Anastasis
Observa-se ao longo da Sagrada Escritura o lugar de destaque que ocupa o tema da libertação de Israel das mãos dos egípcios, para a liberdade oferecida por Deus na Terra Prometida. Essa temática será constantemente abordada, seja no Pentateuco ou nos livros proféticos que convidam o povo à fidelidade a aliança realizada com Deus. Ao mesmo tempo, no Novo Testamento, o tema continua a ser desenvolvido, agora, na perspectiva de Cristo Jesus, que liberta e salva do pecado. O presente artigo versará sobre a centralidade da Páscoa na espiritualidade judaica e cristã, bem como sua expressão na iconografia cristã, que tem como referência a descida dentre os mortos como protótipo para a escrita do ressuscitado.
1. Páscoa judaica: Libertação da Casa da escravidão
Antes mesmo da experiência de um Deus criador, o povo de Israel fez a experiência de um Deus libertador:
“Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8a).
Temos aqui um acontecimento fundante para a fé de Israel, pois sua experiência é com um Deus sensível às suas súplicas, que ouve o seu clamor e principalmente, que vem em ao seu encontro para libertá-lo. Na perspectiva de Eicher:
Como bem salvífico, que o Deus livre realiza na história, Israel já fez a experiência da liberdade e com isso estruturou antecipadamente o conceito de liberdade do NT. A libertação da escravidão do Egito tornou-se fundamento da esperança que pôde reiteradamente ser atualizada e determinou ainda as esperanças da apocalíptica e a teologia messiânica dos zelotas. Mas também em traços particulares o AT aponta para a compreensão de liberdade no NT: assim na consciência da contraditoriedade interna do homem decaído e, por fim, com a promessa de que Deus fará nova aliança e escreverá a sua lei nos corações dos homens (Jr 31, 31ss) (EICHER, 1993, p. 446).
Esse ato fundante será lido, relido e celebrado pelos israelitas todos os anos com a festa da Páscoa (cf. Ex 12,14), a festa da libertação da mão do prepotente e inauguração de um tempo novo para o povo marcado pela escravidão. Deus abre diante deles novos horizontes e os elege como seu povo (cf. Ex 3,10). A partir desse momento eles são livres para viverem na liberdade oferecida por Deus.
Desde o início da sua história, a saída do Egito, Israel faz a experiência do Senhor como libertador e salvador: tal é o testemunho da Bíblia, que descreve como Israel foi arrancado da dominação egípcia no momento da passagem pelo mar (cf. Ex 14, 21-31). A passagem milagrosa do mar se torna um dos temas principais do louvor a Deus. A saída do Egito, juntamente com a entrada na Terra Prometida (cf. Ex 15, 17), torna-se a afirmação principal da confissão de fé (PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, 2002, p. 83).
A experiência de Israel com o Deus libertador lhe deu substrato para posteriormente desenvolver outros temas caros ao judaísmo, tal como a eleição (cf. Ex 7,7), a aliança (cf. Ex 2,14), a Lei (cf. Ex 19,7) e o culto (cf. Ex 12). Segundo Cothenet: “Para os judeus, a libertação do Egito e a aliança do Sinai consagraram para sempre sua liberdade. Todos os anos, na Páscoa, celebravam seu memorial” (COTHENET, 1985, p. 76). O evento da libertação é uma memória para Israel. Não uma mera recordação, mas uma presentificação daquele acontecimento. Nas palavras de Rupnik:
A memória nos ensina que Deus não é um deus qualquer, mas é um Deus que se manifesta como Pai. A nossa memória nos confirma que temos experiência de Deus como Pai e, portanto, é a memória da nossa identidade de filhos. Por isso a experiência do nosso nascimento, enquanto filhos, se torna o fundamento da confiança, da fé e da entrega a Deus” (RUPNIK, 2022, p. 72).
Travessia do Mar Vermelho, fachada norte da Basílica de Aparecida – Brasil
Ao longo dos séculos as passagens referentes à libertação foram escritas em ícones, fazendo na maioria das vezes alusão ao sacramento do Batismo. Como na iconografia uma imagem chama a outra, a travessia do mar vermelho, pondo fim a escravidão do Egito, é sinal do homem velho afogado nas águas do batismo. De acordo com Ratzinger: “cada um dos eventos, então, é subordinado aos sacramentos cristãos e ao próprio Cristo. A arca de Noé, assim como a passagem do mar Vermelho se tornam uma evocação ao batismo” (RATZINGER, 2013, p. 100). Assim se retrata a Páscoa judaica em sintonia com a Páscoa cristã.
