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Tudo na guerra é muito simples, mas a coisa mais simples é difícil

Os marechais e os generais localizados mais perto dos campos de batalha, que, como Napoleão, não participavam da batalha em si, mas apenas ocasionalmente chegavam à linha de fogo, davam suas próprias instruções e ordens de onde atirar, de qual lugar e para onde atirar, de qual lugar e para onde a cavalaria deveria cavalgar e a infantaria correr, sem consultar Napoleão. Mas mesmo as suas instruções eram executadas raramente e em tão pequena escala quanto as de Napoleão. Na maior parte das vezes, a ação era contrária às ordens dadas. Soldados que recebiam ordem para avançar fugiam ao ser surpreendidos pelas balas de canhão; soldados que tinham recebido ordens de permanecer em seus lugares, ao ver os russos aparecerem de repente à frente, às vezes debandavam e em outras os atacavam, e a cavalaria, sem ter recebido ordens, lançava-se em perseguição aos russos em debandada… Tão logo esses homens abandonavam o espaço no qual zumbiam balas de canhão e projéteis, seus comandantes, na retaguarda, os formavam, restabeleciam a disciplina e, sob o fogo, na qual (sob o efeito do medo e da morte) mais uma vez esqueciam a disciplina e corriam sem rumo, dependendo do estado de ânimo do grupo. Tolstói, Guerra e Paz, citado por John Lewis Gaddis. As grandes estratégias: de Sun Tzu a Franklin Roosevelt, como os grandes líderes mudaram o mundo. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019, p. 182.

A passagem acima retrata uma das facetas da Batalha de Borodino (1812), que terminou com a fuga do exército russo e que esteve longe de representar uma vitória da Grand Armée comandada por Napoleão Bonaparte. Leon Tolstói (1928-1910) falava com conhecimento de causa, uma vez que tinha participado da Guerra da Criméia, conflito ocorrido entre 1853 e 1856. Em Borodino, os números foram expressivos: mais de 250 mil soldados participaram da batalha que teve pouco mais de 70 mil mortos.

Retomei esse trecho aqui, mais exatamente por ele ter me chamado atenção quando da leitura do livro de John Gaddis sobre estratégias e seus protagonistas. E, num capítulo em especial, o historiador elaborou uma reflexão que estabelecia uma aproximação interpretativa entre Tolstói e Carl von Clausewitz (1780-1831), este sim participante da Batalha de Borodino e admirador das estratégias de Napoleão Bonaparte, apesar de estarem em polos opostos. É de Clausewitz o título da presente coluna.

A abordagem do escritor russo nos encanta, por contemplar nuanças diversas e que estão em jogo no momento do conflito. A narrativa nos permite elaborar uma imagem dos acontecimentos, o que franqueia o nosso acesso aos interesses difusos, ao pavor e tormento das personagens, que estão muito distantes de uma atuação coreografada como podemos suspeitar que tenha sido. É possível perceber a presença da tragédia, de longe, a melhor metáfora para o que acontece numa batalha.

Quantos são os esforços e as intenções de projeção de cálculos presumivelmente factíveis e concretos? O que se pressente acerca do fator humano, do comportamento e das atitudes de cada um em relação às ordens que são recebidas e quanto ao que restará para ser colocado em prática? No testemunho de Tolstói, intuímos um movimento caótico, mas sincopado  – o que deve ter sido percebido pelo compositor russo Piotr Tchaikovski (1840-1893) quando da criação da Abertura Solene para o ano de 1812, obra que também obteve inspiração na Batalha de Borodino.

A descrição do autor dos eventos ligados à guerra oferece à nossa percepção uma característica demasiada humana: nossas fraquezas. O relato de Tolstói nos aproxima do sofrimento e de nossas atitudes, quando tudo o que julgamos conhecido desaparece. A beleza que o texto nos oferece se distancia, evidentemente, do que vem a ser um conflito dessa natureza na realidade. Mesmo assim, sua leitura nos faz sentir que estejamos próximos do que se evidencia no momento da eclosão de uma batalha.

Clausewitz termina por compor uma imagem não muito diferente daquela disposta pelo autor russo, ainda que possamos nos deparar com a perspectiva de aprendizado futuro. Como um soldado principiante se sairia no campo de batalha é a pergunta feita por Clausewitz:

À medida que nos aproximamos, o estrondo de armas aumenta e se alterna com o zumbido das balas de canhão que começam a atrair a sua atenção. Tiros começam a espocar à volta. Subimos às pressas a ladeira onde o comandante geral encontra-se estacionado com sua numerosa tropa. Aqui as balas de canhão e as bombas são frequentes, e a vida começa a parecer mais séria do que imaginou o jovem. De repente, um conhecido seu é ferido; depois uma bomba explode em meio à tropa. Você percebe que alguns dos oficiais agem de modo um tanto estranho; você mesmo não está tão calmo e controlado quanto antes. Mesmo os mais corajosos podem ficar um tanto perturbados. Agora entramos na tempestuosa batalha diante de nós, ainda quase um espetáculo, e nos juntamos ao comandante da divisão mais próxima. (…) O ar está cheio de projéteis sibilantes que soam como estampidos ao passar perto das cabeças. E para que sofra o choque definitivo, a visão de homens sendo mortos e mutilados comove nosso coração acelerado de assombro e piedade. O novato não pode atravessar essas etapas de intensidade crescente sem sentir que ali as ideias são regidas por outros fatores, que a luz da razão é refratada de um modo bem diferente do que ocorre em geral na especulação acadêmica. Clausewitz, Da Guerra, citado por John Lewis Gaddis. op. cit., pp. 180-181.

Ambas as referências poderiam nos estimular a conhecer mais o tema das guerras, por se tratar de uma situação que a maioria de nós somente consegue intuir a partir de abstrações – o que está longe do que pretenderam ambos os autores aqui citados. A leitura da obra do historiador John Gaddis seria um bom e recomendável começo, em especial depois que nos déssemos conta da necessidade de uma investigação detida sobre o que mais completamente desconhecemos.

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.