O Vazio Existencial na Contemporaneidade

Por que é tão atual falar sobre sentido na vida?

O contexto atual, marcado principalmente pela pandemia, tem impactado significativamente as formas de viver do ser humano, e, sobretudo, as formas de nos relacionarmos uns com os outros, exigindo um constante processo de adaptação e construção de novas possibilidades de enfrentamento das consequências advindas deste cenário. Em decorrência disso, o medo, incertezas e inseguranças em relação ao futuro estão cada vez mais manifestos como expressões da nova realidade.

Indo ao encontro das marcas que atravessam esse contexto, observa-se gradativamente o aumento de sentimentos como vazio, solidão e desesperança, de modo que o niilismo vem ganhando cada vez mais espaço. Entende-se, aqui, o niilismo como uma visão cética e pessimista sobre o mundo, que nega a possibilidade da descoberta de um sentido para a vida e a existência (PONDÉ, 2021).

Tal corrente de pensamento niilista surgiu no final do século XIX, como um fenômeno histórico demarcado pela crescente perda de valores e descrença de verdades estáveis da época (PONDÉ, 2021). Contudo, apesar dessa linha de pensamento surgir há séculos, podemos notar que os atributos de nossa sociedade contemporânea, como citados anteriormente, podem contribuir para o aumento desta vertente de pensamento e postura niilista, por meio de um agir sem esperança, adquirindo forte apego à individualidade, descartando assim valores e aumentando a angústia em relação ao viver.

Em vista disso, muitos autores nas diversas áreas da filosofia, sociologia e psicologia estudaram as dimensões e características do niilismo, apontando-o como um fenômeno histórico e cultural da sociedade, demarcado pela atitude crítica e pessimista diante da realidade e dos valores humanos. Por isso, um dos principais pressupostos para sua superação é a possibilidade de realização de sentidos na vida.

Os constructos relacionados à temática do sentido da vida constituíram objeto de pensamento ao longo da história e do desenvolvimento da filosofia, tornando-se um dos principais tópicos de reflexão de diversos filósofos da existência dedicados ao estudo da complexidade do ser humano, como Kierkegaard, Buber, Heidegger, dentre outros. (AQUINO, et al. 2015).

Conforme aponta Heidegger (2015), ao encontrar sentidos em sua existência, o ser humano estabelece propósitos que guiam a sua compreensão acerca do mundo, bem como orienta seus comportamentos, facilitando um vivenciar da existência mais autêntico. 

Posteriormente, para além de uma temática restrita ao âmbito filosófico, o sentido de vida também foi abordado através de uma perspectiva clínica, como por exemplo em Viktor Frankl, através da logoterapia.

Psiquiatra e neurologista austríaco, Frankl foi um crítico da cultura moderna, que buscou contrapor-se ao pensamento niilista apontando suas repercussões para a saúde mental. Sua preocupação primordial partiu do vazio existencial aparente na contemporaneidade, que decorre da falta de sentido na vida.

Frankl desenvolveu a terceira escola vienense de psicoterapia, chamada de logoterapia, também conhecida como terapia centrada no sentido, justamente por assinalar a busca de sentido na vida enquanto uma motivação básica de todas as pessoas. Conforme destaca o autor, “para a logoterapia, a busca de sentido na vida da pessoa é a principal força motivadora no ser humano” (FRANKL, 2019, p. 124).

Destarte, Frankl defende que o ser humano não é um sistema fechado, mas um ser que possui em sua essência uma abertura para o mundo. Por esse motivo, “preocupa-se com valores, em alguns momentos criando obras, em outros amando ou comtemplando a natureza e obras artísticas, ou ainda, posicionando-se perante o sofrimento inevitável” (AQUINO, 2015, p.18).

Frankl entende o sentido na vida como a descoberta de uma possibilidade diante da realidade, amparado por um contexto valorativo, de modo que a vida sempre tem um sentido, cabendo a cada pessoa descobrir quais as possibilidades de realização em cada circunstância. À vista disso, compreende os valores enquanto o caminho pelo qual as pessoas podem encontrar o sentido em cada situação de vida e sintetiza três categorias de valores, que podem facilitar com que o sujeito encontre os sentidos em sua vida.

