A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

A capacidade de estar só na construção de uma individualidade

Ao longo da história, desde os tempos mais remotos, os indivíduos enfrentam uma constante inundação de influências externas que moldam suas percepções e comportamentos. A pressão social, as expectativas alheias e as normas culturais, muitas vezes, obscurecem sua própria essência. Por essa razão, a capacidade de desenvolver uma individualidade perante os outros mostra-se uma conduta cada vez mais escassa. Neste sentido, quando a subjetividade é anulada, a dependência excessiva em relação aos outros pode surgir como uma consequência devastadora.

Esta dependência influencia não apenas na relação do indivíduo consigo mesmo, mas também nas relações interpessoais que ele estabelece. Aqueles que se tornam altamente dependentes de uma validação externa são capazes de realizar somente aquilo que esperam deles na busca por amparo, convivência e pertencimento, aspectos que não tiveram em etapas anteriores de seu desenvolvimento. Adequar-se ao padrão esperado, em uma espécie de conformismo, muitas vezes, ocorre por medo da exclusão ou simplesmente pela falta de confiança em suas próprias escolhas e valores.

A capacidade de estar só na presença do outro é um conceito desenvolvido por Winnicott (1958), que se refere à habilidade de manter a integridade do eu e a criatividade pessoal, mesmo quando se está em contato com outras pessoas. Essa capacidade não significa um isolamento ou uma independência absoluta, mas sim uma forma de relacionamento saudável e maduro, que reconhece a diferença entre o eu e o não eu, entre o mundo interno e o externo, o que é próprio e o que é alheio. Essa diferenciação não é dada desde o nascimento, mas se constrói ao longo do desenvolvimento a partir da relação com a mãe e com o ambiente.

Durante os primeiros meses de vida, a mãe oferece ao bebê um “ambiente suficientemente bom”. Ele, por sua vez, se sente seguro e protegido para explorar o mundo sem medo de perder a conexão com ela. A mãe também respeita o ritmo e as necessidades do bebê. Assim, ele pode desenvolver seu senso de identidade e autonomia, sem se sentir invadido ou abandonado.

Por outro lado, o autor (1958) afirma que quando essa capacidade não é desenvolvida, o indivíduo pode se sentir solitário, ansioso, dependente e ter dificuldades para se relacionar consigo mesmo e com seu entorno. Quando uma pessoa se sente invadida ou negligenciada pelo ambiente, ela acaba se utilizando do “falso self” como um mecanismo de defesa contra aquela realidade externa. Como resultado, o indivíduo encontra-se sem um senso de espontaneidade e busca, a todo tempo, o reconhecimento e a proteção que não recebeu no início de sua vida.

Ao observar indivíduos adultos, presume-se que sejam capazes de buscar por conta própria ou com a ajuda de outros os recursos necessários para garantir sua sobrevivência. Mas, então, por que a dependência excessiva, uma característica típica dos bebês, persiste na vida adulta?

Este aspecto pode ser entendido como o resultado de uma regressão emocional. De fato, a independência da vida adulta oferece a liberdade de tomar decisões e escolher caminhos a seguir, mas também traz consigo a responsabilidade pelas consequências de suas ações, o que pode ser apavorante para muitas pessoas.

Aqueles que não alcançam um nível razoável de amadurecimento emocional podem se vincular fortemente a um determinado grupo ou a uma pessoa específica para obter a segurança necessária que não tiveram.

Ademais, é possível explicar que depender dos outros está enraizado no desamparo inerente à condição humana. Freud (1927) esboçou na obra “O Futuro de uma Ilusão”, o estado de absoluto desamparo que os seres humanos nascem, em contraste com muitos animais que são mais independentes desde o nascimento. Desde o início, nossa sobrevivência está intimamente ligada à presença e ao cuidado de outros. A necessidade de cuidado parental vai além da mera sobrevivência, pois é por meio desse contato que somos introduzidos à cultura. Através das relações interpessoais, absorvemos valores, normas e conhecimentos que moldam nossa identidade e compreensão do mundo.

O desamparo vem acompanhado de uma intensa angústia decorrente da falta de proteção. Por isso, as pessoas criam possibilidades afetivas para o enfrentamento desta condição. Em uma sociedade adoecida e imatura, as pessoas buscam na submissão a um líder, a uma religião ou a um movimento social um suporte para tornar tolerável seu desamparo e sua incompletude.

Diante disso, as pessoas encontram-se com cada vez mais dificuldade de ficar consigo mesmas, de manter uma vida subjetiva, de se responsabilizar por si mesmas e sustentar os efeitos de seus atos e como a falta de desenvolvimento dessa capacidade pode levar a problemas emocionais na vida adulta. O ser humano é desafiado, em seu constante estado de aprendizagem, a cultivar uma maturidade emocional rumo à espontaneidade, ao mesmo tempo que precisa reconhecer a importância das relações interpessoais na construção da identidade.

Referencial teórico

FREUD, S.  (1927) O futuro de uma ilusão. O mal-estar na civilização e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, vol. XXI, 1986, p. 13-74.

WINNICOTT, D. W. (1958) A capacidade de estar só. O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional, Porto Alegre: Artmed, p. 31-37.

WINNICOTT, D. W.(1963)Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo. O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional, Porto Alegre: Artmed, p. 79-87.

Imagem: ustgary/Wikimedia

Sobre o autor

Ana Lídia Rosa

Psicóloga clínica, pós-graduanda em Psicoterapia Psicanalítica pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) e pesquisadora do grupo "A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade", pelo Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.