Arte Sacra Contemporânea: Religião e História

A arte de Michelangelo na Capela do Conclave

O Conclave aconteceu na Capela Sistina e com isso sempre surge a questão da arte. A Capela Sistina seria a obra de arte mais importante da história da arte mundial? Há muitos livros, teses e discussões sobre o assunto, aqui apresento algumas considerações.

Posso dizer que a obra de Michelangelo na Capela Sistina é muito conhecida, estudada, mas é também controvertida. Os experts em arte sabem que Michelangelo era um grande escultor, mas ele mesmo não se considerava um bom pintor, há documentos e até um soneto do artista que provam o fato. O papa Júlio II, o Terrível, também conhecido como papa guerreiro, convocou Michelangelo, um ano após ele ter esculpido o fabuloso Davi em Florença, para fazer a escultura de seu túmulo, que era um verdadeiro monumento. Essa obra monumental com quase 40 esculturas não foi terminada, dela encontramos peças espalhadas por diversos museus e igrejas. O jovem escultor que havia maravilhado os fiorentinos com sua magnífica escultura de Davi, deixa por enquanto a pedra e para fazer 1100 metros de afrescos no teto da Capela Sistina, técnica que ele não dominava, um grande desafio que lhe causou males físicos pela dificuldade na execução. Conta-se que alguns artistas ficaram aliviados por não terem sido convocados.

A transformação do artista no Renascimento

Isso acontece no auge do Renascimento, quando os artistas haviam deixado há décadas o status de artesãos — deixaram a classe das artes mecânicas, agora pertenciam à classe das artes liberais, — portanto, pintavam e esculpiam usando as mãos e a razão: “o artista pinta com a mente”, disse Leonardo Da Vinci. Com essa mudança, apoiada pelo alto clero e pelos intelectuais, os artistas deixam de ser anônimos e passam a ser os virtuosos chamados para realizar suas obras nos espaços litúrgicos. Agora eles estão mais preocupados em mostrar o savoir-faire, seus talentos, deixar sua marca original que servir à Igreja. Outro fato relevante é que a Igreja se deparava com o movimento Reformista que era iconoclasta e, como resposta, acontece o Concílio de Trento (1544 -1563) cuja mudança na questão da arte em vista de suas proclamações conciliares deu início a um novo movimento artístico, o Barroco.

Michelangelo, diferente de muitos artistas, foi reconhecido e aclamado como gênio em vida, esse reconhecimento permanece até hoje, porém não é um caso comum, pois muitos grandes artistas acabaram a vida pobres e desconhecidos. Sua relação conturbada com o papa Júlio II, o envolvimento de teólogos e do alto clero na execução dessa obra já na época a tornaram conhecida e até as contendas foram registradas, como é praxe em tudo o que acontece na Igreja. Certamente por isso temos tantos documentos que permitem traçar uma história condizente ao fato.      

Mas quem era esse artista? Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni (1475-1564) foi discípulo de Domenico Ghirlandaio, teve sólida formação em neoplatonismo e na cabala na seletiva escola de Lorenzo di Medici, o Magnífico, o maior patrono das artes na época. Lorenzo, logo que percebeu o gênio do jovem Michelangelo, concedeu-lhe um ateliê no seu famoso Jardim de San Marco. Assim como Leonardo da Vinci, Michelangelo se dedicou ao estudo da anatomia humana dissecando cadáveres, prática proibida na época pela Igreja. Não é coincidência que na criação de Adão Deus esteja em uma estrutura que remete ao cérebro humano. No Renascimento a luz vem da razão humana, contrário ao cristianismo em que a verdadeira luz incriada é Jesus Cristo. Essa arte plena de símbolos desconhecidos por muitos na época e também na atualidade, passa despercebida pela maioria do grande público que visita diariamente aquela que se tornou pelos virtuosos que deixaram sua arte, a mais famosa capela do mundo.

A teologia da Capela Sistina

Quando o papa Júlio II decidiu que Michelangelo faria o teto da Capela Sistina, dispôs um grande número de auxiliares teólogos aos quais o artista denominava como espiões do papa para vigiarem sua obra. No entanto, muitos detalhes simbólicos, passaram sem serem notados e foram decodificados séculos depois. Não se pode dizer que Michelangelo era contra a fé cristã, porém seu descontentamento era contra os clérigos e os papas.

Olhando para as figuras dos afrescos da criação na Capela Sistina, vemos que no primeiro painel Deus, colocado ao longo de uma linha diagonal, cobre todo o espaço, enquanto com um gesto poderoso divide a luz das trevas. A figura de Deus, com seu manto, ocupa praticamente todo o campo. Na segunda e terceira cenas, Deus ainda é o Criador dotado de energia poderosa. Assemelha-se a um homem de idade madura, com uma constituição forte. Ele estende o braço, estende o dedo indicador e as coisas existem. Na quarta cena, a da criação de Adão, estamos novamente diante de uma composição diagonal que na arte clássica é frequentemente associada a um tema dramático. Deus estende o braço e aponta o dedo indicador. Adão, meio deitado, descansa o braço estendido no joelho em direção ao Criador, mas seu dedo está caído, é macio e não alcança Deus. Dois centímetros separam o dedo de Deus que espera a decisão de Adão para tocá-lo. Essa pequena distância que separa os dois dedos tem um caráter simbólico importante, Deus espera a decisão de Adão para estender o dedo, pois quer ser amado em liberdade.

