A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

Como não criar um filho chato?

Para nos vingar dos que são mais felizes do que nós, inoculamo-lhes – na falta de outra coisa – nossas angústias. Porque nossas dores, infelizmente, não são contagiosas. E. M. Cioran, Silogismos da amargura.

A preocupação em criar filhos inteligentes segue hoje um cálculo instrumental. Com o projeto de promover filhos de sucesso, aptos a enfrentar um mercado cada vez mais competitivo, os pais investem recursos, complementam agendas escolares com atividades extras, antecipam-se na vida intrauterina fazendo Mozart passar pelo umbigo materno. Pais afoitos em estimularem sinapses, metade das quais, mal sabem eles, serão podadas vinte e quatro meses depois do parto.

A poda neuronal (ou apoptose) refere-se a um processo geneticamente programado que seleciona as sinapses que participam de um circuito cerebral – participar de um circuito é o que torna a sinapse fortalecida. Em contrapartida, as sinapses enfraquecem quando não são úteis e, por fim, são eliminadas. Ao longo da infância, neurologicamente falando, o ambiente refina o cérebro. Com o passar do tempo, nosso cérebro forma menos conexões, verdade, porém mais fortes. Você se torna quem é não por aquilo que cresce em seu cérebro, mas pelo que é eliminado. Nessa perspectiva, somos o resto, aquilo que sobra.

Não soa como uma visão muito positiva do desenvolvimento cerebral, concordo, mas as evidências nem sempre acompanham as expectativas e o cientificismo – aquilo que tem aparência de ciência – costuma ser melhor de marketing que a ciência em si, ou seja, falar de Mozart intrauterino é mais legal do que falar em poda de neurônios. Falar em apoptose é quase como ver o copo meio vazio, e não meio cheio, o que um coach poderia dizer representar um mindset rumo ao fracasso.

Enquanto os pais estão sobrecarregados com as demandas de desenvolvimento intelectual de seus filhos, a educação doméstica, tal qual uma sinapse enfraquecida, é podada do processo. Preocupados em criar filhos inteligentes, os pais se esquecem de não criar um filho chato. Talvez o conceito de chatice tenha ficado obscuro, mas você pode querer salvar o planeta e ainda assim ser um chato. É comum que esses protótipos de Einstein amem o planeta e sejam desprezados pelos colegas, inclusive, esse é um dos motivos principais da inserção desses jovens no ambiente psicoterapêutico.

É uma infeliz realidade humana como, rotineiramente, ao tentar se arrumar de um lado, se estraga do outro.

O psicólogo clínico canadense Jordan Peterson, em 12 regras para a vida: um antídoto para o caos, na sua regra 5, “não deixe que seus filhos façam algo que faça você deixar de gostar deles”, aconselha os pais, por serem representantes do mundo real, a auxiliarem seus filhos a não serem objeto de desprezo dos outros. O psicólogo descreve a necessidade da imposição de limites em prol da socialização dentro de nosso percurso civilizatório. Para ele, educar um filho é ensiná-lo a conviver com os outros. “É um ato de responsabilidade disciplinar uma criança” (PETERSON, 2018, p. 128), “crianças precariamente socializadas têm vidas terríveis” (PETERSON, 2018, p. 140).

Dificilmente um pai ou uma mãe vai confessar que seu filho faz algo que os faz deixar de gostar dele. Socialmente não pega bem, mas uma vez ouvi de uma mãe o seguinte: “não tenho paciência para as conversas do meu filho, ele é muito chato”. Seu pequeno bebê de três décadas (e nenhuma doença mental) era um chato bem-criado, entretanto malsucedido. A despeito de todo o investimento parental, faculdade, cursos no exterior e bom rendimento intelectual, ele não conseguia um emprego e, quando conseguia, não permanecia lá por muito tempo. O mesmo acontecia com amigos e ralos relacionamentos amorosos, todos passavam por ele na igual brevidade de um estalar de dedos.

