
Revelando os segredos sombrios por detrás de imagens de normalidade e felicidade, Nelson Rodrigues nos conduz por um percurso obscuro e provocador em sua terceira peça teatral, Álbum de Família.
Imaginemos uma foto de família, na qual todos sorriem para a câmera, congelados em um momento de aparente felicidade, guiados pelo fotógrafo. É esse retrato que Nelson Rodrigues toma como ponto de partida, arrancando-nos da ilusão da perfeição e nos jogando bruscamente em um mundo onde os dramas humanos são expostos sem piedade.
Ruy Castro nos conta que Rodrigues defendia essa obra como sendo bíblica (CASTRO, 2010, p. 197). Um termo que, à primeira vista, pode soar estranho quando se fala de um enredo que desenterra os tabus mais profundos das relações familiares. Talvez seja isso mesmo que o torna tão visceral e atemporal.
Como muitas das obras de Nelson Rodrigues, essa peça escrita no final de 1945 enfrentou a censura e a interdição no início de 1946, mesmo com a publicação do livro. Um reflexo da sociedade conservadora da época, que preferia manter escondida as verdades desconfortáveis que Rodrigues ousava trazer à luz. Dentre as obras do autor, Álbum de Família foi a que permaneceu proibida por mais tempo, tendo sido liberada para encenação em dezembro 1965 e apresentada nos palcos somente a partir de 1967 (CASTRO, 2010, p.196).
Ao mergulhar nas entrelinhas desse drama teatral, nos deparamos com uma questão tão antiga quanto intrigante: o incesto. Um tema invisível e que, para muitos de nós, permaneceu relegado aos cantos mais escondidos da história, sem nunca ser discutido abertamente. Foi por intermédio do Grupo de Pesquisa Nelson Rodrigues que o assunto ganhou vida em minhas reflexões. Ao rever as histórias bíblicas, surgiu diante de meus olhos uma série de enigmas morais que desafiam as concepções contemporâneas de ética e moralidade.
O Antigo Testamento não hesita em apresentar relatos de incesto, desde os primórdios da criação até os dramas familiares mais intrincados. Segundo a Gênesis do Antigo Testamento, Deus criou Adão e Eva (seriam eles irmãos?), que teriam tido muitos filhos que se casaram entre si. Outro relato significativo é o de Lot e suas filhas, também encontrado no livro de Gênesis. Após a destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, Lot e suas filhas fogem para uma caverna, onde elas conspiram para embriagar o pai e ter relações sexuais com ele na esperança de garantir descendência. (ABRIL, 2012). Por que não buscaram outras civilizações antes de tomar esta atitude?
Os textos bíblicos trazem diversos outros relatos (ABRIL, 2012). Abraão e Sara eram meio-irmãos, filhos do mesmo pai, mas de mães diferentes, e conceberam Isaque (Gênesis 20:12). Jacó e suas esposas eram primos. Nahor, irmão de Abraão, se casou com Milca, filha de seu irmão Harã (Gênesis 11:29). Anrão e Joquebede, da tribo de Levi, se casaram e tiveram três filhos, Moisés, Arão e Míriam. Segundo Êxodo 6:20, Joquebede era irmã do pai de Anrão. Amnon era filho de Davi, rei de Israel, e Tamar era sua meia-irmã, filha de outro relacionamento de Davi. Amnon desenvolveu uma paixão doentia por Tamar e acabou estuprando-a (2 Samuel 13).
“No desenvolvimento posterior do sistema de classes matrimoniais se revela um esforço de ultrapassar a prevenção do incesto natural e grupal e proibir casamentos entre parentes grupais mais distantes, de maneira semelhante ao que fez a Igreja Católica quando estendeu a proibição de casamento entre irmãos, vigente desde sempre, aos casamentos entre primos, somando a isso a invenção dos graus espirituais de parentesco” (Lang in Freud, 2013, p. 29).
É como se a própria Bíblia nos desafiasse a encarar as complexidades da condição humana. No fim das contas, essas narrativas bíblicas sinalizam que a essência do ser humano não mudou e que devemos enfrentar as verdades desconfortáveis sobre nós humanos e nossas relações familiares, assim como Nelson Rodrigues nos instiga a fazer.
