Sala Michael Oakeshott

Notas sobre “Religion and the Moral Life”, de Michael Oakeshott

OAKESHOTT, Michael Joseph. Religion and The Moral Life.
In: Religion and the Moral Life. Yale University Press, 1993. cap. 2, pp. 39-45.

Fruto de suas reflexões da juventude, o ensaio intitulado “Religion and The Moral Life” – presente no livro Religion, Politics and the Moral Life, obra póstuma que reúne variados textos de Oakeshott –, busca tratar de um dos pontos centrais da reflexão de Oakeshott ao longo de sua jornada intelectual: o fundamento das relações humanas. Desse modo, é notório como o filósofo britânico se dedica profundamente ao problema da condição humana e a como a conduta individual, portanto moral, se estabelece no seio de uma comunidade política historicamente situada.

É nessa direção que Oakeshott traz no seu texto uma reflexão filosófica aguçada sobre a relação entre moralidade e religião, testando suas possibilidades, características e limites. Em poucas páginas, o filósofo percorre, de modo sintético, as principais ideias presentes no seu tempo, tratando do fenômeno da moralidade e da controvérsia em torno do papel da religião na constituição da moral individual e comunitária. Em suma, Oakeshott se propõe a realizar uma breve investigação sobre as conexões entre moralidade e religião por meio de um olhar teórico e sistemático.

Inicialmente, Oakeshott se propõe a apresentar três visões primordiais sobre a questão: a ideia da religião como a própria definição de moralidade; a religião como um meio de sancionar a moralidade; e a religião como a conclusão, ou fim, da moralidade. Em relação à primeira visão, Oakeshott começa rejeitando a ideia de que a relação entre religião e moral seria na verdade a manifestação de um único fenômeno, o que ele entende por uma visão grosseira, caricatural e simplificada da realidade. Todavia, à medida que desenvolve seu argumento, o autor expõe aquilo que seria uma posição mais sofisticada e relevante para a discussão a que se propõe. De fato, é possível perceber na escrita de Oakeshott uma forte análise teológica, capaz de demonstrar uma certa erudição religiosa, apesar de não ser esse o intuito primordial de seu texto.

Nesse momento, Oakeshott se debruça sobre a ideia da moralidade como condicional à expressão religiosa e, de modo geral, o cerne de sua argumentação pressupõe a noção de moralidade como um exercício de agentes morais. Portanto, é evidente que o conceito de moral abordado está entrelaçado à ideia de autonomia e agência individual. A conclusão conseguinte é a de que, em um primeiro momento, a relação entre moralidade e religião deriva do fato de que o fim religioso só pode ser alcançado através de um exercício moral. Em outras palavras, se o intuito da religião é a relação entre Deus e Homem, essa relação só pode fazer sentido por meio de uma ação moral consciente, o que tem implicações diversas dentro do pensamento teológico (no caso em específico, de recorte cristão). Naturalmente, conclui Oakeshott, a separação completa entre a ação religiosa e a ação moral não se sustenta de um ponto de vista filosófico.

Contudo, fica claro que, apesar de reconhecer a validade da ideia da moralidade como condicional à religião, Oakeshott enxerga essa visão como limitada no que diz respeito à relação entre moral e religião. Dito isso, é apresentada a ideia da religião como uma sanção para moral. Basicamente, é observável que a ação moral depende de um juízo que a qualifique, não sendo apenas o mero exercício da autonomia, mas um exercício guiado por critérios fundamentais que sancionam a ação moral enquanto tal. O problema é que a ideia de moralidade, que se inspira na noção de realização daquilo que é bom, é fadada a uma abstração vaga incapaz de autojustificação. Desse modo, é muito presente na história das ideias a busca pelos fundamentos da moral, e a religião se apresenta como uma alternativa de alto nível, pois é capaz de personificar em termos doutrinários uma fonte concreta do juízo moral abstrato. Nesse sentido, agir moralmente é visto como agir de acordo com o conteúdo da revelação divina, isto é, se submeter acriticamente aos comandos de Deus.