2. Páscoa Cristã: Libertação do pecado e da morte
O Novo Testamento reconheceu uma nova libertação em Jesus Cristo, agora não mais da casa da escravidão do Egito, mas da escravidão do pecado e da morte. A morte e ressurreição de Jesus são a chave para essa libertação. A morte vicária de Cristo (1 Cor 15,3) em nosso lugar nos libertou das amarras do erro, da morte e do pecado. Assegurou-nos a vida eterna e nos fez participantes da sua vida divina. “O termo salvador é atribuído de modo especial a Jesus ressuscitado, porque, com a ressurreição, ‘Deus o exaltou por seu poder tornando-o Chefe e Salvador, para propiciar a Israel a conversão e o perdão dos seus pecados” (PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, 2002, p. 90).
É Deus quem liberta o seu povo por meio de Moisés, e é este mesmo Deus quem liberta novamente o seu povo por meio de Jesus Cristo. Segundo Eicher:
Mas é para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1): liberdade real e exercida de graça. Funda-se em Deus, que desde o início criador elegeu o pecador para que este o pudesse eleger por sua vez. […] Realiza-se como liberdade do pecado na capacidade de querer o que Deus faz; como liberdade da Lei, na obediência madura dos filhos; como liberdade da morte, na superação do medo que enfraquece a existência e impede o amor (EICHER, 1993, p. 467).
Hawthorne apresenta a seguinte questão: “Cristo vem libertar os seres humanos da escravidão do pecado e a todos os poderes sob seu comando. Os que ele liberta, longe de se tornar autônomos, são conduzidos a nova servidão (Rm 6, 12-23); tornam-se escravos (douloi) voluntários de Cristo; ele se torna seu Senhor” (HAWTHORNE, 2008, p. 54). Vemos assim, que Cristo desponta como o novo instrumento de libertação de seu povo, uma libertação plena e integral, destinada não somente a um povo, mas a todos aqueles que aderem ao projeto salvífico. Para a Pontifícia Comissão Bíblica:
Essa salvação fora prometida ao povo de Israel, mas também às ‘nações’ agora podem dela participar, porque o Evangelho é a ‘força salvadora de Deus para todo aquele que crê, primeiro para o judeu, mas também para o grego’. A esperança de salvação, que se exprime tão frequentemente e com tanta força no Antigo Testamento, encontra o seu cumprimento no Novo (PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, 2002, p. 90).
Como os acontecimentos do Antigo Testamento serão lidos na perspectiva do Novo, tendo Cristo como chave de leitura, no que tange a libertação, Rupnik enfatiza:
O sangue do Egito e a passagem do Mar Vermelho nos tornam capazes de compreender que é o sangue de Cristo que afoga o faraó – que é imagem do pecado – e destrói a origem do pecado – que é uma falsa imagem de Deus, uma imagem que nós mesmos criamos, pensando que Deus seja nosso rival, um concorrente que não nos quer livres. A cruz lava a falsa imagem de Deus e manifesta um Deus que se doa (RUPNIK, 2022, p. 113).
Anastasis
Se no Egito foi preciso passar o sangue do cordeiro nos umbrais das portas como sinal da aliança com Deus, agora em Cristo, Deus oferece uma aliança melhor selada no sangue do novo Cordeiro pascal. O Cordeiro imolado está na cruz! As primeiras representações de Jesus o apresentavam na cruz, vivo e de olhos abertos. Nas palavras de Tommaso: “O Crucificado, a princípio, foi representado corretamente, ou seja, vivo e não morto na cruz, verdadeiramente em pé sobre o lenho, desafiando a lei da gravidade: a tábua inferior da cruz ortodoxa nada mais é que o local onde se apoia o Cristo já ressuscitado” (TOMMASO, 2017, p. 106).