Neste percurso obscuro que Nelson Rodrigues nos coloca, Freud parece ser a nossa lanterna. Ele nos ilumina para ajudar a desvendar os segredos mais profundos da condição humana. Em sua obra Totem e Tabu, Freud argumenta que a proibição ao incesto é uma das leis fundamentais do totemismo. Essa proibição, segundo Freud, não é apenas uma convenção social, mas sim um fenômeno profundamente enraizado na psique humana, moldado por forças instintivas e repressivas.
Freud sugere que o tabu do incesto desempenha um papel crucial na estruturação da sociedade e na formação da identidade individual e grupal. Ele postula que a proibição do incesto é necessária para garantir a coesão e a estabilidade das comunidades humanas. Ao reprimir os impulsos incestuosos, as sociedades estabelecem fronteiras claras entre o eu e o outro, promovendo a diferenciação e a organização social (PIMENTEL, p.18)
Em uma conferência, Freud salienta que a primeira inclinação de desejo de um ser humano frequentemente é incestuosa; por exemplo, nos homens, é voltada para a mãe e a irmã. Assim, é necessário que a sociedade estabeleça proibições firmes para conter essa tendência infantil persistente. O autor observa que mesmo em culturas primitivas, as proibições contra o incesto são estritas, e que a mitologia e a história antiga oferecem exemplos em que o incesto é permitido aos deuses e até mesmo santificado em certos contextos reais, como nos casamentos entre irmãos entre faraós egípcios e incas do Peru. Esses casos representam privilégios proibidos ao homem comum, destacando a complexidade e as nuances das interações humanas ao longo da história. (PIMENTEL, pp.9-10)
“As mais antigas e mais importantes proibições do tabu são as duas leis fundamentais do totemismo: não matar o animal totêmico e evitar relações com os membros do sexo oposto pertencentes ao mesmo totem”. (FREUD, 2013, p.51)
No contexto de Álbum de Família, podemos examinar como as dinâmicas familiares e os desejos reprimidos se relacionam com as teorias de Freud sobre o tabu do incesto.
- O patriarca se chama Jonas. Um pedófilo que desvirgina meninas em sua própria casa e assassinou o suposto amante de sua mulher. Ele nutre desejos incestuosos em relação à sua única filha, Glória.
- Glória possui desejo e admiração profundos pelo pai e possui uma rivalidade correspondida com a mãe. No internato ela manteve um relacionamento homossexual com uma colega de dormitório.
- Dona Senhorinha é a matriarca da família, também consumida por desejos proibidos em relação ao seu filho, Nonô.
- Nonô cede aos impulsos incestuosos e enlouquece no dia seguinte, abandonando a convivência familiar para viver como um animal nos arredores da fazenda.
- Edmundo é filho também apaixonado por sua mãe e incapaz de estabelecer relacionamentos saudáveis com outras mulheres.
- Guilherme é o filho que desenvolve um amor doentio por sua irmã, Glória. Consumido pela culpa e pela angústia, ele amputa seu órgão sexual e mata a irmã.
De acordo com Freud, o complexo de Édipo envolve sentimentos de desejo sexual pelo progenitor do sexo oposto e rivalidade com o progenitor do mesmo sexo. Para Freud as emoções e desejos que são perturbadores podem ser reprimidos no inconsciente para proteger o ego. No entanto, esses conteúdos reprimidos podem ressurgir de maneiras distorcidas, causando sintomas como ansiedade, comportamento compulsivo, depressão e dificuldades nos relacionamentos interpessoais, assim como podemos ver no amor obsessivo de Edmundo por sua mãe. (KOWALSKI, P.8)
A loucura de Nonô após ceder aos desejos incestuosos com sua mãe pode ser vista como uma forma de reação ao trauma psicológico. A teoria freudiana do trauma pressupõe que experiências traumáticas, especialmente aquelas relacionadas à sexualidade e à família, podem ter efeitos duradouros na psique.
A culpa e a angústia extremas de Guilherme, que o levam a cometer atos violentos contra sua irmã Glória, podem ser vistos como manifestações do conflito entre o superego e o id. O superego, representando os padrões morais internalizados, entra em conflito com impulsos primitivos e instintivos do id, levando a uma intensa angústia psicológica e comportamento impulsivo.