Mas Oakeshott vai na contramão dessa posição ao apontar que ela não se sustenta, principalmente se comparada à ideia da moralidade como condição à religião. De fato, se a ação moral pressupõe um grau de autonomia – logo uma adesão voluntária e consciente –, a ação reativa e automática guiada por comandos divinos não pode ser considerada moral. Como afirma Oakeshott,

Se a lei moral é o comando de Deus que deve ser meramente obedecido de forma cega, então somos moralmente imorais – o que é um absurdo. Se a moralidade consiste na personalidade moral autônoma escolhendo e entendendo por si mesma então a noção de uma lei moral externa, a vontade de Deus, é uma noção imoral. E se uma religião revela a lei moral como algo que requer mera obediência, essa religião é, portanto, falsa (OAKESHOTT, 1993, p. 43).

Diante dos pressupostos levantados no ensaio, resta a última perspectiva, a qual para Oakeshott pode ser considerada a menos inadequada e mais completa das três assertivas. Trata-se da ideia da religião como o fim ou conclusão da moral. Como levantado, é compreendido que a moral é necessariamente autônoma e produto de uma agência consciente, mas, por outro lado, seu conteúdo possui vinculações abstratas nunca realmente palpáveis e realizadas. De fato, o bem moral é um objeto infinito, constante, imaterial e não verificável. No entanto, para que a ação moral seja qualificada enquanto tal, ela não pode ser o mero exercício da vontade; nem de uma vontade externa, o que faz a ideia da religião como sanção para moral ser falsa; nem de uma vontade interna instintiva, o que faz a ideia da moralidade como condição para a religião incompleta e insuficiente.

Para que a moral seja qualificada, precisa se pautar em critérios de juízo sólidos e a religião se apresenta como um objeto de reflexão moral absolutamente conveniente, capaz de representar a manifestação da postura moral por meio de um conteúdo “factual”. Isto é, se a moralidade demanda a aspiração de bens intransponíveis e abstratos, como o alcance da bondade infindável, o conteúdo religioso personifica e concretiza a manifestação dessa bondade e a religião se torna uma consequência possível da ação moral – obviamente sob o prisma da compreensão teórica. De tal maneira, é possível compreender a reflexão oakeshottiana a respeito da finalidade religiosa da moral como o produto não de uma defesa doutrinária e teológica de uma determinada prática religiosa – apesar do cristianismo se apresentar como modelo exemplar dado o contexto histórico e social do autor –, mas como uma forma de disposição psicológica da moral a partir de uma sistematização teórica.

Nesse sentido, consiste na ideia da religiosidade como um objeto de exercício mental compatível com a reflexão moral, visto que apresenta um conteúdo sólido para que a moral seja codificada, concretizada e ajustada por meio de uma linguagem observável. Dito de outra forma, a moral se apresenta como um processo que tem seus pressupostos satisfeitos por meio da expressão da linguagem religiosa, visto que esta última é capaz de ser um objeto de codificação da moral, o que por si só se adequa a ideia da moral enquanto um exercício de autonomia consciente em relação a um conteúdo qualificado.

Oakeshott conclui, então, que, no que tange à reflexão sobre relação entre religião e moral, várias teses e ideias são apresentadas, o que por si só demonstra a existência de um relacionamento estreito e frutífero. Contudo, mediante a investigação teórica e sistemática, a ideia da religião como um aspecto de sanção ou uma fonte de autoridade para a moral é incoerente, sendo incompatível com a noção da moral como condição de uma experiência religiosa verdadeira. Para além disso, a moral, como parte do exercício religioso, se apresenta como uma definição verdadeira, porém parcialmente suficiente, deixando brechas que são mais precisamente esclarecidas uma vez que se parte da ideia da religião como uma conclusão da moral. Assim, a religião é vista como um meio de resposta capaz de satisfazer as demandas do processo moral, concretizando a experiência individual abstrata através de um conteúdo moral palpável, em que os critérios de juízo adequados para uma ação moral qualificada possam ser manifestos a partir da experiência que a religião é capaz de fornecer em completude. Por conseguinte, Oakeshott acaba fazendo referência ao papel do desenvolvimento histórico do cristianismo na experiência civilizacional inglesa, utilizando-a como um exemplo dessa relação entre moral e religião, o que, em suma, não pode ser reduzido a uma caricatura de que sejam a mesma coisa, mas ao mesmo tempo possuem uma relação íntima evidente.

Referências

OAKESHOTT, Michael. Religion and the Moral Life. In: OAKESHOTT, Michael. Religion, Politics and the Moral Life. 1. ed. [S. l.]: Yale University Press, 1993. cap. 2, pp. 39-45.

Imagem: Michael Oakeshott (autor não identificado)

Sobre o autor

Victor Oliveira

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Candido Mendes. Pesquisador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.