Revista Laboratório Temática 5 – Diálogos da Diáspora - Racismo e Antissemitismo

Experiências cruzadas: o colonialismo no Magreb e as trajetórias intelectuais de Albert Memmi e Albert Camus

Introdução

Em vista dos mecanismos utilizados para a justificação e manutenção do colonialismo, dentre os quais destacamos o racismo, o sistema colonial afetou, mesmo que de formas diferentes, todas as relações estabelecidas nos territórios dominados. Nesse sentido, a maneira com que o francês colonialista, o colonizado judeu, o muçulmano ou o cristão foram afetados pelo sistema colonial diferiu significativamente entre cada um dos grupos sociais que formavam a sociedade colonizada. Conforme afirma Georges Balandier: “‘a colonização é um fato de poder que traz consigo a perda de autonomia’, ‘uma tutela de direito ou de fato’. Cada um dos setores da sociedade colonial tem como função assegurar esta dominação num domínio preciso (político, econômico e, quase sempre, espiritual).” A sociedade colonizada “repousa […] sobre uma ideologia, sobre um sistema de pseudojustificações e de racionalizações; ela tem um fundamento ‘racista’ mais ou menos confesso, mais ou menos manifesto.” (Balandier, 1991, p. 13). Portanto, compreender como o colonizado foi afetado culturalmente pelo colonizador é um dos meus principais objetivos.

A situação colonial descrita por Albert Memmi no ensaio Retrato do colonizado precedido por retrato do colonizador (1957) deixa claro essas diferenças ao tentar descrever a complexidade das relações coloniais, dados os diversos papéis e sujeitos envolvidos. Para ele, o intelectual colonizado não lida com o colonialismo da mesma forma que a maioria da população colonizada, no entanto, a despeito disso, as interações construídas no interior de um arranjo político-social colonial têm o racismo como principal fator de diferenciação entre os sujeitos.

A inferiorização do colonizado magrebino em relação ao francês é algo naturalizado na colônia, ainda que haja uma certa hierarquia dos colonizados. A formação do colonizado visa a um fim: a mission civilizatrice. Ou seja, elevar a cultura do colonizador, promovê-la, em um objetivo assimilacionista, mas que, ao mesmo tempo, mantém o status inferiorizado do colonizado. Trata-se de um mecanismo utilizado como justificativa para integrá-los e assimilá-los à cultura eurocêntrica, porém com a verdadeira iniciativa de fortalecer o Império e garantir a dominação (Ferro, 1996).

Esta pesquisa tem como objetivo compreender a complexidade desse sistema colonial, tendo como base a trajetória de dois intelectuais: o franco-tunisiano Albert Memmi (1920-2020) e o franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Os dois intelectuais vivenciaram o colonialismo francês no Magreb e, ao mesmo tempo, desenvolveram uma complexa relação com a metrópole, uma vez que estavam inseridos em um ambiente relativamente privilegiado na colônia, nos espaços educacionais institucionalizados dentro dos quais conviveram com as duas culturas que os formaram: a francesa e a árabe. No caso de Memmi, a realidade se complexifica por se tratar de um judeu árabe. Ainda assim, o que une a experiência de Memmi e Camus nesta pesquisa é essencialmente o fato de terem iniciado sua formação intelectual em um mundo colonizado.

Guy Dugas (2014) foi um dos principais pesquisadores que investigou a relação entre Memmi e Camus. Em um de seus artigos, o autor analisa a natureza conflituosa e, ao mesmo tempo, empática dos contatos entre os dois escritores. O artigo é interessante porque procura resgatar a relação dos escritores através de cartas e artigos de jornal produzidos por Memmi no período entre a escrita do prefácio à edição norte-americana de Camus ao primeiro romance de Memmi, em 1955, e após a morte do escritor franco-argelino, em 1960. No entanto, a maioria da bibliografia que tive acesso ao longo de minhas leituras para esta pesquisa distancia os autores ou nem mesmo considera alguma relação entre os dois. Tais pesquisas partem de um posicionamento crítico acerca da obra de Camus, onde ele é lido quase que como um defensor do mito da Argélia Francesa, ou seja, a favor do colonialismo ou a sua obra passa a ser interpretada como a expressão de uma consciência do colonialista ocidental, dependente de um “discurso francês sobre a Argélia” (Said, 2011, p. 221). Em contraposição, Memmi é comumente reconhecido como um crítico explícito do colonialismo francês, sendo lido até mesmo como um judeu pós-colonial (Judaken, 2006, p. 265).

