Sala Michael Oakeshott

A recepção de Michael Oakeshott no Brasil

Entre 1976 e 1984, a Universidade de Brasília – UNB promoveu eventos internacionais com a participação de reconhecidos intelectuais, reunindo no Brasil alguns dos mais renomados pensadores da época. Entre eles, Karl Deutsch, Raymond Aron, Henry Kissinger, Ernest Gellner, Friedrich August Von Hayek, Leszek Kolakowski, Maurice Duverger, Robert Dahl, Giovanni Sartori e o jusfilósofo Norberto Bobbio.

As contribuições e exposições apresentadas pelos conferencistas motivaram a publicação da Coleção Pensamento Político pela Editora da UNB, que reuniu diversas obras clássicas e contemporâneas nas áreas de Filosofia Política, Relações Internacionais e Ciência Política.[1] Esse projeto editorial ainda hoje é um material relevante para os estudos acadêmicos de determinados autores, apesar de seus exemplares estarem esgotados no mercado há muitos anos, sendo encontrados exclusivamente em sebos.

A iniciativa acadêmica foi voltada para a tradução e publicação de livros e ensaios de reconhecidos filósofos políticos contemporâneos, ainda não disponíveis à época em língua portuguesa, com direitos exclusivos, no intuito de estimular a reflexão e produção universitária no âmbito da Ciência Política. Nesse contexto, foram publicados no Brasil os primeiros ensaios de autoria do filósofo inglês Michael Oakeshott, através da Coleção Pensamento Político.

O livro organizado pelo professor Preston King, intitulado O Estudo da Política, publicado no Brasil em 1980, registrou o pensamento político inglês e reuniu em série cronológica, entre 1926 e 1971, as célebres Lectures pronunciadas nas universidades britânicas, desde a criação da cátedra de Ciência Política.

As Lectures eram as palestras inaugurais dos professores titulares, e esse livro incluiu a aula inaugural do Professor Michael Oakeshott na London School of Economics and Political Science, ministrada em 6 de março de 1951, sob o título “Educação Política”.[2] No mesmo ano, Oakeshott ingressou como professor titular da cátedra de Ciência Política daquela escola, substituindo Harold Laski. Vale registrar que, somente décadas depois, em 2021, o mesmo ensaio “Educação Política” foi publicado novamente no Brasil, desta vez pela Editora Âyiné, no livro de autoria de Michael Oakeshott denominado A voz da educação liberal.[3]

Em 1981, foi publicado no Brasil o mais importante ensaio de Michael Joseph Oakeshott sobre conservadorismo político, datado de 1956, cujo título foi traduzido incomumente como “Do fato de ser conservador”, em livro organizado por Anthony de Crespigny e Jeremy Cronin, sobre ideologias políticas.[4] O mesmo texto, dessa vez intitulado “Ser Conservador”, foi publicado novamente no ano de 2016 pela Editora Âyiné no livro Conservadorismo, que reuniu apenas três importantes ensaios de Oakeshott.[5]

O primeiro ensaio sobre Oakeshott publicado no Brasil é de autoria de Kenneth Minogue, professor emérito de ciência política da London School of Economics, cujo texto “Michael Oakeshott – O oceano ilimitado da política”, de 1979, incluso na mesma Coleção Pensamento Político da UNB, ainda é um dos melhores estudos sobre a filosofia política de Michael Oakeshott publicados no Brasil. [6]

O ensaio refere-se aos principais aspectos do pensamento do filósofo britânico, bem como faz menção à repercussão da aula inaugural de Oakeshott na London School of Economics, já anteriormente anunciada com a celeuma causada diante de sua nomeação para aquela ilustre escola, fato que chegou a ser matéria da Revista Time.[7]

O professor emérito da Universidade de Albany no estado de Nova York, John G. Gunnell, também foi um dos autores publicados pela referida Coleção da UNB em 1981, onde abordou a história da teoria política e um estudo sobre a tradição com diversas referências à Michael Oakeshott e suas obras. Destaca-se nesse livro de Gunnell a sua convergência com as ideias desenvolvidas por Oakeshott no ensaio The Activity of Being a Historian, publicado no seu livro Rationalism in Politics and other essays, onde criticou a preponderância da atividade prática em detrimento da atividade histórica no estudo do passado.[8]

Outra importante referência ao pensamento de Oakeshott, publicada no Brasil em 1981, é de autoria do teórico político Bernard Crick, que tratou do conservadorismo político e do filósofo britânico no capítulo sobre “O conservador não político” em seu livro Em defesa da Política, na mesma Coleção Pensamento Político da UNB.[9]

Importa ainda registrar as diversas referências ao pensamento de Michael Oakeshott realizadas pelo intelectual público, cientista político e diplomata José Guilherme Merquior em seu prefácio do livro Estudos Políticos, de autoria de Raymond Aron, em 1980, na citada Coleção da UNB.[10]

Merquior fez uma sucinta exposição dos conceitos de societas e universitas descritos na parte III do livro On Human Conduct de Oakeshott, comparando-os com os conceitos elaborados por Bertrand de Jouvenel acerca do Estado. Outras pertinentes referências de Merquior à Oakeshott foram registradas em seus livros O Marxismo Ocidental, em 1987, e O Liberalismo Antigo e Moderno, datado de 1991. [11]

Essa pesquisa bibliográfica possibilita o mapeamento das obras de Oakeshott publicadas no Brasil desde a década de 70, e ainda possibilita a identificação de autores que utilizaram o pensamento do filósofo como referencial teórico para a sua produção.

