Resumo: Este artigo tem como função principal relacionar as práticas educativas sobre o holocausto baseadas em cartas de vítimas. Ele nasce de uma experiência vivida com alunos do 9º ano do ensino fundamental da escola Primeiros Passos, situada no interior da Paraíba, em que os alunos são inseridos como protagonistas, sem desvincular das problemáticas e discussões. Para principiar esse tema, utilizamos cartas de uma exposição do Yad Vashem, “Nos Volveremos a ver”. Esse relato de experiência visa demonstrar um modelo de prática docente e contribuir para formações futuras. Dessa forma, levantamos aqui a necessidade de a educação precisar refletir de alguma maneira diretamente na vida do aluno, sendo esse um dos seus principais sentidos.
Palavras chave: Práticas educativas. Cartas de vítimas. Educação.
Este artigo nasce de uma análise pessoal como professor de História da Escola Primeiros Passos, da cidade de Barra de Santa Rosa, no interior da Paraíba. Na efervescência de uma primeira experiência como professor, presenciei turmas com diversos questionamentos e essa oportunidade me mostrou que trabalhar com adolescentes é uma possibilidade de tornar-se parte de possíveis soluções em determinados assuntos.
Dessa forma, Paulo Freire escreve, em seu livro “A Pedagogia do Oprimido”, que as práticas educacionais precisam levar o aluno a almejar a liberdade e a partir deste pensamento, o educador precisam se dispor a criar competências para instigá-los. Neste artigo, que também é um relato de experiência, irei expor os modos como tornar o aluno protagonista de suas problemáticas – mas também de suas discussões –, que favorece o aprendizado e cria, na sala de aula, um ambiente de discussão, resoluções de problemas e diálogos.
Tratar esses assuntos em sala é, antes de tudo, uma luta contra determinados estereótipos. Além disso, sendo a educação um estágio para a liberdade, é também ela objeto de permanente aperfeiçoamento, uma linha tênue entre a fundamentação – ou seja, aquele trabalho mais teórico para expor as questões – e a prática – sendo esse o momento em que o aluno se torna protagonista de seus próprios questionamentos. Sendo assim, o dever educacional não é apenas relativo a avaliações, mas ao social, à cidadania e, sobretudo, à liberdade.
A inversão da sala de aula é um mecanismo de fazer o aluno ver na pesquisa, no estudo e no levantamento de problemáticas uma forma de entendimento dos seus próprios questionamentos. No momento em que me preparava para trabalhar sobre o Nazismo com meus educandos, notei falta da abordagem em relação ao outro lado, faltava uma abordagem maior sobre as vítimas do Holocausto Nazista. Dessa forma, resolvi trabalhar a Shoah com cartas de vítimas, e assim poder contribuir para que o educando possa vivenciar os sentimentos através de relatos escritos tantos anos atrás.
Um dos primeiros passos para essa prática educativa é o momento do planejamento da aula. Devemos pensar como determinado assunto contribuirá para a vida social do aluno, em que isso vai agregar no crescimento pessoal do estudante. Ainda é importante citar uma dificuldade muito atual da Educação, que é o fato de o estudante já chegar à escola com uma percepção de algumas situações “bem-organizadas” na sua cabeça – o que não significa dizer que ele formou essas convicções a partir de um estudo sequenciado e planejado por estudiosos de determinados assuntos. Muitas das vezes, esse pensamento é formado com o auxílio do processo tecnológico, mas também, em especial com a influência do momento político do Brasil, informações distorcidas e até falsas chegam diretamente a toda a população, que nem sempre se dedica a procurar a veracidade dos fatos.