Com o passar o tempo a arte litúrgica deu lugar a arte devocional, sobretudo, no período do barroco, e o Senhor vivo e ressuscitado, foi aos poucos sendo substituído pelo Jesus sofredor:
Segundo os novos esquemas iconográficos, que foram se impondo aos poucos no Ocidente, o corpo de Cristo sucumbe; os cravos sustentam um corpo sinuoso, humilhado, abatido; Jesus parece ter cedido à morte; seu rosto, tradicionalmente forte, com seus grandes olhos abertos, agora se abaixa caído para o lado; suas pálpebras pesadas se fecham; o sangue corre de suas feridas bem reais. A imagem do Christus trumphans cede pouco a pouco àquela do Christus dolens, patiens” (TOMMASO, 2017, p. 106).
A cruz é um estado transitório na vida de Jesus, ela é passagem e não um estado definitivo. Ao se contemplar apenas a imagem do crucificado, corre-se o risco de esquecer-se que Ele está vivo e presente no meio do seu povo. É desse modo que se instala a necessidade de um retorno, nas absides, dos ícones da transfiguração, da descida à mansão dos mortos, ou do pantocrator, para se redescobrir que a festa da libertação nos inseriu numa realidade nova de uma vida transfigurada junto de Deus. Ratzinger abordando essa temática diz:
Uma imagem da cruz em que a Páscoa de alguma forma não transparece será igualmente tão falsa quanto uma imagem pascal que esquece dos estigmas, ou seja, da presença da dor. Enquanto imagem centralizada na Páscoa, a imagem de Cristo é sempre ícone da Eucaristia: isto é, ela remete à presença sacramental do mistério pascal (RAZTINGER, 2013, p. 113).
Crucificação – Centro Aletti
3. Páscoa a descida entre os mortos
A arte sacra deve corresponder à veracidade dos textos bíblicos e da Tradição da Igreja, do contrário pode levar os fiéis a incorrem em erro. Os relatos bíblicos apresentam claramente que os discípulos não reconhecem Jesus ressuscitado imediatamente. Acontece com Maria Madalena que imagina ser Jesus um jardineiro (cf. Jo 20,15), os discípulos de Emaús caminham com Ele pensando que fosse um forasteiro (cf. Lc 24,13-35). Ora, se os discípulos que conviveram tão de perto com Jesus não o reconhecem de pronto, podemos afirmar que o corpo de Jesus é um agora um corpo transfigurado, que embora traga as marcas da Paixão (cf. Jo 20,26-28), não se apresenta do mesmo modo. Segundo Evdokimov:
O relato evangélico não diz nada sobre o momento mesmo da Ressurreição. A iconografia segue muito fielmente este silêncio por um maior respeito ao mistério. Assim, seguindo as Escrituras, as únicas composições iconográficas da Ressurreição são ‘a descida aos infernos’ e ‘das mulheres mirróforas em um sepulcro’. São os únicos ícones da festa da Páscoa (EVDOKIMOV, 1991, p. 321).
Considerando que Jesus Ressuscitado apresenta um corpo glorioso, a iconografia dos primeiros séculos buscou retratar a descida de Jesus à mansão dos mortos. Uma antiga homilia do século IV, no grande Sábado Santo, diz: “Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos” (LDH, Ofício de Leituras Sábado Santo).
Descida à mansão dos mortos
Jesus desce à mansão dos mortos para encontra-se com Adão e resgatar todos os que creram n’Ele antes mesmo de sua vinda ao mundo. No célebre poema de Santo Efrém, o sírio, exclama a morte: “Quem é este? O filho de quem? E de qual família? É este homem que me venceu?” (Efrém, 1999). Jesus arrebenta as portas do inferno, esmaga a morte e a destrói, continua o poema:
“A morte mal havia terminado o seu discurso sarcástico e a voz de Nosso Senhor ressoou estrondosamente no Sheol, abrindo todas as tumbas, uma por uma. Terríveis espasmos agarraram a Morte no Sheol; onde nunca houve luz, raios brilharam dos anjos que entraram para fazer sair os mortos para encontrar o Morto que deu vida a tudo” (Efrém, 1999, p.).