É relevante aqui o papel que ambos desempenharam na crítica dos movimentos de independência de seus locais de origem. Os dois intelectuais estavam inseridos nesse contexto e foram pessoalmente afetados por ele. A Guerra da Argélia custou a Camus diversas críticas devido ao seu posicionamento contrário ao movimento de independência dos argelinos, que chegou a levá-lo ao ostracismo. A independência da Tunísia, em 1956, fez com que Memmi repensasse sua permanência no país em virtude da ascensão de um nacionalismo árabe que não deixava espaço para os judeus (Memmi, 2004). Ambos dialogam com os intelectuais de seu tempo, como Jean-Paul Sartre, mas foram atravessados por questões derivadas de suas experiências como colonizados que os muniam de pontos de vista muitas vezes antagônicos aos outros intelectuais, esta situação os colocava à margem da intelectualidade francesa, mesmo de esquerda. Diante disso, o exílio também se apresentava como uma problemática na trajetória de Memmi e Camus. Seus locais de origem, mesmo após se estabelecerem na França definitivamente, continuaram a ser vistos de maneira afetiva por ambos: a terra ensolarada da Argélia nunca deixou de ser fonte de inspiração para Camus e os becos do bairro árabe na Tunísia compunham o cenário do primeiro romance de Memmi: A Estátua de Sal (1953).

Nesta pesquisa analiso o papel do intelectual que carrega consigo a experiência da colonização, sem deixar de considerar os diversos contornos que o colonialismo francês assumiu na Tunísia e na Argélia. Também reflito sobre o uso da língua francesa e o público a que as obras de Memmi e Camus se dirigem. Segundo Memmi (1957), o bilinguismo cultural é condição que acompanha o escritor colonizado, isso quer dizer que o intelectual nascido na colônia e educado nas instituições francesas, seja na colônia ou fora dela, teve de lidar com pelo menos duas identidades que o formaram. Na produção intelectual desses escritores a cultura eurocêntrica se contrapõe à cultura de origem, seja berbere, judaica ou árabe.

O último aspecto do colonialismo que afetou a ambos e que desejo destacar é o racismo. Diante disso me pergunto se em algum momento Camus se deparou com o racismo e a exclusão deliberada em virtude de sua origem. A mesma pergunta faço a Memmi. Analisando sua fama e alcance intelectual, aparentemente Camus não foi muito afetado pelo fato de ter nascido na Argélia (o escritor chegou a ganhar o Prêmio Nobel em 1957, em meio às agitações suscitadas pela Guerra da Argélia). Memmi também seguiu carreira na França e conquistou alguns prêmios, mas seus romances autobiográficos não escondem um certo desconforto que ele encontrou em sua trajetória. Por fim, há ainda mais a se considerar: Onde as experiências desses intelectuais se cruzam? De que forma o colonialismo francês afetou a produção intelectual dos autores?

Procuro responder a estas indagações me voltando para a produção intelectual dos dois escritores, principalmente os romances autobiográficos A Estátua de Sal (1953), de Memmi e O Primeiro Homem (1960-1994), romance inacabado de Camus, além dos ensaios, de grande importância para compreender a relação complexa desses autores com seus locais de origem, especialmente entre o fim da década de 1950 e começo da década de 1960, período que marca a radicalização dos movimentos pela independência no Magreb e a morte prematura de Camus. Não é o objetivo aqui, empreender uma análise da obra filosófica ou sociológica dos autores, mas tão somente realizar uma comparação entre as trajetórias biográficas de cada um deles, especialmente no que elas se cruzam. As experiências desses intelectuais oferecem contrapontos para compreender a complexidades das relações entre a França e os colonizados norte-africanos, notadamente aqueles que alcançaram uma formação acadêmica mais consolidada e que produziram na fronteira entre dois mundos: os intelectuais.

