
Uma das áreas mais afetadas pelas guerras culturais foi a produção audiovisual, especialmente aquela com sede nos Estados Unidos. Mas não somente. O aspecto lacrimogênio e piegas vai se espalhando pelo mundo e dominando muitos gêneros. Filmes-denúncia, biografias, suspenses e dramas. Atores, atrizes e grande parte do estafe da produção são bastante acompanhados no que fazem nos bastidores e em suas supostas vidas privadas – que mais se parecem públicas, inclusive com o assentimento de todos.
A vida fora das telas ganhou uma dimensão estratosférica, e isso repercute nas possibilidades de se participar de novos projetos. Atores dedicam-se a interpretação que mais se parece com uma imitação. Continuam a ser muito inflacionados a partir de suas opiniões, que variam da política à filosofia. Divulgam a si próprios na maior parte do tempo e são perseguidos por uma multidão de seguidores. Além disso, como estamos em uma época em que celebridades vivas já têm a sua história contada nos cinemas, podemos comparar a cópia com a matriz e o resultado é terrível. Hoje, atores são capazes de imitar portas ou máquinas de lavar roupas, dedicando-se aos detalhes e cacoetes daqueles que pretendem imitar.
A interpretação raramente é percebida, a não ser quando a obra é baseada num clássico. Mesmo assim, pode ser que se busque inspiração em quem anteriormente deu vida àquele personagem. Gente como Elvis Presley ou Elton John têm os seus trejeitos ensaiados à exaustão, e a técnica de incorporação do personagem mais se aproxima de espetáculos circenses baseados em treinos e superação. Não se interpreta, se imita. Algo muito próximo então dos imitadores dos programas de humor espalhados pela TV.
E quanto aos temas, o que temos? O arquétipo da jornada do herói contamina quase tudo, do protagonista que é um segurança de um shopping ao pai distante ou à mulher que não engrenou na carreira. Temos aí o risco nem sequer assumido de que assuntos dignos de nota se transformem em chavões pelo modo repetitivo com que são tratados. Filmes e séries têm se esforçado em parecer descartáveis, mesmo que chamem a atenção da audiência que deseja somente espairecer: o cinema hoje é o que fazemos antes de uma pizza ou hambúrguer.
Seth Stephens-Davidowitz, em seu Todo mundo mente: o que a internet e os dados dizem sobre quem realmente somos (Rio de Janeiro: Alta Books, 2018), aponta que:
Uma equipe de cientistas liderada por Andy Reagan, hoje na Berkeley School of Information da Universidade da Califórnia, baixou textos contidos em milhares de livros e roteiros de filmes. Eles então codificaram o grau de felicidade ou tristeza de cada ponto da história (…) Os cientistas de computação descobriram que um grande percentual das histórias se encaixa em seis estruturas relativamente simples. Usando o gráfico da equipe de Reagan, temos: da pobreza para a riqueza (ascensão); riqueza para pobreza (queda); homem em uma enrascada (queda, depois ascensão); Ícaro (ascensão, depois queda); Cinderela (ascensão, depois queda, depois ascensão); Édipo (queda, depois ascensão, depois queda). pp. 88-90..
Acredito que as narrativas dos filmes tenham se tornado uma referência para outras costuras que buscam oferecer significado e sentido no contemporâneo. Nesses casos, é comum que os lacradores de plantão almejem obter espaço com comentários que passam pela sensibilidade da produção em questão. Muito raramente, alguém se arriscaria a contradizer um tipo de história que transita pelo tema da justiça social ou afins. No entanto, dada a simplicidade das histórias, nos dias de hoje, as tramas políticas são mediadas por esse tipo de orientação. É assim então que nos deparamos com leituras muito próximas daquelas que modelam os filmes de super-heróis, ou que envolvem os bastidores da política em algum lugar do mundo.
Em relação à produção audiovisual que se faz nos Estados Unidos, uma última questão também se impõe: os roteiros elaborados reagem e funcionam tão somente para o público daquele país. O tema da linguagem entra aqui, ou seja, a produção norte-americana embala a recepção com toda sorte de dispositivos estimulantes, seja por meio do som ou da sequência de imagens. Observamos então uma articulação entre som, imagem e roteiro, tudo pronto para fazer chorar ou rir o público a que se destina. Muito da sensação de obviedade ganha corpo aí, além do fato de que as histórias são contadas de modo a prender a atenção do observador mais padronizado. As paranoias, medos, angústias e emoções são elaboradas para caber no habitante dos Estados Unidos, e quem não é ocupa somente o lugar de coadjuvante. Mantenha o foco nesses estímulos e perceba o quão distante essa história vai lhe parecer.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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