A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

Ativismo e imaturidade

Causas são causas perdidas nos pensamentos e nos afetos do ativista. Estão lá, e somente lá viverão. Mesmo assim, ele segue seu caminho, incansável, em busca de produzir um modelo de bem-estar comum em um mundo onde ele não parece ser possível.

Ativistas tratam suas causas enquanto bandeiras, imbuindo-se como líderes morais na luta para construir um mundo mais evoluído. Tomados por um senso de justiça socioambiental e, apelando às mentes e aos corações, esforçam-se para que as pessoas descubram, livre e conscientemente, a razão de ser do que é apregoado por eles e se engajem em suas causas. Nesse sentido, seguem aquela lógica tradicional de que a realidade, por ser histórica ou racional – e, portanto, produzida pela intencionalidade humana –, pode evoluir, apesar e em razão dos percalços que criamos no caminho¹.

Tal movimento de superação é encontrado em um diverso espectro de causas. Ora é o combate à criação e abate de animais pelo sofrimento provocado a eles – argumentação dos veganos para que não se coma carne. Ora a luta contra a poluição atmosférica – alegação feita por muitos bikers ambientalistas para justificar por que as pessoas devem circular de bicicleta pelos grandes centros urbanos. Noutro momento, surge a luta pelo empoderamento feminino contra a opressão masculina – sob o pretexto de combater hábitos e valores “nocivos” dos homens. Enfim, são muitas as causas, e muitos também são os argumentos para que elas sejam bem recebidas na sociedade. Para tanto, tais argumentações sempre se apresentam como se fossem arroubos de nobreza da alma no sentido do progresso do espírito humano. Com isso, caberia à sociedade abraçar causas, pois sua razão de existir tornaria seus adeptos seres especiais.

Não se pretende aqui negar a legitimidade de reinvindicações como a necessidade de se respirar mais oxigênio, de se conservar o regime de chuvas ou de a mulher não sofrer violência; em tese, queremos viver mais e melhor. Busco oferecer um outro prisma de reflexão para essas questões. Será, mesmo, que o mundo caminha na direção de uma razão histórica suficiente para produzir meios e soluções para seus problemas? Existiria um “espírito” ou uma razão maior no mundo, sensível a essas causas e capaz de promover transformações radicais em nossos modos de vida e em nossa relação com o ambiente? Ou será que as pessoas são propensas a atender, em larga escala, às reivindicações do ativismo quando sensibilizadas ou cientes da legitimidade das causas levantadas?

Na dúvida, avancemos no entendimento dos mecanismos que constroem a lógica do comportamento ativista. Atentem para as causas citadas, porque sua análise oferece suporte ao entendimento de como opera o ativismo em geral.A proposta de transformação da sociedade origina-se de um choque inicial entre a realidade e as expectativas que dela se tem.Por exemplo, de um lado existeum mundo de hábitos e ritos alimentares milenares, em que o desenvolvimento industrial mais recente produz e espalha riqueza como nunca na história. Contudo, esse desenvolvimento traz toda sorte de problemas socioambientais. Este mesmo mundo vem acompanhado de um universo de relações sociais em que a violência contra a mulher não resume as relações entre homens e mulheres – mas ela consiste em mais um dos problemas enfrentados.

Por outro lado, o ativista repulsa esse mundo. Consequentemente, essa aversão travestir-se-á em um aceno ao mundo, que trata das razões pelas quais a mudança deve chegar, enquanto modo de enfrentamento e superação das contradições experimentadas. Com isso, essa aversão se torna um chamado contra a violência e contra o espírito de destruição, visando reunificar interesses – seguindo a lógica de que contradições geradas, por divergentes razões, podem se resolver na possibilidade do encontro de pontos de convergência entre as partes em conflito e, dessa maneira, pontes são construídas.Esses elos constituir-se-iam em unidades de sentido, outro nome para a implementação da ideia de “desenvolvimento sustentável” para o planeta ou, para as práticas de processos de harmonização das relações humanas.

É nesse ponto que se pode notar a imaturidade desse projeto. Ela acontece tal qual uma disposição imatura de um adolescente, como aquela descrita por Winnicott (1896-1971) em que:

(…) podemos considerar a disposição do adolescente para se encontrar e determinar o próprio destino como o que há de mais empolgante no mundo ao nosso redor. A ideia que o adolescente faz de uma sociedade ideal nos instiga e estimula, mas a questão central da adolescência é justamente sua imaturidade e falta de responsabilidade. Esse aspecto, o mais sagrado de toda adolescência, dura apenas alguns anos, e é uma característica que precisa ser perdida à medida em que cada indivíduo alcança a maturidade (2021, p. 192).