Camus e Memmi: Intelectuais colonizados

Albert Camus nasceu em 1913 em Dréan, na Argélia. Camus teve uma infância pobre, mas conseguiu formar-se em filosofia na Universidade de Argel. A despeito de sua morte prematura, na qual foi vítima de um acidente de carro em 1960, Camus teve um papel importante no meio acadêmico francês. Dentre suas diversas obras, O Estrangeiro (1942) e O Mito de Sísifo (1942) foram fundamentais para a criação do conceito filosófico do absurdo, sua principal contribuição nesse campo. No entanto, em seus romances e ensaios não deixou de refletir sobre suas origens e evocar lembranças que fizeram parte de sua infância na Argélia. De acordo com o historiador Tony Judt,

Camus certa vez descreveu O homem revoltado como sua “autobiografia”; mas algo muito semelhante era naturalmente verdade em algum sentido sobre O primeiro homem, A queda e a maioria de seus outros textos de ficção ou não ficção. Em desacordo com seu ambiente profissional, ele escrevia em busca constante de seu lar – ou melhor, usava seus textos para descrever em uma variedade de códigos sua sensação de exílio. Em um de seus primeiros textos – “L’Été à Alger” -, Camus escreve que “uma pátria é sempre reconhecida só no momento de sua perda”, e esse sentimento de perda, a sensação de exílio e extravio, é o tema central de sua vida e sua obra. (Judt, 2014, p. 138, grifos do autor)

Albert Memmi nasceu em 1920, em Túnis, na Tunísia. De origem pobre, viveu sua infância entre os bairros judaico e muçulmano. Após sua formação elementar nos colégios franceses em Túnis, dentre os quais a Aliança Israelita Universal, uma instituição criada em 1860 para judeus que viviam em território muçulmano, que tinha como um dos objetivos impulsionar a mission civilizatrice, prosseguiu seus estudos em filosofia na Universidade de Argel, na Argélia. No entanto, sua educação foi interrompida pela ocupação da Tunísia pelas forças alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1942 e 1943. Nesse período, Memmi permaneceu em um campo de trabalhos forçados.

Após a guerra, mudou-se para Paris, onde se casou e retomou os seus estudos, desta vez, na Universidade de Paris (Sorbonne). Formado, mudou-se novamente para a Tunísia, no entanto, após a independência de seu país, reconhecida pelo governo francês em 1956, Memmi emigrou para a França, por entender que a nova nação se construiria a partir de um modelo de estado muçulmano pouco tolerante aos judeus, o que relatou com mais detalhes no livro Retrato do descolonizado árabe-muçulmano e de alguns outros, publicado em 2004. Além de escritor, foi também professor universitário (Judaken; Lejman, 2021).  Em seus quase cem anos de vida,[2] Memmi contribuiu com diversos outros livros, romances e ensaios que refletiam sobre a condição dos judeus na Europa e no Magreb, o funcionamento e os efeitos do colonialismo nas sociedades colonizadas e o debate sobre as identidades no século XX.

Procuro compreender a trajetória de ambos a partir da análise de Memmi sobre o escritor colonizado. Segundo ele, o escritor colonizado é um “bilíngue cultural”, ou seja, tendo em vista suas origens e sua formação institucionalizada, ele se vê atravessado por suas culturas: a de sua origem e a do colonizador. Segundo o escritor franco-tunisiano, “é muito difícil sustentar o papel do escritor colonizado: ele encarna todas as ambiguidades, todas as impossibilidades do colonizado, levadas ao último grau” (Memmi, 2021, p. 149). Portanto, ele se vê diante de dilemas como a língua que escolhe para escrever e o público a que se refere seus escritos. A despeito de escrever na língua do colonizador, o escritor colonizado, segundo Memmi, escolhe expressar seu “mal-estar e sua revolta” (Memmi, 2021, p. 150).

