A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

Do self ao selfie: desamparo, identidade e validação

Bauman (2008) em seu livro “Vida para consumo, a transformação das pessoas em mercadoria”, diz que a sociedade moderna de produtores foi gradualmente se transformando em uma sociedade de consumidores. Nessa nova organização social, os indivíduos se tornam ao mesmo tempo promotores de mercadorias e as próprias mercadorias que promovem – e todos habitam o espaço social que costumamos descrever como mercado.

Esta transformação dos consumidores em mercadorias é, para o autor, a principal característica da sociedade de consumo. Nela, as pessoas precisam se submeter a um constante remodelamento para que não fiquem obsoletas, como um modelo “antigo” de iphone trocado por um modelo mais novo ou mesmo uma roupa que saiu da moda.

Bauman (2008) diz que

(…) na sociedade de consumidores, ninguém pode se tornar sujeito, sem primeiro virar mercadoria … a subjetividade do sujeito concentra-se para ela própria se tornar e permanecer uma mercadoria vendável (p. 20).

As pessoas são aliciadas, estimuladas ou forçadas a promover uma mercadoria atraente e desejável. Para tanto, fazem o máximo possível e usam os melhores recursos que têm à disposição para aumentar o valor de mercado dos produtos que estão vendendo. E os produtos que são encorajadas a colocar no mercado, promover e vender são elas mesmas (p. 13).

No caso da subjetividade na sociedade de consumo, compramos e vendemos símbolos, que são empregados na construção da identidade – expressão supostamente pública do “self”, o que na realidade é apenas uma idealização dos traços materiais (objetificados) à escolha do consumidor.

Postamos selfies nas redes sociais, procurando os melhores ângulos. Queremos parecer felizes, com amigos, nos melhores lugares e experiências. Criamos uma vida e uma imagem virtual idealizada. Colocamos filtro para retirar nossos supostos defeitos – afinamos um nariz, tiramos as olheiras, mudamos a cor do olho e ainda vamos além, transformamos nossos corpos, na vida real, com cirurgias estéticas e o que mais for preciso para se atingir um ideal.

Em entrevista recente ao New York Times (link), no lançamento de sua nova linha de rejuvenescimento da pele, a influencer Kim Kardashian nos releva que “se você me dissesse literalmente que teria que comer cocô todos os dias e pareceria mais jovem, eu poderia”. Tudo vale para se tornar mais desejável e ao gosto do freguês. Nunca estivemos tão obcecados com a nossa identidade e imagem e, nesse mercado consumidor, a moeda de troca são os likes. Quanto mais seguidores e mais likes, mais nos sentimos amados. Só temos valor a partir do olhar e validação do outro –a invisibilidade equivale à morte.

De acordo com Bauman (2001), o sujeito se vê profundamente marcado pela liquidez dos novos tempos, e nesse mundo de rápidas transformações a identidade desse indivíduo passa também a ser fluida e de difícil delimitação. As identidades são múltiplas e facetadas, diferentemente da tradição, quando a identidade era assegurada pelo grupo. Agora ela é uma questão subjetiva, que passa por escolhas pessoais – é algo em constante construção e transformação, e não mais imposto. A identidade deixa de ser algo dado com o nascimento e passa a ser. O indivíduo troca de identidade como quem troca de roupa, transitando facilmente entre a imensa gama de opções identitárias existentes. A mídia passa a ser um espaço em que diversos modelos de sujeitos são ofertados às pessoas. A identidade passa a ser o seu branding, a sua marca.

Furedi (2021), em seu livro “100 years of identity crisis”, aborda a obsessão atual com a identidade e nos fala das origens das guerras culturais. Segundo o autor, a identidade se transformou em uma marca cultural dos nossos tempos, em especial porque fornece um enquadre cultural através do qual as pessoas podem se definir como indivíduos e como integrantes da sociedade da qual fazem parte. O pertencimento a comunidades, grupos étnicos e a nações foram também redefinidos como identidade. A identidade passa a se constituir como uma forma de validação e autorrealização.

Furedi (2021) nos aponta que, no início do sec. XIX, movimentos políticos e grupos de intelectuais concluíram que um mundo de rápidas mudanças requeria um novo homem e novas formas de socialização. Esse novo homem precisaria se distanciar das tradições e valores do passado, e antigos valores deveriam ser substituídos por valores cientificamente validados.

