
“Tragédia é a beleza das verdades intoleráveis”¹, disse certa vez, a educadora norte-americana Edith Hamilton. Temo que tal citação nos dias atuais seja capaz de fazer alguns cidadãos torcerem o nariz. Como pode, na mesma frase, a palavra tragédia e também beleza?
Pois bem, a essência da tragédia não é o triunfo do mal sobre o bem, mas sim, o sofrimento da escolha de um bem com outro bem. A tragédia nasceu, quando os gregos, há muitos anos, sabiamente perceberam que há algo de “errado” no mundo, e que esse mesmo mundo deve ser considerado, ao mesmo tempo, “belo”. A compreensão de que nem tudo é possível, independentemente do esforço, e que também não há certezas, portanto nada pode ser tomado como definitivo, atormenta nossa mente e nos faz querer afastar tais ideias, uma vez que estamos inseridos em uma sociedade incessantemente festiva e forçadamente positiva.
Como um gênero reconhecível, a tragédia era representada na Grécia antiga por figuras mascaradas, em uma mistura de animais e deuses, que celebravam os ciclos da natureza em festivais. Ela nasceu do coro que cantava a vida e a morte de Dionísio, simbolizando o lado não racional do espírito humano. Dionísio era o deus da emoção, do êxtase, dos sonhos, das fantasias e por último, do caos. Não significa desgraça e mais do que isso, significa mistério. Representa o mais terrível aspecto do destino, abarcando a própria força da vida pela alegria, celebração, violência e desvario, sendo assim, inimigo da razão.
Em nosso tempo, os humanistas que têm sua fé baseada na ciência e, através dela, sonham em conhecer a Verdade, almejam com isso um tempo em que todas as pessoas terão a chance de uma vida feliz. Mirando na alegria vazia e excluindo o trágico, podemos acertar a pior das circunstâncias: a ausência de sentido. Com a tragédia, a vida é quebrada, mas ela persiste. Ao falhar a vontade, a máscara da tragédia cai ao chão e o sentido se esvai. O que permanece é apenas o sofrimento sem aprendizado. Somos sábios por nos apegarmos a um arremedo de tragédia: a verdade apenas nos cegaria.
Avanço por volta de 2500 anos e, sem me distanciar tanto dos gregos, chego a Nelson Rodrigues que não afirma, mas nos dá uma pista: “Talvez a fonte grega esteja jorrando mesmo na mais carioca das minhas peças”. Nelson percorreu caminhos nos teatros e em seus romances utilizando sempre um autêntico estilo trágico, massivamente criticado em toda a sua carreira. Eis os pontos: seus personagens demasiadamente grotescos, representavam a pequena burguesia com o seu prosaico linguajar, muito diferente do que os críticos esperavam de uma tragédia clássica, com uma linguagem “elevada”.
Além das obras serem consideradas sensacionalistas, mórbidas, varridas de parricidas, canalhas de ambos os sexos, empobrecidas dramaticamente, Nelson incluía o cômico, popularmente considerado inferior, como elemento estético que alternava com o trágico, causando uma tensão antagônica entre o riso e o espanto e ressaltando a ideia de infelicidade e inconstância dos personagens. O cômico e a comédia andam em descompasso assim como o sentido trágico em relação à tragédia. Essa deformidade é o meio utilizado pelo dramaturgo para elaborar seu ponto de vista a respeito do humano, e ainda que descambe no mau gosto, a intenção do autor era aproximar os espectadores e leitores de si mesmos. Dentro ainda do cômico, Nelson adiciona o riso, que é possível através de uma escapulida do grotesco e que, mesmo sendo engraçado, não consegue propositalmente desanuviar a tensão na obra.
Além destes, lança mão de vários outros elementos considerados restritos a específicos gêneros na época que enriqueceram a sua obra, sendo reconhecido não apenas como uma tragédia brasileira, ou uma tragédia anônima do cotidiano, mas também uma tragédia moderna. O mau gosto é utilizado como técnica e ferramenta na obra rodrigueana para representar a sordidez. Já a fatalidade e inevitabilidade estão presentes e representam, quase sempre, a luta inglória do homem com o seu destino que lhe é superior, as personagens parecem agir sem consciência do que as leva ao fim, não passam por um momento em que reconhecem os próprios erros e que também são portadoras de males. O coro, representado nas obras pelas viúvas, bisbilhoteiros, prostitutas, vizinhas e torcidas de futebol, enunciam a opinião pública e a consciência viva dos que estão fora da história, muitas vezes proféticos e com presságios tristes. Elementos estéticos como a máscara representam o desvelamento de alguma verdade soterrada na experiência cotidiana, bem como o chapéu e o leque, respectivamente, a tradição e costumes e, o segundo, usado como instrumento de defesa como pelas tias virgens em relação ao desejo e ao pecado que vêm de fora, uma alternância do que pode ou não pode ser visto. Tem forte presença também o cristianismo, que lança uma estética providencial, na qual aparecem o sentimentalismo e a redenção de seus personagens, bem como uma pretensa crise dos valores religiosos e sua derrocada. Outro fator interessante é o herói que, em sua obra, não é um homem superior; na realidade é frágil e superficial, sucumbindo diante de qualquer força que venha contra ele e confronte seu poder patriarcal e absoluto no seio familiar.