O intelectual colonizado está à margem, na fronteira entre seu povo e aquele que o dominou. Esse domínio cultural faz com que ele não reconheça facilmente o seu lugar, mesmo que, para Memmi, o escritor colonizado seja parte fundamental da autoconscientização do povo e do resgate de sua história e de sua língua, é possível que ele decida “pertencer totalmente à literatura metropolitana”, escolha pode resvalar em um problema ético. (Memmi. 2021, p. 151). Fato é que o “bilinguismo cultural” é inescapável à experiência do colonizado alfabetizado:

No contexto colonial, o bilinguismo é necessário. Ele é condição de toda comunicação, de toda cultura e de todo progresso. Mas o bilíngue colonial só se salva do isolamento para sofrer uma catástrofe cultural, que nunca é completamente superada.

A não-coincidência entre língua materna e língua cultural não é própria do colonizado. Mas o bilinguismo colonial não pode ser assimilado a um dualismo linguístico qualquer. A posse de suas línguas não é apenas a posse de suas ferramentas, é a participação em dois reinos psíquicos e culturais. Ora, aqui, os dois universos simbolizados, que as duas línguas veiculam, estão em conflito. São os universos do colonizador e do colonizado.
(Memmi, 2021, p. 147-148, grifos do autor)

Portanto, a trajetória desses dois intelectuais não pode ser dissociada do dilaceramento cultural e psíquico provocado pelo colonialismo, porém este fato não costuma ser mencionado quando se trata do escritor franco-argelino. Camus é quase sempre lembrado como um intelectual respeitado durante a ocupação francesa, devido ao seu envolvimento com a resistência e ao trabalho no jornal Combat. Seu círculo de amizade incluiu, até certo tempo, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, no entanto, essa amizade se modifica com a publicação do livro O Homem Revoltado (1951) e do posicionamento de Camus em relação à Guerra da Argélia (1954-1962).

Memmi escreveu em diversos jornais na época, no entanto, não encontrei registros que sustentassem que foi de grande influência entre os meios intelectuais franceses, mesmo que tivesse sido publicado na “revista de Sartre” – Les Temps Modernes – e a despeito da contribuição de Sartre e de Camus nos prefácios de dois de seus livros. Através de seus livros e ensaios, podemos notar que Memmi contribuiu para o campo de estudos, tanto da sociologia como da filosofia, ao tentar compreender como o racismo poderia ser utilizado como um mecanismo de diferenciação de grupos sociais e para justificação de opressões, além disso, forjou o termo “judéité”, fruto de sua reflexão da experiência dos judeus no pós-Holocausto.

No contexto do pós-guerra na França, onde Camus e Memmi estavam situados, o engajamento intelectual era uma das principais ferramentas utilizadas para adquirir visibilidade no meio acadêmico e fora dele. O intelectual era um influente na opinião pública e seu posicionamento era importante. Devido às suas origens e pontos de vista, que refletiam em suas obras e em suas vidas, Camus e Memmi ocupavam lugares à margem dos intelectuais franceses. Suas experiências podem ser entendidas como fatores determinantes para o modo de pensar e para a especificidade de suas obras frente ao que se estava produzindo na França no mesmo período.

O colonialismo e a dimensão autobiográfica dos romances O Primeiro Homem (1960) e A Estátua de Sal (1953)

A complexidade do sistema colonial e, consequentemente, o efeito do colonialismo na vida desses autores, podem ser verificadas em suas obras. Não é meu objetivo analisar toda a produção intelectual de ambos, mas me detenho em duas obras que penso serem fundamentais para compreender a especificidade do pensamento dos escritores, me refiro aos romances O Primeiro Homem (1960), de Camus e A Estátua de Sal (1953), de Memmi.