Se inicia, então, uma verdadeira cruzada, que de forma insidiosa acaba por deslegitimar as normas culturais e enfraquecem as instituições, que aos poucos vão perdendo a sua autoridade – sendo a família uma delas. Nesta mentalidade, criar e socializar as crianças seria o ponto chave para moldar essa nova ordem social, e isso não poderia ser deixado a cabo dos pais com as suas “ultrapassadas certezas”. Sob a direção dos experts, aqueles que detêm o conhecimento científico, seria possível desenvolver personalidades saudáveis e novos valores, que fariam do mundo um lugar diferente e melhor que o de seus pais.

Segundo Furedi (2021), na maioria das sociedades, historicamente, indivíduos não precisavam de um conceito de identidade para saber quem eles eram. O autor nos alerta que remover a autoridade moral – que nos fornece orientação e sentido e, ao mesmo tempo, serve como a ligação com as gerações passadas –, sem substituí-la por um outro sistema de valores coerente é perigoso. Talvez o que resta é um eu (self) em busca de um lar.

Em matéria do New York times (link), jovens da chamada geração Z foram questionados sobre o que os difere de seus amigos e instados a descrever suas identidades – quem são? Respostas como: “Eu sou um feminista!”; “Eu sou extremamente deprimida”; “Eu sou assexuada”; “Eu nunca como carne”; “Ainda estou questionando a minha identidade”; “Eu sofro de baixa autoestima”; “Eu sou a única voz nativa no meu campus”; fazem parte desse mercado, no qual a identidade passa a ser um statement de quem eu sou eu. Ao mesmo tempo em que essa identidade deve ser fluida, e pode ser experimentada pelo indivíduo, observamos uma cristalização e proteção dessas identidades – possivelmente uma tentativa de dar algum enquadre em um mundo onde as fronteiras físicas, simbólicas e geográficas se encontram enfraquecidas e desvalorizadas.

Ainda a respeito das identidades, especificamente sobre um fenômeno intitulado “Pretendians”, no qual pessoas assumem uma identidade que não a sua, a revista The New Yorker (link) trouxe o caso da professora de história da universidade George Washington, Jessica Krug, 38 anos, que construiu a sua carreira como uma acadêmica latina e negra, quando na realidade ela é uma Judia branca do Kansas. Assim como ela, vários outros casos surgem a cada momento nos Estados Unidos, com um número significativo de pessoas brancas que assumiram uma identidade Negra, Latina ou indígena. Estamos diante de um shopping de identidades, no qual se compra a identidade que melhor lhe convêm? Aquela identidade pela qual serei validado pelos outros – o meu grande mercado consumidor.

Importante pontuar que muitas dessas identidades se relacionam com as minorias – negros, latinos, etc. Dada a atual valorização cultural associada à identidade de uma vítima, não é de surpreender que haja numerosos exemplos de pessoas brancas abraçando uma identidade negra ou nativa americana. Furedi (2004), em seu livro “Therapy Culture”, acredita que nossa cultura fornece um forte incentivo para que as pessoas se apresentem como vítimas, no intuito de evocar simpatia, compaixão e interesse.

Fica a pergunta: por que tanta necessidade de idealização, de reconhecimento e validação? Ancorados na teoria do amadurecimento de Winnicott, podemos refletir sobre essa questão. É importante ressaltar que Winnicott baseia a sua teoria em duas premissas: A existência de uma natureza humana, com a suas possibilidades e limitações; e o fato de que o indivíduo se constitui na relação com o ambiente – sendo focado na questão da possibilidade do ambiente (ambiente este a mãe ou o cuidador) acolher as demandas do bebê e facilitar gradualmente o seu amadurecimento até que ele esteja psiquicamente amadurecido, integrado num verdadeiro self e possa seguir adiante com recursos emocionais para lidar com as vicissitudes da vida.