Para essa mãe, era claro que o filho era um chato. Não obstante, há casos de distorção perceptual do que deveria ser evidente. Uma mãe de um menino de dez anos, que dava negativas em afrontosos chiliques municiados de gritos agudos longe de agradáveis, disse-me que não queria que ele passasse a vida escutando das outras pessoas que ele era um chato. E acrescentou: “vai que ele acredita, isso vai afetar a autoestima dele”. A sugestão da mãe era resolver aquele desconforto social e psíquico com o diagnóstico de autismo.

Valem parênteses. Nos últimos anos, o diagnóstico de autismo ganhou status de commodity. Caiu na cultura popular a ideia de que autistas são gênios, apesar de socialmente inábeis e comportamentalmente desajeitados. Verdade que uma parcela rara, veja bem, muito rara, tem o que chamamos – com certa licença poética – de “ilhas de habilidades”. O primeiro termo era menos gourmetizado, apesar de convencionado em francês, idiot savants, que se traduz por “idiotas sábios”. Descrevia crianças e adultos que mostravam uma habilidade incrível, alguns em desenhos, outros com datas e cálculos mentais, enquanto não amarravam sapatos ou sequer conseguiam manter uma conversa.

Assim, parece que, popularmente, se passou a associar autismo a algo de sábio, de hábil, apesar da maioria dos autistas – cerca de 75% – ter deficiência intelectual. É estranho, mas passou-se a valorizar o autismo e a ignorar a deficiência intelectual, embora esta seja estatisticamente mais frequente. É, eu sei, vivemos tempos de monetização da doença mental, mas ser chato não é ser autista. Chamar chatice de autismo é o pior que se pode fazer a uma criança (que não é autista), pois subtrai dela a possibilidade de aprender a se ajustar melhor à vida. Como escreve Peterson, “cada coisa que a gente vê, mesmo com apenas um olho aberto” (p. 121).

Então, como não criar um filho chato? Talvez o primeiro ponto seja identificar o que é ser chato. Os chatos costumam esbanjar o que, em linguagem comum, chamamos de falta de noção. Limitados por suas visões estreitas de mundo, geralmente ressentidos, querem receber toda a atenção possível – e impossível. Por isso, frequentemente, atormentam os demais, podendo até ser excepcionalmente cruéis. A crueldade com os outros apenas mostra a sua própria fraqueza. Não só fazem o outro sofrer, no seu íntimo os chatos também sofrem.

Chatos são mais inseguros, ansiosos e imaturos. Por quê?

O chato quer o controle onipotente da realidade – controle este que qualquer ser mais amadurecido descobre não apenas ser inviável como não proporcionar segurança, mas dependência. Para o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott, no início da vida, a mãe deve proporcionar uma ilusão de que ela está sob o controle mágico do bebê [1], “a onipotência é quase um fato da experiência” (WINNICOTT, 1975, p. 26). Durante o desenvolvimento, a tarefa da mãe é desiludir gradativamente o bebê e, “se tudo corre bem, o bebê pode, na realidade, vir a lucrar com a experiência da frustração” (WINNICOTT, 1975, p. 25). “A ‘experiência de onipotência’ pertence essencialmente à dependência” (WINNICOTT, 1975, p. 50). Assim, podemos supor que, ao aparecer num chato, “a presente onipotência pertence à desesperança em relação à dependência” (WINNICOTT, 1975, p. 50). O chato pretende-se onipotente quando, no fundo, não acredita nem na própria capacidade de ser independente.

O chato também se leva muito a sério. O chato não sabe brincar e, quando adulto, não tem senso humor. O brincar, para Winnicott, é a própria saúde. No adulto, o brincar está na “escolha das palavras, as inflexões de voz e, na verdade, no senso de humor” (WINNICOTT, 1975, p. 61). É no brincar “que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação” (WINNICOTT, 1975, p. 79), é “sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” (WINNICOTT, 1975, p. 80) e “somente no brincar é possível a comunicação [2]” (WINNICOTT, 1975, p. 80). Bom exemplo do contrário é o fanático. Segundo o escritor israelense Amós Oz, o fanático, além de não ter senso de humor, é ruim de matemática, conta só até um, sendo esse um ele mesmo.