O manuscrito de O Primeiro Homem estava com Camus no momento de sua morte, ocasionada por um acidente de carro. A obra só foi publicada em 1994, em seu formato inacabado. O romance narra a infância de Jacques Cormery, e é considerado uma obra autobiográfica devido às diversas semelhanças entre a história e a trajetória do escritor e de sua família, como exemplo podemos citar a infância pobre; a morte do pai de Cormery, que é morto durante a Segunda Guerra Mundial, assim como o de Camus; o papel fundamental que o professor do personagem principal, Sr. Bernard, teve na vida de Cormery, de maneira similar ao do professor Sr. Germain, na vida de Camus.[3] No entanto, o romance, mais do que uma autobiografia, é uma ficção do real. Camus se utiliza da matéria da realidade de suas experiências e de sua infância para criar um romance, desse modo, há uma “transformação do real em ficção” a partir da lembrança (Geske, 2010, p. 166).[4]

Além disso, Jacques é inserido em uma história que não é a dele nem a de seus pais. Na escola não lhe ensinam a história da Argélia, mas a história da França, essa nação imprecisa, “la patrie”, palavra vazia de todo sentido para a sua mãe. Ao contrário, Jacques havia sido criado sob esse sol argelino: “oui, il avait vécu ainsi das les jeux de la mer, di vent, de la rue, sous le poids de l’été et les lourdes pluies du bref hiver, sans père, sans tradition transmisse […] (CAMUS, 2008a, p. 300).

Como então relatar essa história? Como Albert Camus, que crescera sob esse mesmo sol e essa mesma miséria, poderia escrever uma autobiografia, já que ela se alimenta de lembranças? […] (Geske, 2010, p. 168)

Para além de uma narrativa sobre si mesmo, ou melhor, uma “mitologia do real” (Geske, 2010, p. 167), a obra de Camus se relaciona com a própria Argélia e o que a ela representava. Os franceses que liam Camus tinham ideia do que significava ser um argelino? A escolha de ambientar algumas de suas narrativas na Argélia não me parece uma escolha ocasional ou algo que tenha relação somente com o resgate de lembranças familiares. Talvez, assumindo o papel de escritor colonizado que se autoconsientiza e também traz consciência ao povo, conforme afirma Memmi, Camus tenha tentado resgatar a história da Argélia de sua infância, das pessoas que dela participaram e de um lugar que, apesar da colonização, também tem sua história. Assim, “A história desse povo será aos poucos recuperada com a história de Jacques” (Geske, 2010, p. 169).

Albert Memmi, por sua vez, deixou mais clara as intenções de sua obra e seu compromisso com o resgate de sua experiência como colonizado na Tunísia. No prefácio a uma nova edição de Retrato do colonizado…, publicado em 1966, Memmi afirmou:

Em todo caso, eu não tinha a intenção, na época, de retratar todos os oprimidos, nem mesmo todos os colonizados. Eu era tunisiano e, portanto, colonizado. Estava descobrindo que poucos aspectos da minha vida e da minha personalidade não tinham sido afetados por esse dado. Não apenas meu pensamento, minhas próprias paixões e meu comportamento, como também o comportamento dos outros em relação a mim. Jovem estudante chegando à Sorbonne pela primeira vez, fui inquietado por rumores: “Tinha eu o direito, como tunisiano, de me preparar para o concurso de professor universitário de filosofia?” Fui ver o presidente da banca: “Não é um direito”, explicou-me…“é um voto.” Ele hesitou, como um jurista que procurava as palavras exatas: “Digamos que é um voto colonial.” Ainda não compreendi o que isso de fato significava, mas nada mais pude tirar dele, e é possível imaginar com que tranquilidade de alma trabalhei depois. Em suma, realizei este inventário sobre a condição do colonizado primeiramente para compreender a mim mesmo e identificar meu lugar entre os outros homens. Foram meus leitores, que estavam longe de ser todos tunisianos, que me convenceram mais tarde de que este retrato era também o deles. Foram as viagens, as conversas, as confrontações e as leituras que confirmaram, à medida que eu avançava, que o que eu tinha descrito era o quinhão de uma multidão de homens através do mundo (Memmi, 2021 [1966], p. 13).