Na quinta cena, Adão dorme, enquanto Deus cria Eva de sua costela. Eva, com as duas mãos para a frente em atitude orante, está estendida para Deus, que não ocupa mais o espaço central, mas apenas uma pequena parte do extremo direito, onde de pé, visivelmente curvada. Deus está visivelmente envelhecido e com um braço abençoa o primeiro casal. Nesses afrescos nota-se que  conforme Deus cria, perde o vigor, parece no final deixar o homem só e agora o homem sente-se como o grande artífice.

Assim, nos afrescos do teto da capela Sistina Deus cria, mas enquanto cria diminui, até que no final da criação se esgota. Alguns séculos depois, sua morte foi declarada e o homem toma o seu lugar. Seria, portanto, uma transição radical do teocentrismo para o antropocentrismo.

Da Criação à Ressureição: A Capela Sistina no mundo contemporâneo.

A obra de Michelangelo na Capela Sistina teve duas fases, a primeira já vista, os afrescos do teto (1506-1513) a segunda 22 anos após a primeira, foi o afresco do Juízo Final. O papa Clemente VII conhecia bem a Michelangelo, pois pertencia à poderosa família Médici. O papa sabia que o artista era um gênio, mas também era um intelectual neoplatônico, anatomista e conhecedor de outras tradições, por isso ficaria atento para evitar erros da manifestação da fé cristã como ocorreram no teto da capela. Fato que não aconteceu, porque logo após assinar o contrato, papa Clemente VII morreu aos 56 anos. Seu sucessor, Paulo III, da também poderosa família Farnese, não conhecia tão bem Michelangelo, deixou-o livre para realizar sua obra. Nessa época, Michelangelo já era famoso, rico e um rebelde furioso com o sistema que rompeu muitas tradições. No Juízo Final, por exemplo,  a Virgem Maria que simboliza a Igreja, vira o rosto para o Filho, um Cristo implacável e corpulento, que manda muitos para o inferno. A meu ver uma mostra de que para o artista a Igreja é santa, pecadores são alguns homens que lá estão. 

Para o pensador russo Nicolas Berdiaev (1874-1948) a consciência humanista, que foi o resultado da dupla comunhão com a natureza e a Antiguidade, desviou sua contemplação da imagem do homem espiritual para a do homem natural. Ela liberou as forças naturais do homem e, ao mesmo tempo, cortou sua conexão com a autoridade espiritual, divorciando o homem natural do espiritual. No limiar da história moderna, o homem parece ter um futuro maravilhoso à sua frente. Ele sente a liberação de sua força e uma comunhão profunda e direta com a vida natural e a Antiguidade. É um fato curioso que na Itália, que viu o florescimento das forças criativas do homem, não tenha ocorrido nenhuma revolta contra o cristianismo. A Itália sempre preservou suas associações com a Antiguidade por meio de Roma; a conexão nunca foi perdida e as ideias da Antiguidade nunca se tornaram totalmente estranhas à História italiana. O Renascimento italiano, portanto, longe de romper com a Igreja Católica, preservou uma curiosa associação com a fé católica, uma associação às vezes sob o patrocínio papal. A Renascença se manifestou com força extraordinária no Vaticano. O resultado foi o enriquecimento do próprio catolicismo.[1]

Feitas as considerações sobre a arte, voltemos ao evento que lá aconteceu, o Conclave. Chama atenção a diferença que acontece em relação ao papado na época dos grandes artistas do Renascimento e dos papas dos últimos 3 séculos. Um exemplo que se destaca é a simplicidade do túmulo do Papa Francisco, que ficará na história como um papa humilde, um Pastor próximo de seu povo que viveu para servir e sem ostentação. Que diria Francisco se túmulo monumental de Júlio II tivesse sido concluído com as 40 esculturas em mármore de carrara? Papa Francisco escolheu ser enterrado na Basílica de Santa Maria Maior, por sua devoção mariana e quis uma lápide simples de ardósia da região da Ligúria, terra de seus avós que lhes foram tão caros e principalmente sua avó, que transmitiu uma forte espiritualidade ao pequeno Jorge Mario Bergoglio desde a tenra idade.

Notas

[1] Nicolas Berdiaev . Il senso della storia. p.111

Imagens: Dennis G. Jarvis, Antoine Taveneaux e Aaron Logan (Wikimedia Commons)

Sobre o autor

Wilma Steagall De Tommaso

Doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora no Museu de Arte Sacra de São Paulo (MAS SP). Membro Pesquisadora da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (SOTER). Coordenadora do grupo de pesquisa Arte Sacra Contemporânea: Religião e História, do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.