São eles: (i) os valores de criação, enquanto possibilidade de realizar-se na criação de algo no mundo, pela atividade exercida, a partir do momento em que expressa ali sua criatividade e unicidade; (ii) os valores de vivência, no encontro de sentido pela contemplação, seja na bondade, no amor ou no contato com a natureza, a música ou a arte; e, por fim, (iii) os valores de atitude, caracterizados pela tomada de posição perante o sofrimento inevitável, ou seja, a realização de sentido na atitude tomada diante do sofrimento. Com isso, Frankl nos demonstra que, quando não podemos mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos, e descobrir qual atitude pode ser tomada diante das circunstâncias que nos são apresentadas (FRANKL, 2005).

Na perspectiva Frankliana, então, o sentido na vida desvela-se como um dinamismo constante, através de uma ação consciente direcionada à busca pela realização de valores, pela descoberta de uma possibilidade diante da realidade, ou seja, da possibilidade de transformar a sua realidade, o “porque” e o “para que” existir de cada pessoa (FRANKL, 2019).

Na história da filosofia, pode-se encontrar diferentes conceitos para designar o que é sentido de vida. Na ótica de Frankl, sua definição pode ser confundida com propósito, significado, revelação, dentre outros. Contudo, a caracterização de sentido enquanto um conceito estruturante próprio se dá como resultado de uma avaliação de congruência por meio de um contexto valorativo (PACCIOLLA, 2017).

Por isso, ao abordar esse tema na ótica de Frankl, alguns apontamentos  importantes devem ser destacados. Inicialmente, deve-se ressaltar que o sentido difere de pessoa para pessoa, de dia para dia, e até mesmo de hora a hora (FRANKL, 2019). O ser humano, enquanto sujeito caracterizado por uma abertura para o mundo em constante alteração, deve, a cada instante, descobrir os sentidos presentes em sua vida, realizando os valores possíveis em cada momento. Frankl nos alerta que o sentido difere de pessoa para pessoa, sendo único e exclusivo de cada um – determinada situação que faça sentido para um sujeito pode não fazer para outro, justamente pelo fato do sentido ser específico de cada pessoa, baseado em suas experiências e singularidade enquanto ser-único.

Outra condição importante a ressaltar na perspectiva frankliana é que o sentido nunca pode ser criado, mas sim descoberto. Essa diferenciação é citada por Frankl para demonstrar a relação de abertura do sujeito com o seu mundo, que implica sempre um agir, um posicionamento, destacando o caráter autotranscendente do sentido, que diz respeito a algo ou alguém que está para além da pessoa. Seja na criação, na contemplação ou na atitude tomada diante do inevitável, a descoberta de sentido não resulta em mera percepção subjetiva, mas desvela-se em uma ação responsável por parte do sujeito, um posicionamento que emerge de sua relação com o mundo, sempre vinculado a uma situação de valor, sendo singular e irrepetível (PEREIRA, 2013).

Este agir se torna responsável em virtude da consciência valorativa de cada indivíduo, ou seja, do conhecimento de cada pessoa acerca do que se apresenta como um valor, de modo que seus comportamentos sejam guiados por seus próprios valores. Diante de tais considerações, Frankl destaca a consciência como o órgão de sentido, definindo-a como “a capacidade intuitiva de descobrir o rastro de sentido – único e singular – escondido em cada situação” (FRANKL, 2015, p. 25).

Em última análise, a pessoa não deve perguntar qual é o sentido de sua vida, mas sim reconhecer que é ela quem está sendo indagada. Dessa forma, de acordo com a perspectiva de Frankl (2019),

viver não significa outra coisa senão arcar com a responsabilidade de responder adequadamente as perguntas da vida, pelo cumprimento das tarefas colocadas pela vida a cada indivíduo, pelo cumprimento da exigência do momento (p. 102).

Dadas as considerações aqui apresentadas, afinal, como ir ao encontro do sentido em face de tantas adversidades e desafios desencadeados pela pandemia?

Conforme nos traz a reflexão Mazziero (2021), diante do sofrimento, temos a possibilidade de compreendê-lo enquanto parte da existência, acolhendo o sofrimento inevitável como uma realidade da qual não é possível fugir pela vida inteira.

Destaca-se que, aqui, de modo algum se pretende romantizar o sofrimento, indicando-o como uma necessidade para o encontro de sentido. Pelo contrário, busca-se demonstrar que, mesmo existindo o sofrimento, é possível o encontro de sentido na vida, apontando que este não anula as possibilidades de realização, mesmo que, em determinadas circunstâncias, tal sentido esteja na atitude adequada perante o sofrimento inevitável.