O chato vive de fantasias. O cuidado que temos de ter com o fantasiar é que ele não só “interfere na ação e na vida no mundo real, ou externo, mas interfere muito mais no sonho e na realidade psíquica pessoal, ou interna, o cerne vivo da personalidade individual” (WINNICOTT, 1975, p. 52). A fantasia pode presumivelmente nos ajudar a lidar com realidades difíceis, mas a fantasia não muda a realidade externa e, uma personalidade que vive de fantasias em sua realidade psíquica transita mal na realidade de fora, compartilhada pelos demais. A verdade cria anticorpos, nos torna capazes de enfrentar os obstáculos da vida. Isso é o cotidiano. “São as coisas que ocorrem todos os dias que de fato compõem nossa vida” (PETERSON, 2018, p. 121).

Sim, amadurecer e “criar filhos é exigente e exaustivo” (PETERSON, 2018, p. 147). Por mais que as neurociências tenham avançado nas últimas décadas, “quase tudo que faz parte do intelecto é provavelmente dependente de características afetivas” (MUSIL, p. 38). Colocando às claras, chatice e inteligência dependem tanto do intelecto quanto do amadurecimento emocional.

Educar é ensinar a conviver e ensinar a conviver passa por ensinar a não ser chato. Educar, nessa linha, e na de Peterson, é esclarecer sobre limites: os meus, os seus, os nossos. “Boas cercas fazem bons vizinhos”, avisa o poeta Robert Frost, lembrado por Amós Oz (2016, p. 43).

Somos um bicho social. Andamos em grupo e precisamos do grupo para sobreviver. Saber lidar com o outro é, portanto, fundamental. E é bom manter em mente que, mesmo o êxito em evitar ser chato pode ser intermitente – cada um de nós é chato, se não sempre, pelo menos de vez em quando.

“É prudente recordar que a capacidade humana de autocontrole também pode estar superestimada” (PETERSON, 2018, p. 125). Convém vigiar-se.

Referências bibliográficas

CIORAN, E. M. Silogismos da amargura. Rio de Janeiro: Rocco, 1991.

MUSIL, R. Sobre a estupidez. 3ª ed. Belo Horizonte, Veneza: Âyiné, 2020.

OZ, A. Como curar um fanático. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

PETERSON, J. B. 12 regras para a vida: um antídoto para o caos. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.

[1] Mediante “uma adaptação quase completa às necessidades do bebê e, à medida que o tempo passa, adapta-se cada vez menos completamente, de modo gradativo, segundo a crescente capacidade do bebê em lidar com o fracasso dela” (WINNICOTT, 1975, p. 25).

[2] Para Winnicott, a psicoterapia “trata de duas pessoas que brincam juntas” (WINNICOTT, 1975, p. 59), a psicoterapia é uma área de sobreposição do brincar do paciente e o do terapeuta. Se o paciente não é capaz de brincar, o terapeuta tem como tarefa trazer o paciente para um estado em que ele seja capaz de brincar. Onde se pode brincar, podemos nos comunicar.

Imagem: Heritage Library

Sobre o autor

Carolina Rabello Padovani

Pós-doutora em Ciências pelo Instituto de Psicologia da USP. Doutora e Mestre em Ciências pelo Instituto de Psicologia da USP. Especialista em Neuropsicologia pelo CEPSIC do HCFMUSP. Psicóloga, bacharel e licenciada pelo Instituto de Psicologia da USP. Pesquisadora dos grupos de pesquisa "Comportamento Político" e "A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade" e também pós-doutoranda no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.