No romance A Estátua de Sal Memmi ilustrou mais detalhadamente como o colonialismo o pode ter afetado. O livro narra a trajetória de Alexandre Mordekhaï Benillouche, que se vê divido entre o seu mundo, de tradições judaicas e berberes, e o do colonizador francês. Essa ambiguidade perpassa todo o livro. A obra pode ser vista como uma espécie de resgate às experiências dos judeus no Magreb e, mais ainda, do judeu colonizado. De acordo com Nadja Lajri (2009), Memmi direciona sua atenção para a identidade judaica do personagem, vivendo em um mundo colonizado. Em conflito com sua identidade, o narrador, Alexandre, afirma:

Perscrutando meus traços angulosos, vasculhando meu estado civil, tentei encontrar algum fio que conduzisse ao que sou. Um dia, acreditei descobrir ser proveniente de uma família de príncipes berberes, judaizados pela Kahena, a rainha guerreira que fundou um reino judaico em pleno Atlas. Regozijei-me por sair do coração desse país. Uma outra vez, achei que era descendente de um pintor da Renascença. Recortei o artigo da enciclopédia Larousse e mostrei aos meus amigos as telas de meu avô. A filologia dava conta da transformação, e Sitboun, o melhor em latim, me aprovou. Chegou a assinalar-me um homônimo, um benfeitor de um poeta latino. Mas a ciência filológica é frágil e o passado, distante demais. Descender eu de uma tribo berbere, os berberes não me reconheceram, pois sou judeu, e não muçulmano, citadino, e não montanhês; levasse eu o nome exato do pintor, os italianos não me acolheriam, pois sou africano, e não europeu. Sempre voltarei a ser Alexandre Mordekhaï, Alexandre Benillouche, nativo num país de colonização, judeu num universo anti-semita, africano num mundo no qual a Europa triunfa. (Memmi, 2008, p. 111)

O romance apresenta o ponto de vista de um colonizado judeu, educado na cultura do colonizador, e que se vê em um embate em relação ao que ele é e à sua origem. Desse modo,

Embora A SS [A estátua de sal] não esteja em conformidade com o pacto autobiográfico proposto por Philippe Lejeune, no sentido de que esse texto memmiano não é uma coincidência entre autor-narrador-personagem, mas um personagem puramente fictício, esse romance permanece fundamentalmente autobiográfico. Ele pinta um quadro da sociedade tunisiana sob a colonização, do ambiente dos liceus franceses, do racismo latente que se materializa na crueldade das crianças. A SS é, portanto, transformada em um espelho que ora reflete o verdadeiro passado em sua nudez objetiva, ora reflete as contradições internas daqueles que se examinam por dentro, divididos entre a nostalgia lírica e a racionalidade implacável. A alienação do homem é gradualmente revelada. O escritor vê a si mesmo sofrer, mas ao mesmo tempo se liberta do que o está sufocando. Além disso, esse problema do nome, combinado com um permanente cabo de guerra e um constante sentimento de vergonha, acabará levando o personagem a questionar sua identidade, a uma metáfora existencial, a uma jornada de descoberta e reconstrução. (Fitouri, 2003, p. 209, grifos da autora, tradução nossa)[5]

No prefácio de Camus à edição norte-americana,[6] o escritor franco-argelino afirma:

Eis um escritor francês que não é francês nem tunisiano. E ele quase não é judeu, uma vez que em certo sentido, não gostaria de sê-lo. O curioso tema do livro que agora é oferecido ao público é justamente a impossibilidade em que se encontra o judeu tunisiano de cultura francesa de ser o que quer que seja de preciso. O rapaz cuja história é contada aqui não consegue se definir a não ser acrescentando às recusas que os outros fazem dele as recusas que ele próprio opõe ao mundo. […]
Todos nós, franceses e nativos da África do Norte, permanecemos, assim, o que somos, às voltas com contradições que ensanguentam hoje nossas cidades e sobre as quais não triunfaremos, se as evitarmos, e sim se as vivermos até o extremo. Pode-se então avaliar o valor que concedo, pensando assim, ao belo livro do sr. Memmi. (Camus, 1955, p. 11)