Esse é um importante ponto para que o educador tenha ciência de que, chegando em sala de aula, irá se deparar com alguns questionamentos criados pelos mecanismos citados no parágrafo anterior. O papel do educador, dessa forma, é transformar a curiosidade do estudante em uma curiosidade crítica, que o leve a encontrar respostas corretas e críticas. A esse respeito, Freire diz que:
Precisamente porque a promoção da ingenuidade para a criticidade não se dá automaticamente, uma das tarefas precípuas da prática educativo-progressista é exatamente o desenvolvimento da curiosidade crítica, insatisfeita, indócil. Curiosidade com que podemos nos defender de “irracionalismos” decorrentes do ou produzidos por certo excesso de “racionalidade” de nosso tempo altamente tecnologizado. (FREIRE, 1996).
Obviamente que, com essa declaração, não se deseja que a tecnologia seja considerada uma inimiga., Pelo contrário, ela precisa ser vista como um mecanismo para tirar as falsas informações inclusas nela mesma. É olhar os meios tecnológicos como formas de criar uma consciência, mas de qual forma? Seguindo quais meios e em quem acreditar?
É seguindo essa linha de raciocínio que nosso tema nasce, usar uma plataforma digital – que será trabalhada posteriormente – como mecanismo de estudo com cartas de vítimas do holocausto. Um primeiro pensamento quando estava na fase do planejamento foi: de que forma o educador pode contribuir para o senso crítico do aluno, se ele chega na sala de aula, para trabalhar determinado assunto, sem entender os problemas anteriores. Sem trabalhar com os estudantes os resultados desse problema, o assunto não foi estudado, apenas repassado, e esse não deve ser o fim de um processo educacional. Ou seja, é impossível tratar sobre o regime nazista, sem entender a Shoah.
Entretanto, para que essa educação de libertação aconteça, é necessário conduzir os educandos de uma maneira diferente, a partir sobretudo do diálogo e debates, para que sejam eles humanizados. Ou seja, a partir da instigação do professor em determinada problemática, ele conseguiu trabalhar a consciência crítica do educando em um caminho para uma grande mudança social. E não existe forma mais didática de entender um regime totalitarista do que entender a partir da História vista de baixo, isto é, trabalhando com as vítimas daquele regime.
Claro que as cartas não revelarão todos os fatos do holocausto, na verdade, nenhuma fonte irá tratar de um tema em sua totalidade. Entretanto, as cartas me abrem possibilidades de práticas metodológicas. Nas palavras de Alana Leite e Karl Schurster:
As cartas, como toda fonte, não possuem a capacidade de revelar a totalidade, mas revelam dimensões que parecem ocultas quando tratamos a Shoah como nota de rodapé da Segunda Guerra Mundial. (LEITE, Alana; SCHURSTER, Karl. 2022).
Uma minuciosa pesquisa foi então realizada, na tentativa de encontrar fontes que pudessem fornecer materiais para essa proposta pedagógica. Nesta, encontro o site do Yad Vashem, museu dedicado a relatar e preservar a história e a memória de vítimas do holocausto, inclusive suas cartas. Na verdade, o Yad Vashem reúne diversas práticas educacionais para tratar desse assunto em sala de aula, e em todos os níveis, seja ele fundamental, médio ou superior.
Figura 1: Capa da exposição de cartas no YadVashem (fonte: YadVashem)
Ainda na pesquisa, conheço uma exposição do museu nomeada “Nos volveremos a ver”,que tinha o objetivo de tornar públicas cartas póstumas escritas por vítimas entre 1941 e 1942. Essas cartas, por sua vez, foram escritas de diversas localidades e em distintos idiomas.
Dessa forma, com as cartas em mãos, deveria decidir a forma como trabalhá-las em sala de aula, pois não bastaria apenas uma leitura. Por isso, resolvi tratar as cartas e seus aspectos históricos, isto é, algumas perguntas deveriam ser respondidas à medida que o assunto fosse tratado.
