Behavior

A autoimagem do leitor que comenta as notícias

Viciados em comportamento têm um vasto campo de possibilidades no contato com os comentários que os leitores fazem abaixo de uma matéria, informação ou coluna de um jornal na internet. Aprendemos por meio da pesquisa historiográfica que as fontes seriadas são um importante trunfo para a aproximação e interpretação de um contexto histórico. E com os comentários aqui mencionados não poderia ser diferente.

O que os leitores pensam ou que expectativas têm quando comentam uma coluna que acabou de ser publicada? Acredito que hipervalorizem as suas opiniões e se exibam para os outros que acessam o mesmo conteúdo. Difícil supor que esperem que os autores das colunas ou matérias leiam tudo aquilo. Eles talvez nem tivessem tempo para fazer outras coisas.

Na era dos jornais impressos, a página do leitor, ainda que despertasse pouca atenção, nascia póstuma, uma vez que poderia interessar aos pesquisadores aficionados pela recepção. Hoje, quem sabe, essa mesma investida possa ser realizada. Os historiadores topariam então com a agressividade das falas e dos juízos emitidos, coisa que repercute em quem perigosamente se acostumou com os elogios e comentários respeitosos. Percebemos, assim, colunistas que parecem se mover em direção às respostas, conquanto não realizadas de modo direto. Ou outros que embarcam no engajamento seguindo a máxima de que “falem mal, mas falem de mim”.

Repercuto aqui o que me parece mais tenso, que é o fato de que textos elaborados por quem conhece o tema tratado, ou que expressam a sua opinião, são debatidos como se esses leitores fossem grandes conhecedores jamais reconhecidos. Observo isso mais exatamente quando o colunista em questão exibe domínio específico sobre o tema de que está tratando. Especialmente quando se apoia em publicações recentes, inclusive em outras línguas que não o português ou o inglês.

Quem o leitor que comenta pensa que é? Que falta ele julga que faria se por acaso sequer comentasse? Penso nisso quando percebo o tipo de leitor oportunista, aquele que é capaz de produzir algum tipo de opinião sobre o comentário de um texto em sânscrito. Imagino, então, que o que se busca é um outro tipo de comunicação, uma que dê oportunidade para que ele seja notado ali naquele espaço. Um simples imperativo daria conta de tudo isso: falar sobre o que se entende ou então propor perguntas que não sejam sarcásticas ou irônicas. Até mesmo porque quem está propondo a discussão é o titular da coluna e, sendo assim, somente alguém em condição de paridade poderia estabelecer um diálogo com ele.

Mas, evidentemente, não é de diálogo que falamos, e sim de impropérios, agressões e palavrões grafados de modo que o algoritmo do jornal não os perceba. Nessa tipologia, nos deparamos também com leitores/comentadores que questionam a editoria por conta de seus comentários não aparecerem. Difícil pensar em uma atitude mais arrogante e desprovida de realidade. Não há limite para o dimensionamento da importância que as pessoas dão para o que pensam e que tentam digitar nesse espaço tão oportuno.

Outra situação é aquela em que o leitor fala com o colunista como se ele fosse seu brother, usando inclusive expressões de nicho. O que ele aspira com essa iniciativa? Ou, então, um outro que se manifesta com o autor na terceira pessoa, como se falasse para ele próprio e para os outros que zanzam ali pelos comentários.

Suspeito que o que vagamente dê suporte para essas investidas seja a aceitação tácita de que todos nós invariavelmente temos algo de importante para dizer e que os outros devem ouvir, ou seja, um tipo de visão mal compreendida da democracia que equaliza a todos, não somente na situação em que haja a necessidade de expressar-se eleitoralmente, mas também em relação a Beethoven, hermenêutica ou fenomenologia.

Para todos esses casos, se fosse de fato assim, nem necessitaríamos de educação formal, bastando para tanto a habilidade de fazer a pergunta correta no google. É claro que esse recurso tem passos largos quando pensamos no campo em que as opiniões podem grassar, como nas humanidades. Pensemos isso no caso da medicina, meu exemplo de plantão quando quero deixar o assunto mais sério. Não que isso não ocorra quando o articulista é um médico e fala sobre algum tema que seja de amplitude nacional. Toda oportunidade para aparecer é usada.

Mas, dito tudo isso, por que eu me detive num tema que julgo tão desimportante? Pelo fato de que ele é revelador de um tipo de comportamento nas redes sociais que somente faz sentido quando pensado em práticas de engajamento e em relação ao desejo de aparecer e ganhar espaço midiático. Chegamos muito perto, assim, de um quase Big Brother intelectual, um modo aliás de concretizar a solitária e desprestigiada área do conhecimento.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.