Camus fala de Memmi, do personagem do livro, Alexandre Mordekhaï Benillouche, e de si mesmo. A despeito do fato de que Camus não era judeu, a identidade mutilada pelo colonialismo atinge a ambos e causa a estranheza que percebemos em seus escritos e no modo como se apresentam como intelectuais públicos.

Os dilemas dos intelectuais diante da independência da Argélia e da Tunísia

Entendida pelos revolucionários como uma luta anticolonial que serviria de modelo para o fim do colonialismo em diversas partes do mundo (Fanon, 2021), a Guerra de Libertação da Argélia (1954-1962) foi um movimento emblemático, que não deixou de mobilizar a intelectualidade francófona em torno de debates que quem era contra ou a favor dos nacionalistas argelinos. A imprensa francesa de esquerda se mostrou maciçamente contra os métodos de tortura utilizados pelos franceses e a continuidade de seu domínio sobre a Argélia.

Uma das consequências em relação aos embates em torno da descolonização e das lutas anticoloniais para Camus e Memmi foi o afastamento de seus locais de origem. Em vista de seu posicionamento em relação à guerra, Camus se viu rejeitado, tanto na França quanto na Argélia, onde o movimento nacionalista era muito forte. O historiador François Dosse (2021) descreveu a agitação daqueles tempos, em ocasião de uma visita do escritor franco-argelino a Argel:

O próprio Camus faz a experiência das dificuldades para defender suas posições em Argel, cidade para a qual viaja ao ser convidado para fazer uma palestra, em 22 de janeiro de 1956, no Círculo do Progresso, não muito longe da Kasbah [cidade islâmica]. O delegado de polícia assume pessoalmente o serviço de ordem em uma atmosfera que apresenta indícios de agitação. A sala está lotada de europeus e, em torno do edifício, a tensão é extrema, visto que uns mil adversários começam a gritar “Forca para Mendès! Morte para Camus!”, “Morte aos judeus!”. Eles estão cercados por cordões de CRS e pela força nacional de segurança pública. À distância, mais de cem mil ativistas do FLN [Frente de Libertação Nacional] que tinham descido da Kasbah protegem a reunião de uma possível intervenção dos ultraconservadores da Argélia Francesa, alguns dos quais estão armados. Para além das filiações comunitárias, a composição da tribuna – presidida pelo escritor Emmanuel Roblès, francês da Argélia – inclui um père blanc [padre branco], um pastor e o doutor Khaldi, o qual fala em nome dos muçulmanos, ficando a impressão de que reina um bom entendimento.

Ferhat Abbas – futuro presidente da GPRA [Governo Provisório da República Argelina] – entra na sala e abraça efusivamente Camus, no momento em que pedras começam a estilhaçar as janelas do prédio. Camus prossegue seu discurso, acelerando o ritmo: “A tarefa dos homens de cultura e de fé não consiste em […] desertar das lutas históricas, nem em servir o que estas têm de cruel e desumano, mas em continuar a travá-las e em ajudar, por seu intermédio, o homem contra o que o oprime, em promover sua liberdade contra as fatalidades que o cercam.” A plateia aplaude com grande emoção, sem que seja registrado o mínimo avanço relativamente à procura de uma solução. Camus retorna à Paris e redige seu último editorial para L’Express, intitulado “Un pas en avant” [Um passo à frente]; as divergências com as posições de Jean-Jacques Servan-Schreiber sobre a Argélia e a reviravolta de Guy Mollet, em Argel, em 6 de fevereiro de 1956, vão submergi-lo no desassossego. Pela rejeição da violência e, sobretudo, dos assassinatos, ele abandona o jornal e refugia-se no silêncio, mas algumas de suas notas pessoais revelam seu mal-estar […]
No outono de 1957, Camus é laureado com o Nobel de literatura, o nono atribuído a um francês. Em seu discurso ao receber o prêmio, em Estocolmo, ele não pode mais manter silêncio e, emocionado, declara: “Tenho condenado sempre o terror, devo condenar também um terrorismo que se exerce às cegas, por exemplo, nas ruas de Argel, e que um dia pode atingir minha mãe ou minha família. Acredito na justiça, mas em seu lugar, vou defender minha mãe.” (Dosse, 2021, p. 414-416, grifos do autor)