Para explicar a metodologia, usarei como exemplo o relato de Ida Goldiş, escrito em outubro de 1941, por Ida Goldiş, no qual descreve sua deportação do gueto de Kishinev para a Transnístria. Nesse traslado estavam com ela seu filho Vili – de apenas 3 anos – e a sua irmã mais nova, chamada Doba. Na carta, escrita para sua outra irmã, Clara, Ida relata como estava sendo doloroso todo o processo pelo qual estava passando – inclusive, em determinados momentos, ela faz o pedido de que não exponha o seu sofrimento para outros familiares.
Ontem lhe enviei uma carta que, se você a receber, lhe causará dor. Escrevo-lhe agora graças à boa vontade deste senhor, e peço-lhe que não conte a verdade à mamãe, porque é horrível. E não quero que este assunto afete sua saúde já deteriorada. (YADVASHEM, 2022).
Aqui já pudemos começar a nossa problemática de assuntos e assim trabalhamos a dor da separação de seus entes queridos, além do medo que pairava sobre aquela população perseguida pelo regime nazista. Mais adiante, pudemos identificar diversos fatores geográficos diante da carta. Ida explica que já estavam cientes de que seriam deportados nos próximos dias e chega a manifestar sua preocupação por seus bens – ela relata que será uma longa viagem e tem uma criança para levar consigo, além de alimentos.
Querida irmã, há alguns dias um perigo horrível paira sobre nós. Estamos prestes a ser deportados, a pé, para a Ucrânia (‘para se estabelecer lá’… é o que dizem). Você pode imaginar a nossa situação, tendo que fazer uma viagem dessas a pé, os dias são tão frios. Com uma criança pequena e com as coisas que podemos carregar, ou seja, apenas comida para a estrada. (YAD VASHEM, 2022.)
Adiante, Ida cita que a população que estava no Gueto foi dividida em quatro grupos e esses grupos iam sendo deportados em dias distintos. Ela manifesta, ainda, sua esperança de que um representante de seu grupo consiga adiar a deportação. Entretanto, pede a sua irmã Clara – a destinatária – que, caso fosse respondê-la, não o fizesse por outra pessoa, a não ser um senhor que cita na carta.
Esse último aspecto mencionado é algo a se discutir. Mesmo em meio a um regime totalitarista, pessoas se dispunham a fazer o percurso de comunicação entre as vítimas e suas famílias – esse senhor em questão tratava-se de um padeiro não-judeu, que por coincidência trabalhava com sua irmã Doba.
Após o trecho examinado, a carta chega ao seu momento mais duro, a despedida. Ida começa a despedir-se, ou seja, isso deixa claro que, indiretamente, ela já sabia onde aquele caminho a levaria. Ida faz alguns pedidos, recomendações e recorda momentos vividos na infância – características do povo Judeu também podem ser abordadas, a subjetividade de determinada população é um excelente mecanismo para o seu entendimento. Dias depois de escrever a carta, Ida faz uma alteração, avisa que mais uma vez a deportação foi adiada e que tem uma leve esperança de um resgate.
Agora não espero mais nada, Deus não quer que nos reencontremos; Parece que pequei muito. Adeus, minha querida irmã; Que você viva feliz e crie seus queridos filhos com felicidade e saúde. Milhares de beijos em seus olhos doces. (YAD VASHEM, 2022)
É interessante pensar que, aparentemente, as vítimas – ao menos a partir dessa carta – não pensavam na questão do totalitarismo. Podemos ver que muitos, mesmo entendendo ser uma injustiça, atribuem algumas coisas a fatores religiosos, ou seja, à ideia do pecado e à esperança de que uma força maior os governa.
O resgate não aconteceu, a deportação foi iniciada e, no início de 1942, Vili morre congelado. Ida, não suportando a dor, bebe água contaminada e morre dias depois. Sua irmã Doba sobrevive.
Muitos fatores podem ser abordados ao se trabalhar uma carta: 1) O gueto de Kishinev, suas peculiaridades e a população que vivia nele; 2) Como aconteciam as deportações, os traslados, ou seja, como iam e, se possível ainda, por onde iam as vítimas; 3) Relações entre a Romênia e a Alemanha nazista; 4) Chegada a Transnístria e o campo de concentração; 5) o sentimental da carta.