Aqui a irresponsabilidade do ativista aparece na forma idealizada de tentar mudar o mundo, como se fosse alguém que não possuísse recursos psíquicos-emocionais suficientes para enfrentar perigos e contradições da vida real – muitas vezes insolúveis – e consequentemente não pudesse assumir integral responsabilidade sobre si para viver em um mundo que pode oferecer condições de impossibilidade para seus sonhos. Assim, o ativista abraça um projeto de mudança antes mesmo de se sentir e se assumir como integrante dessa realidade que ele rechaça e que deseja transformar profundamente.

Dessa maneira, tal projeto vem à tona como um desencanto primordial para com o mundo e se sustenta a partir da visão de realidade do ativista em busca de consensos sociais, objetivando um retorno que agrade “aos seus olhos e sua mente”. Nesse trajeto, o ativismo nasce de um conflito interior, gestado naqueles que ainda não aprenderam – ou não querem aprender – a lidar com um mundo que não existe para atender às suas demandas e que se apresenta cheio de clivagens em suas relações. Dito de outra maneira, o que se tem é um projeto imaturo, porque a experiência demonstra que nem todos querem as mesmas coisas – ou que chegar a consensos amplos sobre controvérsias envolvidas pela ideia de bem comum não aparenta ser a tônica histórica das sociedades². Nesse universo, um bem não se evidencia como um bem para todos (ao menos não o é nas práticas sociais mais amplas). É improvável que um bem ou uma razão consensada sempre possam reger nossas relações entre si e com a natureza. Pelo contrário, vivemos é um lugar atormentado, em que a lógica, muitas vezes, é escrava dos conflitos e de uma forte dose de irracionalidade.

Imbuído por seus ideais, o ativista sonha com a prevalência de uma racionalidade que equilibre e harmonize as relações sociais, as relações homem-natureza e os ritmos da própria natureza. No entanto, como esse é um equilíbrio que nunca existiu, angustiado, o ativista busca torturar a realidade, procurando construir unidades de sentido onde elas não encontram fundamento³. Na mente do defensor de causas, ocorre um movimento de vingança, constituinte de seu projeto de mudança. Contudo, como adverte Friedrich Nietzsche (1844/1900),essa vingança interior não se pode deixar transparecer diretamente. Ela se apresenta transformada “em mascaramentos de vingança” (2009, p. 105). Surge, então, como a bandeira de luta de um militante ressentido com o mundo, travestido com um manto de razão e bondade, tomando para si a posição de guardião de uma moral salvacionista – com seu desejo de nos retirar da dura e conflitante realidade e nos realojar em lugar seguro, compartilhando seu universo imaginário. Desse modo, o importante para o ativista é viver em sonhos e estimular o despertar de consciências para as possibilidades dessa vida nova.

Essa racionalidade, de forte apelo moral, tende a negar a imperfectibilidade dos esforços civilizatórios, porque o importante nela é a fruição do espírito da mudança que regeria o caminho do equilíbrio e da perfectibilidade, aparando arestas e corrigindo os “erros”, mesmo que de forma lenta e gradual. Assim, o travestimento citado anteriormente também pode ser entendido como um duplo desejo. Um é o de pôr fim àquilo com que o espírito narcisista do ativista nunca suportou conviver, isto é, acabar com tudo que negar seu mundo de sonhos. O outro, o de retornar à segurança do seu refúgio interior, em um regresso típico daquelas pulsões tristes descritas por Sigmund Freud como sendo estados orgânicos de repulsa e rejeição ao enfrentamento de uma vida de ambivalências e contingências, uma vez que o sentido desses impulsos é o de retorno a “um estado antigo, um estado de partida que o vivente certa vez deixou e ao qual aspira retornar” (2016, p. 100). Pulsão que busca morada em um ideal de segurança e bem-estar – aquele experimentado talvez ainda na tenra infância, quando teria sido possível enxergar “um mundo azul”, e que agora se constitui como o imaginário infantil do ativista e só nele pode sobreviver.

Essa é a pulsão triste do ativista; de reconforto em seu imaginário fantasioso e impotente diante da violência da e na natureza, da ganância e do viver desejante sem limites nas sociedades modernas. Diante disso, características marcantes do movimento de causas e dos seus militantes são: o medo de um mundo que não tem salvação ou razões boas o suficiente para serem aceitas pela maioria e que estimulem sua mudança; e a crença tola de que sua vingança colherá frutos, uma vez que as sementes são plantadas em solo estéril.