Como nos ensina Frankl (2015), o sofrimento deve ser evitado sempre que possível. No entanto, quando o indivíduo não pode mais mudar uma situação e evitar o sofrimento, então há a possibilidade de mudar a si mesmo, na atitude direcionada a tal situação.

Sequencialmente, podemos observar que uma das marcas ocasionadas por este contexto de pandemia foi a solidão, desencadeada principalmente pela necessidade de isolamento social. A esse respeito, Frankl (2005) nos traz uma instigante reflexão acerca do fenômeno da solidão, vendo tal fenômeno como uma possibilidade de transformar algo negativo (a ausência de pessoas) em algo positivo: uma oportunidade para a reflexão. Usando esta oportunidade, podemos compensar a excessiva valorização da vida ativa gerada pela sociedade industrial (na busca frenética por produtividade, também como uma expressão da contemporaneidade), empregando um tempo na vida contemplativa, tendo em vista que a vida propõe, a cada dia e a cada hora, a possibilidade de novas vivências.

Nessa direção, Borba (2021) nos chama a atenção para a distração alienante caracterizada na sociedade contemporânea, desencadeando uma ansiedade generalizada por consumo de conteúdo e, consequentemente, uma angústia existencial. A proposta de Frankl, por sua vez, é um convite a estar atento às situações, e perceber nossa responsabilidade pelo modo como experenciamos a vida.

Em suma, Frankl nos alerta sobre a importância de termos um cuidado integral com o ser humano, ou seja, deve-se valorizar os cuidados com o corpo físico, os cuidados com a saúde mental, e também os cuidados com o ser existencial, que se caracteriza justamente na busca e na realização dos sentidos em sua vida.

Portanto, a atualidade de se falar e refletir acerca da temática do sentido na vida está na sua compreensão como uma condição essencial para o bem-estar e para a qualidade de vida das pessoas, uma vez que a consciência de ter um sentido a realizar na vida diariamente proporciona maior capacidade de superação e resistência aos problemas e dificuldades em geral (FRANKL, 2019).

Por fim, o legado de Frankl nos ensina que

o encontro de sentido na vida pode não anular a dor, mas, com certeza, nos livra do desespero. Pode não mudar a realidade da pandemia e todas as suas consequências, mas nos dá a oportunidade de mudarmos a nós mesmos e nos tornarmos pessoas mais dignas e realizadas. Pode não nos livrar da morte, mas nos permite construir o mais belo monumento da nossa própria existência, ainda que tenhamos que lapidar em meio as lágrimas, na certeza que um dia, quando não tivermos mais fôlego de vida, deixarmos com orgulho esse monumento como um legado para a humanidade. (PONTES; SANTOS; DUARTE, 2020, pp. 19-20)

Referências

AQUINO, et al. Questionário de Sentido de Vida: Evidências de sua Validade Fatorial e Consistência Interna. Psicologia: Ciência e Profissão.v.35, n.1, pp. 4-19, 2015

AQUINO, T. A. A. Sentido da vida e valores no contexto da educação: uma proposta de intervenção à luz do pensamento de Viktor Frankl. Editora Paulinas, 2015

BORBA, A. Distrações e distorções. Disponível em: https://offlattes.com/archives/8686

FRANKL, V. E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Editora Vozes, 2019

FRANKL, V. E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. Editora É realizações, 2015

FRANKL, V. E. Um sentido para a vida: psicoterapia e humanismo. Editora Ideias & Letras, 2005

HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Editora Vozes, 2015

MAZZIERO, K. Os números alarmantes e a positividade vazia de sentido. Disponível em: https://offlattes.com/archives/9102

PACCIOLLA, A. Psicologia contemporânea e Viktor Frankl.Editora Cidade Nova, 2017

PEREIRA, I. S. A ética do sentido da vida: Fundamentos filosóficos da logoterapia. Editora Ideia & Letras, 2013

PONDÉ, L. P. A era do niilismo: Notas de tristeza, ceticismo e ironia. Editora Globo Livros, 2021

PONTES, A. M; SANTOS, D. M. B.; DUARTE, C. Z. G. O legado de Viktor Frankl: caminhos para uma vida com sentido. Editora IECVF, 2020

Imagem: detalhe de “La reproduction interdite” (Rene Magritte, 1937)

Sobre o autor

Vitor Célio Souza Lana

Psicólogo e pós-graduando em Psicologia fenomenológica-existencial e humanista. Pesquisador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.