A Quaresma é um período de entrelaçamento entre a preparação e a Festa da Páscoa — porque sempre há um tempo de preparação antes de cada festa da Igreja. Antigamente era a preparação que os catecúmenos faziam para o batismo, realizado principalmente na Páscoa.
De fato, ainda hoje, a liturgia da Páscoa traz marcas de ter sido, antes de tudo, uma liturgia batismal. A longa série de leituras da vigília pascal nada mais é do que os mais antigos paradigmas do batismo. Mas por que existe essa ligação entre o batismo e a Páscoa? O que se celebra na Páscoa?
Para entendermos voltamos aos primeiros capítulos do livro do Gênesis. Deus criou o ser humano como um interlocutor, criou-o para unir-se a Ele e para comunicar-lhe a Sua própria Vida, porque Deus é a fonte da vida. Porém, Deus criou o homem livre, caso contrário, não poderia receber dele o amor. O amor é uma livre adesão, só acontece em liberdade.
Pelo uso errado dessa liberdade o ser humano ouve a serpente, é por ela enganado e acontece a tragédia da queda que nada mais é do que se opor à relação com Deus. Ao se fechar à relação, o homem faz de Deus seu inimigo, consequentemente, fecha-se também à verdadeira Vida, a comunhão com Deus. Assim o homem ao nascer já caminha para a morte.
Os Padres da Igreja dizem que vivemos uma “vida morta”. O medo escondido na morte abre sob nossos pés um abismo de insegurança que gera todo tipo de pecado.
Então, para salvar o mundo e fazê-lo retornar a Ele, Deus envia Seu Filho: “e o Verbo se fez carne”. Como homem, Jesus Cristo supera essa resistência ao encontro e à comunhão e a humanidade pode voltar a receber a vida de Deus.
Para buscar o ser humano, depois de sofrer a Paixão e se entregar livremente, o Filho de Deus chega ao ponto mais baixo: chega até a morte. E, para nossa esperança, por mais que cada um de nós possa cair profundamente, ainda haverá alguém mais abaixo para nos recolher.
Cristo desceu até o fundo, até a maior distância do Pai, “desceu à mansão dos mortos”, professa-se no Credo. Cristo que é a vida, entrou na morte. Mas, como foi por obediência ao Pai, é claro que o Pai não o deixou no túmulo.
Por isso, em Cristo a própria morte se torna um ato de vida. Assim, a nossa morte biológica e todas as nossas “mortes” tornam-se apenas passagens — verdadeiras Páscoas — rumo à ressurreição.
A morte espiritual, que é o fechamento em nós mesmos e que engloba todas essas mortes, termina em Cristo. Esse grande passo — a Páscoa do mundo — começou, e a luz do Reino nos alcança na comunhão, na alegria e na paz do Espírito Santo.
Cristo ressuscitou e a vida reina. Esse é o dom do batismo: um dom inestimável e precioso, que nos dá a possibilidade de transformar os limites da nossa vida e até a própria morte em atos de comunhão com a vida.
Nós, porém, frequentemente e por fragilidade, caímos no erro, sentimos medo e vergonha porque traímos essa vida, temos a sensação de que a perdemos, e passamos a viver como se Cristo não tivesse ressuscitado.
Por causa desse esquecimento e dessas traições, a nossa vida volta a se tornar “velha”. É por isso que existe a Quaresma: a vida antiga não se transforma facilmente.
É necessária uma escola de arrependimento que nos permita acolher a Páscoa como o fim do velho em nós e como a nossa entrada na nova vida em Cristo.
Assim, a Quaresma — o caminho rumo à Páscoa — é, a cada ano, o nosso retorno ao nosso próprio batismo e ao sentido pessoal da Páscoa em nossa vida.
O tempo quaresmal é na verdade um itinerário que nos ajuda a reavivar aquilo que já recebemos como dom no batismo.
Na Quaresma percorremos o antigo rito da iniciação cristã, hoje divididos em três sacramentos: batismo, crisma e eucaristia, para celebrarmos o Domingo de Páscoa quando Cristo, nossa vida, venceu a morte.
Essa nova vida nos permite olhar para tudo o que faz parte do nosso cotidiano — trabalho, encontros, doenças e até a morte — a partir do Reino de Deus, onde tudo é luz.
Imagens: Fachada Sul do Santuário Nacional de Aparecida/SP. Mosaico: Centro Aletti e Mosaico Brasil. Foto de Thiago Leon