Identificar as primeiras publicações do filósofo Michael Oakeshott no Brasil não possui finalidade meramente bibliográfica, como listagem de fontes de consulta para pesquisas, pois a reunião e catalogação dessas obras servirá de manancial de pesquisa para estudiosos de Oakeshott e contribuirá para a sistematização de sua bibliografia nacional. Esse material é essencial para a investigação e pesquisa acadêmica sobre o autor — em franco desenvolvimento no país — além de ser indispensável para a necessária popularização e compreensão das obras do teórico, que podem trazer novas perspectivas ao debate público brasileiro.

Os mencionados livros foram verdadeiros marcos editoriais nas décadas de 70 e 80, e ainda são utilizados como referências em dissertações e teses sobre o filósofo britânico nos programas de Pós-Graduação no Brasil.[12] Essas primeiras publicações de Oakeshott em língua portuguesa e no meio acadêmico ainda são de grande valia aos pesquisadores e certamente contribuíram para difundir o seu pensamento, evidenciando a recepção de Michael Oakeshott neste país.

(Texto editado e atualizado em 12 de novembro de 2024)

Referências

[1] Entrevista com os responsáveis pela Coleção Pensamento Político da Editora da UNB disponível em: https://www.facebook.com/watch/live/?ref=watch_permalink&v=1126661654578115

[2] OAKESHOTT, Michael. Educação Política. In: KING, Preston (org.). O Estudo da Política. Brasília. Coleção Pensamento Político nº 14, Editora Universidade de Brasília, 1980, p. 71/89.

[3] OAKESHOTT, Michael. A Voz da Educação Liberal. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2021, p.253.

[4] OAKESHOTT, Michael. Do fato de ser conservador. In: CRESPIGNY, Anthony de; CRONIN, Jeremy (orgs.). Ideologias políticas. Brasília. Coleção Pensamento Político nº 37, Editora Universidade de Brasília, 1981, p.17.

[5] OAKESHOTT, Michael. Conservadorismo. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2016, p.134/194.

[6] MINOGUE, Kenneth R., Michael Oakeshott – O oceano ilimitado da política, In: Filosofia Política Contemporânea, Brasília, Coleção Pensamento Político nº 8, Editora Universidade de Brasília, 1979, p.151/178.

[7] Artigo da Revista Time datado de 23 de outubro de 1950, sobre a nomeação de Michael Oakeshott, disponível em: http://content.time.com/time/subscriber/article/0,33009,813620,00.html

[8] GUNNEL, John G., Teoria Política, Brasília, Coleção Pensamento Político nº 54, Editora Universidade de Brasília, 1981, p.20.

[9] CRICK, Bernard, Conservador Não Político. In: Em Defesa da Política, Brasília. Coleção Pensamento Político nº 41, Editora Universidade de Brasília, 1981, p.75.

[10] ARON, Raymond. Estudos Políticos. Brasília. Coleção Pensamento Político nº 18, Editora Universidade de Brasília, 1981, Prefácio de Merquior, p.30.

[11] MERQUIOR, José Guilherme. O Marxismo Ocidental, 1987, São Paulo, Editora É Realizações, p. 52-53 (sobre a aproximação de Oakeshott com algumas teses de Hegel). O Liberalismo Antigo e Moderno, 1991, São Paulo, Editora É Realizações, p.87-88 (sobre liberalismo, planejamento social e racionalismo na política).

[12] MARCHIORI NETO, Daniel Lena. Os fundamentos da civilidade no pensamento conservador de Michel Oakeshott, Universidade Federal de Santa Catarina, Programa de Pós-Graduação em Direito. Florianópolis – UFSC, 2012 (tese de Doutorado). SOARES JUNIOR, Lauro Antônio Nogueira. Política e Ceticismo na Filosofia de Michael Oakeshott. Editora ‏Dialética, 1ª edição, 2022 (dissertação de Mestrado). PAIVA, Mário Jorge de. Introdução ao pensamento conservador do século XX e início do século XXI: das ideias de G.K. Chesterton até a nova direita brasileira, Pós-Graduação em Ciências Sociais da PUC-Rio, 2021 (tese de Doutorado).

Imagem: Michael Oakeshott (autor não identificado)

Sobre o autor

Abdon Menezes

Advogado atuante nas áreas de direito civil, direito do consumidor e direito imobiliário. Graduado em direito pela Universidade Católica de Salvador/BA. Pós-Graduado em Direito Tributário pela Universidade Federal da Bahia. Pesquisador do Núcleo de Filosofia Política, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.