Descida à mansão dos mortos – Catedral de Castanhal-PA
Ao longo de toda a história da salvação, Deus realiza um movimento de descida, manifestado de modo admirável na Encarnação do Verbo (cf. Jo 1,14), e a descida à mansão dos mortos. Todos esses movimentos da parte de Deus são justamente para reerguer o homem e o mundo decaído. Deus se abaixa para que o homem possa se erguer. Evdokimov enfatiza:
Está vestido de Luz, atributo do corpo glorificado e símbolo da Glória divina. Por isso suas vestes são de uma brancura sobrenatural e fazem referência as cores do Tabor que, por outro lado, em alguns ícones, são de um amarelo dourado e cobertos de ‘presença’ de raios de ouro. Cristo está vestido de Rei, é o Senhor, mas seu único poder é o Amor crucificado e o poder invencível da Cruz (EVDOKIMOV, 1991, p. 326).
O Senhor da vida, é a Luz que vindo ao mundo tem poder para transfigurar a realidade. Sendo um Deus que vai ao encontro, Evdokimov assevera: “Não é da tumba que saí Cristo, sim de entre os mortos, ek nekrôn, saindo do inferno aniquilado como de um quarto nupcial” (EVDOKIMOV, 1991, p. 327). Por vezes se apresenta o ressuscitado saindo do túmulo, como que flutuando, num movimento de subida, entretanto, a Tradição entende que aqui se estabelece um movimento de descida: Ele vai ao encontro de Adão.
Uma outra representação da ressurreição são as mirróforas, as mulheres que de madrugada vão ao túmulo de Jesus com aromas para terminar de embalsamar o seu corpo. De acordo com Evdokmov: “No ícone de Rublëv e de sua escola, as mulheres tem a estranha forma de uma grama com três flores, de surpreendente elegância, e que são como um reflexo de mistério de uma unidade trinitária” (EVDOKIMOV, 1991, p. 327).
Desse modo, representações de Jesus ressuscitado em linha de produção, apresentando o mesmo rosto do Jesus histórico, não apenas são falsas, como também não condizem com a iconografia do primeiro milênio, que conheceu a descida aos infernos e as mirróforas como única expressão da ressurreição.
Considerações finais
A obra da libertação operada por Deus no Antigo Testamento e a salvação concretizada em Cristo Jesus, mediante sua paixão redentora, nos colocam diante de um mistério que inspira acolhida do dom de Deus, manifestado na festa da Páscoa. Assim o homem e a mulher descobrem na Páscoa judaica uma prefiguração da Páscoa cristã, que terá seu cume na Páscoa definitiva que cada pessoa é convidada a fazer, ao findar a sua caminhada nessa terra.
A Páscoa definitiva é ingresso no Reino de Deus, que em partes a liturgia já nos possibilita experimentar aqui na terra. A partir do batismo tomamos parte na herança oferecida por Deus. Nesse sentido a arte sacra, portanto, arte litúrgica, tem um papel fundamental para nos propiciar esse encontro com o Transcendente e realizar em nós uma Páscoa cotidiana.
O homem crucificado-ressuscitado, portanto, transfigurado, nos aponta que a nossa vida também deve ser transfigurada. Urge fazer uso da arte litúrgica para Páscoa em nós a esperança da ressurreição, na esperança de que Cristo nos segure pelo pulso (cf. RUPNIK, 2017, p. 186) e resgate-nos da região da morte.
Referência bibliográfica
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CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Liturgia das Horas. Vol 2. São Paulo: Paulinas, 1995.
COTHENET, Edouard. A epístola aos Gálatas. São Paulo: Paulinas, 1985.
EFREM. L’arpa dello Spirito: 18 poemi di sant’Efrem. Roma: LIPA, 1999.
EICHER, Peter. Dicionário de conceitos fundamentais de teologia. São Paulo: Paulus, 1993.
EVDOKIMOV, Paul. El arte del Icono: teologia de la beleza. Madrid: Publicações claretianas, 1991.
HAWTHORNE, Gerald. F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Paulus, 2008.
PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. O povo judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia cristã. São Paulo: Paulinas, 2002.
RATZINGER, Joseph. Introdução ao espírito da liturgia. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2013.
RUPNIK, Marko Ivan. Êxodo: caminho para a libertação. Aparecida: Santuário, 2022.
TOMMASO, Wilma Steagall De. O Cristo Pantocrator: da origem às igrejas no Brasil, na obra de Cláudio Pastro. São Paulo: Paulus, 2017.