Essas interpretações são apenas algumas maneiras de entender os sintomas dos personagens de Álbum de Família à luz da teoria psicanalítica de Freud. Cada personagem e situação específica podem ser analisados mais detalhadamente, levando em consideração a complexidade das interações psicológicas retratadas na obra de Rodrigues.
“A consciência moral é a percepção interior do repúdio a determinadas moções de desejo existentes em nós; a ênfase, porém, está no fato de esse repúdio não precisar recorrer a mais nada, de ele estar seguro [gewiß] de si mesmo. Isso se torna ainda mais claro na consciência de culpa, a percepção da condenação interior daqueles atos pelos quais consumamos determinadas moções de desejo. Uma fundamentação parece supérflua aqui; todo aquele que tem uma consciência moral tem de perceber em si a legitimidade da condenação, a censura do ato consumado. Mas o comportamento dos selvagens em relação ao tabu mostra essa mesma característica; o tabu é um mandamento da consciência moral, e sua violação faz surgir um terrível sentimento de culpa, que é tão evidente quanto é desconhecida a sua origem”. (FREUD, 2013, p.81 e 82).
No contexto contemporâneo, a importância da liberdade de expressão em obras como Álbum de Família permanece fundamental. A liberdade de expressão é um direito humano fundamental que permite a livre troca de ideias, o debate aberto e a expressão artística sem censura ou restrição. Ao permitir que artistas e escritores abordem temas controversos e desafiadores, a sociedade tem a oportunidade de refletir criticamente, promovendo uma ampliação cultural.
Nelson Rodrigues usa a metáfora fotográfica para desfazer a fachada de perfeição e nos confrontar com a verdade dolorosa da condição humana. Esta fachada encontra paralelo hoje nas mídias sociais.
Em um mundo em que as mídias sociais dominam nossa interação digital, somos confrontados diariamente com imagens distorcidas de perfeição e indulgência. Fotos cuidadosamente selecionadas e filtradas, exibem a ilusão de uma suposta vida quase sempre longe da realidade. É um mundo onde a vaidade, a obsessão por bens materiais e o culto ao dinheiro são celebrados. Onde o conteúdo é muitas vezes criado não para inspirar, mas para provocar inveja e comparação. Comentários raivosos e conteúdo sexualizado inundam nossos feeds, enquanto imagens de pratos gourmet e momentos de lazer exagerado alimentam uma cultura de excessos. Não é mera coincidência que acabei elencar exemplos atuais dos sete pecados capitais: soberba, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça.
A busca pela perfeição se tornou uma obsessão coletiva, e “Álbum de Família”, de Nelson Rodrigues, surge como um lembrete necessário. Não queiramos ser o fotógrafo de nossas vidas, aquele que arruma cenários falsos, posições artificiais e expressões de perfeição para cada clique. A vida não é um ensaio fotográfico em estúdio, onde tudo pode ser controlado e editado. Pelo contrário, a vida é um conjunto de momentos espontâneos, muitas vezes desordenados, descontrolados e imprevisíveis, que devem ser vividos conscientemente, pois é nessa autenticidade que reside a verdadeira essência da nossa existência.
Bibliografia
ABRIL. As 10 histórias mais polêmicas da Bíblia. Super Interessante, 12 abr. 2012. Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/as-10-historias-mais-polemicas-da-biblia. Acesso em: 15 abr. 2025.
CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico. 2010. Companhia das Letras.
FREUD, Sigmund. Totem e tabu: algumas correspondências entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos; tradução do alemão de Renato Zwick; revisão técnica e prefácio de Paulo Endo; ensaio biobibliográfico de Paulo Endo e Edson Sousa. Porto Alegre, RS: L&PM, 2013. (Coleção L&PM POCKET; v. 1113).
PIMENTEL, Luiz Henrique. O complexo de édipo nas obras de Freud (p.18). Edizione del Kindle.
NEPE BRASIL. Êxodo 6:20 – Interlinear Hebraico-Português. Disponível em: https://search.nepebrasil.org/interlinear/?livro=2&chapter=6&verse=20. Acesso em: 15 abr. 2025.
KOWALSKI, Jean. Id, Ego e Superego: Desvendando os Componentes da Psique (p.8). Edizione del Kindle.
Imagem: “Álbum de Família” (Nelson Rodrigues) em montagem do Grupo Galpão, 1991 (foto Guto Muniz/divulgação)