Com isso, visamos criar no educando o gosto tanto pela pesquisa quanto pela noção da sala de aula invertida, e assim instigar no aluno o desejo de continuar pesquisando sobre determinados assuntos. Nesse caso, a pesquisa a partir de cartas de vítimas do holocausto pôde contribuir na formação acadêmica e também social.
Figura 2: Alunos assistindo vídeos das cartas (fonte: arquivo pessoal)
Na sala de aula, o clima de observação e atenção foi total. Informações novas trabalhadas com metodologias ativas fazem com que os educandos tomem gosto e se interessem pelo assunto. O site do YadVashem disponibiliza informações sobre a chegada das cartas e como foi o processo de doação pelas famílias.
Após o vídeo introdutório e uma breve explicação sobre o que eles poderiam encontrar, veio o momento de contato com as cartas. Logo de início, foi possível identificar a emoção dos educandos ao lerem as memórias das vítimas e assim poder apreender os processos históricos.
Um comentário logo após a leitura das cartas, vindo de alguns dos alunos: “Deve ter sido muito difícil para as famílias entregarem as cartas” – sim, esse é o momento em que o professor vibra internamente. Esse aspecto se tornou o primeiro tema que trabalhamos, o sentimento envolvido na carta e discutimos como o apego a esses objetos nos trazem lembranças fortes – quando tratamos dessas cartas, estamos falando do último contato entre os familiares.
Figura 3: Leitura das cartas (fonte: arquivo pessoal)
As cartas puderam fazer com que os alunos desenvolvessem a vontade de buscar as informações a partir da vivência descrita em cada correspondência. Por esse motivo, terminadas a leitura e a discussão tratada no parágrafo anterior, fomos fazer uma busca sobre a localização das cartas.
Fizemos uma análise desde o gueto de Kishinev até a chegada na Transnístria, além de seus campos de concentração. Enquanto fazíamos essas pesquisas, entendíamos o que acontecia nas batalhas da Segunda Guerra Mundial. Por fim, tratamos das idas e vindas da Romênia no contexto mundial, e quais motivos são apontados por seus pesquisadores.
Ao concluir o assunto das cartas e de todo o contexto da Segunda Guerra Mundial, debatemos os direitos humanos. Como as populações a serem protegidas e as formas como esses pensamentos progressistas de direitos chegam até os dias de hoje, como uma forma de problematizar esse fato histórico.
Pelo exposto, o estudo do Holocausto a partir da análise de cartas é uma ferramenta metodológica a ser utilizada em sala de aula, tendo em vista que, além de possuírem um aspecto histórico, permitem o estudo do assunto a partir da visão da vítima daquela época. Assim, conseguimos analisar que uma carta pode abrir um leque de informações e pesquisas, e contribuir diretamente na formação de jovens adolescentes no ápice de seus entusiasmos estudantis.
Referências
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 1974. FREIRE, Paulo.
LEITE, Alana de Moraes; SCHURSTER, Karl. “CARTAS PÓSTUMAS DO HOLOCAUSTO”: UMA PROPOSTA DE ENSINO. Revista Mosaico – Revista de História, Goiânia, v. 15, n. 1, p. 7-25, set. 2022. ISSN 1983-7801. Disponível em: http://seer.pucgoias.edu.br/index.php/mosaico/article/view/8397 Acesso em: 28 set. 2022.
doi: http://dx.doi.org/10.18224/mos.v15i1.8397.
YAD VASHEM. Editor: Zwi Bacharach. “Nos Volveremos a ver”: cartas póstumas del Holocausto: 1941 – 1942. Disponível em: https://www.yadvashem.org/yv/es/exhibitions/last-letters/index.asp Acesso em: 04 jun 2022.




