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O feitiço do tempo

One of his favourite stories on time concerned the Russian poet Samuel Marshak when he was on a visit to London before 1914. Marshak’s English was not too good and when he asked a man in the street, “Please, what is time?” he received the response, “But that’s a philosophical question. Why ask me?”. Frank James, “Gerald James Whitrow, 1912-2000”. Astronomy & Geophysics, april, 2001, Vol 42.

O tempo é intrigante especialmente quando pensamos nele como um conceito que nem sempre existiu, que às vezes sequer foi percebido ou notado ou que até não contava com uma expressão através da linguagem. Esses são aspectos que nos chamam a atenção mais particularmente quando tomamos contato com a espessura histórica. E isso pode nos surpreender, especialmente aqueles de nós que veem com naturalidade as histórias de coisas que temos a certeza de que não existiam e que, num dado momento, foram inventadas, como por exemplo: aviões, carros, celulares ou espaçonaves.

A introdução ao aparato histórico – o objeto de estudos, as fontes, testemunhos e a imaginação – deve nos introduzir na condição de impermanência, de volatilidade e contingência que engloba tudo o que possui historicidade. Ou seja, o que venha a possuir um contexto demarcado pelo o tempo e pelo espaço padece de uma inevitável historicidade. Retomar essas imbricações pode nos oferecer perspectivas enriquecedoras.

Tomando o tempo como um objeto de estudo da história, acompanhamos um desfile de associações inevitavelmente distintas daquelas que hoje parecem reinar de uma maneira absolutista. O “não foi sempre assim”, além de nos dispor à riqueza das incongruências, lutas pela verdade e dúvidas, também oferece a nós, o convite para que nos descentralizemos e caminhemos para a percepção do quão relativas são as nossas frágeis crenças. Isso somente já é um grande ponto a se chegar, não para muitos, evidentemente.

Esses são os aspectos que nos mobilizam na leitura de um livro para lá de empolgante. Trata-se de O tempo na história: concepções do tempo da pré-história aos nossos dias (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993) de Gerald James Whitrow (1912-2000). Whitrow se destacou na pesquisa sobre o tempo a partir de abordagens matemáticas, cosmológicas, biológicas, históricas e psicológicas. Sua produção foi bastante reputada e presidiu a Sociedade para o Estudo do Tempo, entidade na qual ele foi um dos fundadores.

Pode-se dizer que O tempo na história é uma obra de divulgação de um tema áspero que foi transformado em admiravelmente palatável. Isso sem deixar de lado as referências e menções a uma expressiva bibliografia que corresponde aos matizes temáticos mencionados acima. Para se ter uma ideia geral da obra, levemos em consideração que ela está apresentada em três partes. Na primeira, introdutória, temos a busca de uma definição do tempo assim como uma reflexão sobre a consciência que temos (ou não) sobre o tempo. Na segunda parte, manifesta-se o tempo na história propriamente dito. Da pré-história até o século XV, passamos por concepções distintas de tempo, de medição, da expectativa em relação ao futuro (ou não). E acompanhamos essa exposição tendo como cenário a pré-história, o antigo Egito, Irã, Grécia e Roma antigas, Israel, a Idade Média, Índia, China e a antiga civilização dos Maias.

A arbitrariedade na definição de dias, meses e anos, o nosso sentido interno de tempo, o sentimento de duração, o agora para as crianças, os povos sem vocabulário específico que venha a expressar o tempo ou povos cujos verbos não possuem indicação de tempo. Esses são alguns dos temas que nos envolvem numa narrativa muito atraente.

E se tivesse que escolher um único aspecto para colocar em relevo, eu escolheria a reflexão que se fez sobre o progresso. Qual é a história dessa ligação entre tempo e progresso? Para muitos, embebidos pela euforia provocada pela tecnologia, o progresso é uma fé que se manifesta enquanto certeza. Para outros, os produtos das ciências duras trazem uma configuração de preocupação e de tensão em relação ao que o futuro nos aguarda. De uma forma ou de outra, o que nos interessa aqui é perceber essa instabilidade do conceito de progresso. Duas passagens retiradas do presente livro são elucidadoras dessa tensão.

Segundo Whitrow,

“Após o século V a. C., poucos escritores, exceto no campo das ciências, deram mostras de qualquer crença na ideia de progresso no futuro. Na verdade, o grego típico tendia a ter os olhos voltados para o passado, uma vez que o futuro lhe parecia ser o domínio da total incerteza, para o qual seu único guia era a enganosa expectativa”. (p. 61)

Mas essa posição de restrição em relação à ansiedade em relação ao que ainda não aconteceu não era um privilégio somente dos gregos. De acordo com o reitor da catedral de Saint Paul, Willian Ralph Inge, em uma palestra proferida em Oxford, em 1920, “O europeu fala de progresso porque, com a ajuda de algumas descobertas científicas, implantou uma sociedade que confundiu conforto com civilização”. (p. 199)

Quem atiraria a primeira pedra?

Veja a LABÔ Lecture com Fernando Amed:
https://offlattes.com/archives/12447

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Sobre o autor

Fernando Amed

Doutor em História Social pela USP. Historiador pela FFLCH da USP, professor da Faculdade de Comunicação da Faap e do curso de Artes Visuais da Belas Artes de São Paulo, autor de livros e artigos acadêmicos. Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Comportamento Político do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.