
Tradicionalistas e iconoclastas movem-se, em realidade, na mesma órbita de ideias. Estes, não menos do que aqueles, mostram-se fiéis preservadores do legado colonial, e as diferenças que os separam entre si são unicamente de forma e superfície. A própria revolução pernambucana de 1817, pode-se dizer que, embora tingida de “ideias francesas”, foi, em grande parte, uma reedição da luta secular do natural da terra contra o adventício, do senhor de engenho contra o mascate. Vitoriosa, é pouco provável que suscitasse alguma transformação verdadeiramente substancial em nossa estrutura político-econômica. Sabemos bem que, entre os condutores do movimento, muitos pertenciam de fato à chamada nobreza da terra, e nada indica que estivessem intimamente preparados para aceitar todas as consequências de seu gesto, despindo-se das antigas prerrogativas. Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 1936.
Mestres exímios da simulação, acostumamo-nos a repetir nos mínimos detalhes o que julgamos ser a melhor forma de nos apresentarmos publicamente. E isso em vários requisitos, que passam pela roupa a ser escolhida, pelas cores dos cabelos – que podem se manter brancos para transparecer desprendimento e ausência de vaidade –, pelos sapatos e, especialmente, pelos óculos. Sobre esse último adereço, pode-se fazer uma diferenciação pormenorizada. Olhares mais atentos podem mapear os óculos daqueles que frequentam vernissagens, intelectuais, artistas, arquitetos, enfim, até as pessoas que usem óculos sem prescrição médica, posto não precisarem usá-los mesmo. E esses aparatos todos dividem e mantêm sob distância quem não é da sua patota, o que em geral significa ser de outra classe social. A exclusividade no nosso país é mantida sob o resguardo do olhar e aprende-se logo a ver de soslaio.
Numa cultura desse tipo – ansiosa por ser notada por quem vem de fora – a política é apenas um ponto de falsa inflexão. Importamos nomenclaturas, sem saber ao certo por que o fazemos, que são estranhas para nós que nos descobrimos nascidos no Brasil. Vejamos o caso das diferenças entre esquerda e direita. Creio que não precisamos voltar para a época da Revolução Francesa para discernirmos quem ficava de um lado ou outro na assembleia. E nem provavelmente para o socialismo dito utópico, para o marxismo ou leninismo. Um ensino médio razoável já deve ter disposto essa diferenciação.
Como parecemos condenados a viver no presente – o nosso país escolheu o lado dos vivos, recordando aqui a definição de Edmund Burke sobre o que vem a ser uma comunidade –, esquerda e direita, hoje, podem ser definida por Barbies, ser vegano ou comer hambúrguer, ter ou não filhos, possuir um cachorro ou ser um tutor, adotar um pet ou comprá-lo, ser ateu, evangélico ou umbandista, gostar de Roger Waters ou de Taylor Swift, emocionar-se com uma animação da Pixar cujo tema é identitário, deixar-se embalar pela última campanha publicitária de marcas de cosméticos identificadas com gênero ou raça, delirar com um filme de super-heroína.
Note-se que não falamos de política nos moldes clássicos. Não é o que se faz por aqui. Esse tipo de condução constrangeria o nativo do Brasil a ter caráter e a manter as suas escolhas como se elas fossem rigorosamente coerentes. Tal comportamento não nos é possível. Primeiro, porque as modas mudam. Segundo, porque perderíamos na luta pela sobrevivência, que é o mais fundamental entre nós. Assim, combinamos a nossa escolha de voto com nossos óculos, como dito acima, mas nunca levamos a ferro e fogo essa orientação. Faríamos inimigos assim, então nem pensar. Aprende-se por aqui que o inimigo de hoje é a pessoa que amanhã pode lhe facultar algum auxílio. A rarefação de ofertas nos leva a passar vexames, isto é, já nem ligamos mais para isso, uma vez que somente vivemos o presente.
Esses fatores podem explicar os motivos que nos levam a nos afastar de quem não importa e demonstrar coragem para falar com essas pessoas, mesmo que você se cale providencialmente quando está diante daqueles cujos nomes devem ser guardados e que devem ser cumprimentados. Não se leva em consideração o lado em que as pessoas se encontrem, se identificadas ou não com o progressismo ou o reacionarismo, uma vez que essas expressões também pouco significam aqui.
Sabemos que petistas – ao menos que pareciam ser quando defendiam um lado, pois pegava bem – dão likes no Instagram para bolsonaristas e golpistas – como assim se falava – se esses contam mais no momento. Dizem que até gente que usa pronome neutro faz isso. Safar-se no Brasil não tem nada a ver com escolher um lado. O lado escolhido é sempre aquele que é o mais conveniente.
Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), historiador das permanências e da longa duração, soube bem sinalizar e compreender o que pressagia a nós, brasileiros. Confirmamos em Raízes do Brasil que somos capazes de bradar pela moda do momento – seja desigualdade econômica, identidade de gênero ou raça ou o que vier pela frente –, mantendo rigorosamente as mesmas parafernálias de sempre. Fosse o contrário e não nos reconheceríamos, uma vez que vivemos para confirmar a regra. Uma última orientação visada aqui: as profissões mais distantes do labor braçal – artes, pensamento, educação – são aquelas que mais se destacam na arte da simulação.
Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447
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