De volta às causas, é comum feministas mais entusiasmadas alegarem que ser homem seja sinônimo de ser opressor, e que, por isso, os valores masculinos devem ser aniquilados para que neles nasça alguma razão de existir e se relacionar. Apregoam a igualdade de gênero como se todas as características e comportamentos masculinos estivessem eivados de más intenções contra as mulheres. Por derivação, os homens deveriam aprender a se comportar segundo os atributos do sexo oposto; bons atributos ou uma boa razão a ser acolhida para deixarem de lado antigos modos, como os de serem provedores ou protetores. Todavia, observa-se hoje a tendência de que a relação homem-mulher se torne mais conflitante à medida que essa visão seja praticada. Mais homens, sobretudo jovens, aderem a movimentos reativos e imaturos como MGTOW (sigla no inglês para homens que constroem seus próprios caminhos), de desinvestimento em compromissos longevos relativamente às mulheres. Assim como as mulheres emancipadas, que alardeiam a conquista de autonomia financeira e afetiva em relação ao sexo oposto. A violência nunca será solução para nada, mas, por outro lado, o ativismo contemporâneo de harmonização entre os sexos tem gerado somente estranhamento recíproco e narcisismo de todo lugar que se olhe para a questão. Ao tentar destruir formas de entrosamento mais sólidas, construiu novas e infantis desavenças.

É também notório o caráter salvacionista que muitos dos bikers ambientalistas imprimem ao fato de se locomoverem sem poluir o ambiente. Desejam nos salvar do trânsito surreal dos grandes centros urbanos para que transitemos em seu universo imaginário, onde acreditam que todos teriam condições financeiro-logísticas para andarem sempre em bicicletas e as cidades tornar-se-iam grandes redes de ciclovias. Contudo, ciclistas “com suas boas intenções” não constroem um mundo melhor, em nenhuma perspectiva. Apenas praticam exercício físico. E motoristas ansiosos, em seus longos trajetos pelas metrópoles, seguem surdos aos seus apelos. Poluem o meio ambiente lidando como podem com o problema da locomoção nos grandes centros. Ambiente que não apresenta perspectiva de rápidas mudanças, devido à inviabilidade econômica para a realização da inversão energética em direção ao uso de combustíveis limpos em grande escala.

Comumente, veganos se comportam como guardiões da bondade e da empatia pelos animais. Usam tais atributos como argumentos de sedução para tentar construir consensos em torno de sua causa e produzir maior aderência. Maximizam seus ideais pessoais de vida longa e saudável, distantes do consumo do tecido e do sangue animal. Mesmo que não haja estudos suficientes que comprovem que tal hábito trará os benefícios que alardeiam. Concomitantemente, negam a tendência mundial de que, apesar da comoção geral que pode ser produzida por uma imagem de animal sendo batido, o “princípio do prazer” tem prevalecido – mesmo entre muitos que enxergam uma razão de ser para o veganismo – e o consumo de carne não dá mostras de que vai diminuir. Comer carne continua sendo uma questão de gosto, milenar, para o sincero desespero desses seres disseminadores de bondade.

A civilização, como disse Freud, é uma forma de organização em que suas conquistas trouxeram consigo problemas que ela mesmo criou. São adversidades com as quais teremos que conviver, enquanto custo para não retornarmos à barbárie. Dessa maneira, ela não conseguiu trazer “bem-estar e proteção para todos nós” (2011, p. 30). É na forma de vida civilizada que o espírito errante do ativista não consegue transpor o abismo provocado por esse mal-estar gerado. A poluição atinge níveis alarmantes, mas não há sinais, por meio de ações realmente eficazes, de que as sociedades estejam empenhadas em pôr um fim a ela. Isso porque os níveis de consumo mundial de mercadorias e de recursos naturais só crescem nas últimas décadas, sustentando o crescimento econômico e a prosperidade das nações. Ao seu lado, o uso de matrizes energéticas de origem fóssil não apresenta evidências de redução drástica em um curto período – como seria necessário, segundo especialistas em clima e meio ambiente.

Desse modo, a relação entre os homens e sua relação com a natureza seguem os seus caminhos. Um espaço geográfico seguro e com sustentabilidade socioambiental, onde a natureza convive em harmonia com os interesses econômicos, não parece próximo de se tornar real. O que existe é outra realidade, que não atende aos apelos e se aparta do sono profundo da ativista. Um lugar que ora apresenta avanços significativos – como os do campo da técnica sobre a natureza durante o desenvolvimento industrial, quando existia alguma sincronia entre as estruturas no interior das sociedades –, ora imprime retrocessos e ausência de unidade de sentido, onde economia, política e cultura se apresentam em conflito, como é o caso das sociedades pós-industriais mais avançadas⁴.

