pois contém um “motor propulsor” que faz com que a pessoa se oriente em direção a realizar algo de concreto e, nessa realização, encontra felicidade como “subproduto”. […] O otimismo trágico é, portanto, adotar uma postura ativa, engajada, mesmo diante de situações extremas. (Gomes, 2021).

O ódio no cotidiano, seja ele baseado em raça, religião, gênero ou qualquer outra característica, prejudica a coesão social e o bem-estar individual. É vital que todos os setores da sociedade – negócios, educação, mídia e indivíduos – trabalhem juntos para combater o preconceito e promover uma cultura de respeito e tolerância. A luta contra o ódio e a discriminação é um esforço contínuo que requer comprometimento e ação consciente de todos nós.

Como lutar? Desenvolvendo resiliência. É fundamental explorar essa habilidade como uma ferramenta vital na superação desse sentimento. A resiliência não é apenas resistir ao ódio, mas transformar a experiência negativa em um catalisador para o crescimento pessoal e a empatia.

As histórias de superação e resistência ao ódio, especialmente em contextos de discriminação racial e social, são fontes de inspiração e aprendizado. Podemos citar exemplos de indivíduos e comunidades que, apesar de enfrentarem adversidades e preconceitos, conseguem transcender o ódio através da arte, da educação e do ativismo social. Essas narrativas são essenciais para criar um senso de esperança e para demonstrar que o ódio pode ser enfrentado e superado.

Além disso, é importante destacar a importância do apoio social e psicológico para aqueles que sofrem as consequências do ódio. O acompanhamento psicológico, o apoio de comunidades e grupos de ajuda e a solidariedade podem ser fundamentais na jornada de superação do ódio. Estes recursos ajudam as pessoas a reconstruírem sua autoestima, encontrarem novos propósitos e se reconectarem com a sociedade de maneira saudável e construtiva.

O enfrentamento do ódio no cotidiano exige uma abordagem multifacetada que inclui a resiliência, o apoio comunitário, a conscientização e a educação. Por meio dessas estratégias, indivíduos e comunidades podem encontrar caminhos para superar o ódio e promover uma cultura de tolerância e respeito mútuo.

Referências bibliográficas

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020. 

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração/ Traduzido por Water O. Schupp e Carlos C. Aveline. 25. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petropolis: Vozes, 2008.

FRANKL, Viktor E. Sede de sentido. Introdução, tradução e notas de Henrique Elfes – 3 ed. – São Paulo; Quadrante, 2003.

GOMES, Francisco Carlos. A felicidade é uma conquista da vontade autônoma? In Offlates, 28/10/21. Disponível em: https://offlattes.com/archives/10334

GUIA CONTRA O ANTISSEMITISMO: O que é e como combater o ódio aos judeus. Coleção IBI. 2023

MANUAL DIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS: DSM.5 / American Psychiatric Association; tradução Maria Inês Correa Nascimento et al – revisão técnica. Aristides Volpato Cardioli et al. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

MELLO, Patrícia Campos. A Máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

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Sobre o autor

Francisco Carlos Gomes

Psicólogo Clínico e Logoterapeuta. Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Fundador e diretor clínico do Núcleo de Logoterapia AgirTrês. Coordenador do grupo de pesquisa "O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