Para Winnicott, no início da vida, o bebê necessita de um ambiente que lhe forneça segurança e estabilidade, e que o permita não se sentir invadido pela realidade externa. Nesse ponto fundamental, o bebê precisa de uma mãe que atenda às suas necessidades, permitindo que seu filho se sinta seguro e amado – ao mesmo tempo em que gradualmente essa mãe começa a frustrar o seu bebê, ao mostrar que ele não terá seus desejos atendidos de imediato, dando-lhe um limite, uma fronteira e o entendimento de que ele não é sua extensão. Esse ambiente suficientemente bom vai proporcionar que a criança gradualmente caminhe rumo a sua independência e adquira o status de indivíduo com uma personalidade integrada. (Winnicott, 1969)

Esse processo precisa ser respeitado, e se o bebê não tem, durante o tempo adequado, a sustentação ambiental necessária para a integração do self, podem se desencadear processos patológicos, pois o bebê necessita aprender precocemente a se defender da realidade externa.

O verdadeiro self seria, portanto, uma subjetividade constituída em tempo e ambiente satisfatórios, que permitiram ao bebê condições de seguir no seu processo de amadurecimento, dando vazão às manifestações criativas do eu. Um eu saudável, constituído no cuidado e no reconhecimento, tem condições de estar no mundo, independente das condições e dificuldades próprias ao contexto social.

Por outro lado, quando uma subjetividade é invadida pelo ambiente, ainda sem ter os recursos para lidar com a realidade externa, podemos verificar a constituição de um self reativo, que precisa constantemente se defender desse ambiente, que é sentido como ameaça. As defesas frequentes e seguidas para se proteger das invasões da realidade externa culminam na constituição de um falso self. Este é o sujeito que se encontra submetido e excessivamente adaptado ao ambiente, destituído de espontaneidade, e que desde cedo busca os acolhimentos e os reconhecimentos que lhe faltaram em um estágio de vida primitivo.

Sobre a integração, Winnicott (1990) nos fala:

Digamos que a adaptação ativa seja quase perfeita […] O movimento do próprio indivíduo descobre o ambiente. Isto, repetido se transforma num padrão de relacionamento. Num caso menos feliz, o padrão de relacionamento se baseia no movimento do ambiente. Isto merece o nome de intrusão que é imprevisível por não ter relação alguma com o processo vital do próprio indivíduo (pp. 148-149).

Ao observarmos a sociedade atual – juntamente a todos esses fenômenos, tais como a obsessão com identidade, vitimização, criação de imagens idealizadas nas redes sociais, nas preocupações excessivas com a saúde e beleza, nos inúmeros cancelamentos e necessidade de validação constante nas redes sociais, além de uma obediência quase que cega às exigências e demandas do mundo externo –, podemos constatar que estamos diante de uma sociedade imatura, na qual houve uma falha nesse ambiente e uma impossibilidade de integração do eu.

Jovens e adultos fragilizados, que não conseguiram alcançar a integração e a constituição de um verdadeiro-self, habitam a sociedade de mercado. Com inúmeras pesquisas e estudos apontando para uma deterioração da saúde mental, com aumentos dos níveis de depressão, desordens de ansiedade, diagnósticos psiquiátricos e incremento do uso de medicação, podemos entender que esses fenômenos do contemporâneo, além de representar uma falha no ambiente, são uma tentativa empobrecida de lidar com o desamparo e resgatar a continuidade da existência perdida junto com a experiência da unidade do self.

São adultos infantis que não conseguem usufruir da vida como ela se apresenta. Na busca implacável pela felicidade e bem-estar permanentes, são incapazes de lidar com a angústia da existência e buscam incessantemente se adaptar às demandas do ambiente, procurando no olhar do outro uma validação e aquilo que lhes faltou.

Referências Bibliográficas

BAUMAN, Z. (2008) Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar,

BAUMAN, Z. (2001) Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar.

FUREDI, Frank. (2021) 100 years of identity crisis. Berlin and Boston: De Gruyter. 

FUREDI, Frank. (2004) Therapy Culture: Cultivating vulnerability in an uncertain age. London and New York: Routledger. 

WINNICOTT, D. W. (1990) A Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago.

WINNICOTT, D. W. (1950) A Família e o Desenvolvimento Individual. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 4 ed., cap. 18, pp. 227-247. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

WINNICOTT, D. W. (1969) A Mãe Dedicada Comum. In: O Bebê e Suas Mães. Tradução de Breno Longhi. Cap. 1, pp. 11-19. Digital edition: Ubu editora, 2020.

Imagem: divulgação Kim Kardashian

Sobre o autor

Paula Lobo

Psicóloga pela PUC-RJ. Mestre em administração pelo IBMEC-RJ. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo /PUC-SP – LABÔ.