Nós, humanos, somos tomados por uma força e um hábito de buscar padrões e encaixes para tudo o que nos confronta… seria uma forma de retirar a estranheza, buscar uma familiaridade para assim expurgarmos a dúvida e o mistério, que tanto nos angustia. Não foi diferente a reação da crítica com as obras de Nelson Rodrigues, uma vez que ele não fazia uso do gênero clássico trágico, como encontrado em Ésquilo, Sófocles e Eurípedes². As tragédias rodrigueanas ao contrário das tragédias clássicas, em que os conflitos se dão entre personagens e deuses, partem de um conflito interno advindo de uma pulsão e atingem o cume ao questionar e abalar padrões sociais de convivência no âmbito familiar, desdobrando em violência e quem sabe, crimes. A estética na escrita rodrigueana busca afirmar, utilizando e misturando diversos elementos das tragédias. Tais gêneros não são mais puros no mundo moderno, mas têm a capacidade de criar a vida e não a imitar, uma vez que, através de seus personagens, a subjetividade é inserida.
Nelson Rodrigues pode não ter sido um trágico incondicional, pois não promete fidelidade e nem assume como imprescindível o uso restrito das corretas ferramentas, mas, do contrário, vai tecendo com as várias categorias genéricas, uma colcha de retalhos ou melhor, uma brincadeira com os gêneros literários. Assim, é possível, após anos, traçar um caminho que vai da incompreensão ao tardio reconhecimento pela crítica, a fim de estabelecer um destino para a sua imagem de, no mínimo, intrigante e autêntico. O que temos hoje com a sua obra é a possibilidade de entender que ele conseguiu resumir toda uma cultura nacional, ultrapassando nomenclaturas e valores estabelecidos da tal família tradicional. O resultado disso para os leitores e espectadores que não se preocupam com rótulos é se deixar percorrer de maneira quase intuitiva pelas peças, atravessando os crimes cometidos pelas personagens e, finalmente, chegando à uma purificação. Assim ouso dizer que além de uma variação da tragédia, tem-se com Nelson também uma variação da clássica noção de catarse. Uma vez que não são somente as personagens que se purificam ao final da obra, mas sim também a plateia e os leitores.
A comédia e o cômico, o drama e o melodrama, a tragédia e o trágico, o herói e o final feliz. Aqui nada está em seu lugar, tudo está sob o caráter movente de como Nelson Rodrigues dava importância ao pensamento trágico. Sem essa penosa possibilidade de entender a vida como um caos, nossa ordem civilizada se tornaria estéril e confinada em si mesma. A tragédia é a compreensão de que a vida humana é perturbada por mistérios, e que precisamos dar ao irracional o seu devido lugar. As massas e, especialmente, a mídia insatisfeitas com realidades tão difíceis, exigem uma solução moral clara para questões que muitas vezes não existem. A ordem não pode ser garantida, e o trágico está em todo lugar, bem como era dito e vivido por Nelson: “Acho perfeitamente lícito chegar-se à tragédia através de um copo d’água”³. Ai do teatro, dos livros, das escolas, das conversas e das relações se perderem de vista a sabedoria do trágico. Considerar a vida regular, previsível e benigna, também seria uma espécie de loucura.
Referências
¹ HAMILTON, Edith. The Greek Way, W. W. Norton and Company: United States, 2017.
² Sófocles (496 – 406 a.C), Ésquilo (524 – 456 a.C) e Eurípedes (480 – 406 a.C) são os dramaturgos gregos de maior destaque no gênero Trágico Clássico.
³ MEDEIROS, Elen de. Formulações do Trágico no Teatro de Nelson Rodrigues. Belo Horizonte: UFMG, 2022.
Imagem: Tarcísio Meira e Ney Latorraca no filme O Beijo no Asfalto (1980), de Bruno Barreto