Nessa disjunção, o ativismo moral e político poderia reduzir suas pautas ao que elas realmente são, isto é, limitar-se a mera questão de gosto. E, como tal, serem tratadas como questões privadas. Trazer para o plano das causas ou tentar aniquilar a irracionalidade de muitas das escolhas humanas não passam de uma tentativa, próxima ao desespero, de tentar encontrar no outro uma razão ou um bem que é fruto do meu narcisismo. Nesse sentido, toda causa traz consigo a incessante negação da ideia, ou o medo imaturo, de que muitas das contradições civilizatórias simplesmente não possuam razão capaz superá-las e que, por isso mesmo, não deixarão de existir enquanto tais: come-se carne porque se gosta e contribui para manutenção da vida, polui-se porque um dia se buscou, e ainda se busca, agilidade, conforto e bem-estar em nossa caminhada, mesmo que a raça humana pague um preço alto por isso. O homem protege e provê por hábitos milenares que trouxeram resultados satisfatórios de convívio entre os sexos, e que ele ainda não demonstra forte desejo de abandonar.

Enfim, para muito do que se faz, não existe razão suficientemente forte para mudar. A história humana não se dá por impulsos de progresso, mas caminha por becos escuros, usualmente sem saída. Diante do que aqui foi explanado, que as pessoas se tornem sabedoras de que “cruzadas” não são suficientes para pôr fim a toda a insegurança e mal-estar civilizatório. Que o ativismo – com sua moral rígida, típica de adolescentes que ainda pouco experimentaram o mundo e com a qual fazem juízos de pouco efeito prático sobre ele – pare de anuviar e atrapalhar o “tocar adiante” da vida. Vida que segue com seus perigos e, muitas vezes, de forma irracional. Mas que, ao mesmo tempo, nos permite sentir que é preciso levá-la adiante, apesar de não nos tornarmos melhores no caminho e de não sabermos, em vários momentos, o porquê da caminhada.

[1] O sociólogo Daniel Bell (1919/2011) já alertava sobre a tendência das sociedades modernas, em recorrer à “utopia”, enquanto “um ideal a ser realizado através da História (progresso, racionalidade e ciência)” – como modo de ser pensada (1978, p. 28).

[2] Traçando um paralelo com as guerras, forma emblemática de conflito, e contrariando a ideia de movimento racional da História – tese segundo a qual seria possível compreender os motivos que levariam as nações às guerras entre si e, consequentemente, por onde deveriam se encaminhar os processos de paz perene – a razão até hoje ainda não se apresentou suficientemente eficaz para pôr fim de vez aos conflitos. Isso porque as guerras possuem fortes determinações irracionais de base, e os conflitos se apresentam como a forma própria dos homens caminharem em “bandos sociais” pela Terra: desde sempre e de modo cada vez mais massificado – como notou-se com as duas guerras mundiais. Caso contrário, por que os conflitos pelo mundo já não teriam avançado na direção de seus fins?

[3] Dessa maneira, o ativista sonha em poder declinar do mundo concreto e suas privações, escolhendo viver em outro lugar, fruto de sua imaginação. Soren Kierkegaard (1813/1855) advertia que a angústia nasce exatamente aí, no momento em que o ser toma consciência de seu poder de escolha. Nesse contexto, para o teólogo dinamarquês “a angústia é a realidade da liberdade como possibilidade antes da possibilidade”, isto é, se angustiar é saber que é possível escolher, antes da escolha se efetivar (2013, p. 45).

[4] Sociedades em que, a título de exemplo, em determinados momentos apresentam o Estado estimulando o desenvolvimento econômico, em confronto com as demandas de recursos de pautas político-sociais. Em outros, são as políticas de bem-estar social que aparecem em rota de colisão com os interesses econômicos e com a própria cultura econômica. Com isso, as sociedades contemporâneas demostram o descompasso entre suas estruturas, além da ausência de um progresso histórico mais geral no seu interior.

Referências Bibliográficas

BELL, D. The Disjunction of Realms: A Statement of Themes In: The Cultural Contradictions of Capitalism. Library of Congress, 1978.

FREUD, S. Além do Princípio do Prazer.Porto Alegre: L&PM, 2021.

FREUD, S. O Mal-Estar na Civilização. São Paulo: Cia das Letras, 2011.

KIERKEGAARD, S. A. O Conceito de Angústia. Petrópolis: Vozes, 2013.

NIETZSCHE, F.W. Genealogia da Moral. São Paulo: Cia das Letras, 2009.

WINNICOTT, D.W. Tudo começa em casa. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2021.

Imagem: Daisy2375 – Own work, CC BY-SA 4.0 (wikimedia.org)

Sobre o autor

Evaristo Ragazini

Geógrafo, com mestrado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF-Niterói). Pesquisador do Grupo A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.