Apesar de seus escritos conterem um claro engajamento político contra o colonialismo, Memmi teve de abandonar sua terra natal devido à ascensão do nacionalismo árabe. Em seu livro, Retrato do descolonizado árabe-muçulmano e de alguns outros, publicado na França em 2004, ele descreve os desafios que os países independentes tiveram de enfrentar para consolidar sua liberdade e se ajustarem à nova realidade que se apresentava. No entanto, de acordo com Memmi, os novos governos não conseguiram sustentar seu compromisso com a liberdade após a saída do colonizador, criando uma sociedade conturbada, envolta na corrupção e na pobreza. Diante disso,

Não haveria então escolha a não ser entre a tirania e a desordem permanente? O que fazer diante de uma doença aparentemente incurável, a não ser se resignar ou fugir? Diante desse futuro sem perspectivas, o descolonizado sonha com evasão: é, em suma, um candidato à emigração, um imigrante virtual no interior de seu próprio país, que lhe parece cada vez mais restrito e asfixiante. […] Os intelectuais devem pensar entre o exílio e o silêncio, isto é, a morte espiritual, a máscara ou a fuga. Definitivamente, haverá mais intelectuais no exterior, de preferência nas ex-metrópoles, do que nos países de origem. E, paradoxalmente, eles se expressarão mais livremente nestes países que os acolhem e que eles continuam a denunciar por hábito e por solidariedade a seu povo, já que neles é permitido, sem riscos, reivindicar. […] (Memmi, 2007, p. 95-96)

Penso que Memmi descreve aqui a sua própria experiência, a de judeu em um país majoritariamente muçulmano e a de um intelectual colonizado que imigra para a ex-metrópole, mas sem deixar de refletir sobre a condição de seu povo e de resgatar sua história. Por mais que Camus tenha sido bastante criticado, inclusive por Memmi, que em certo momento o enquadrou como um “colonizador de boa vontade” (Dugas, 2014, p. 1), acredito que sua contribuição para a compreensão dos efeitos do colonialismo é evidente, principalmente se buscamos refletir a partir da perspectiva de um intelectual que também foi afetado por eles. Alguns o apresentam como um “representativo da consciência ocidental em relação ao mundo não ocidental” (O’Brian, 1970, p. 103 apud Said, 2011, p. 212). Prefiro pensar em Camus e em Memmi como dois homens de fronteira, nem totalmente magrebinos, nem europeus, mas como aqueles que, através da experiência de ter vivido entre dois mundos, conseguem enxergar de fora, fato do qual advém uma angústia existencial e moral diante do colonialismo. Por isso, a literatura de Camus pode ser entendida como um exercício crítico das implicações da presença francesa na Argélia, realidade que originou os retratos analisados por Memmi, e que os influenciou pessoalmente.

Considerações finais

Este trabalho buscou compreender os diversos aspectos da influência do colonialismo e da cultura francesa na formação do escritor colonizado. Ao contrário de Memmi, Camus não produziu uma análise sistemática do fato colonial, mas procurou demonstrar na literatura as maneiras pelas quais a dominação francesa poderia se apresentar no cotidiano de seus personagens. A contribuição de Memmi, por outro lado, é indiscutível em vista de suas obras serem mais explícitas em relação a este tema. Contudo, Memmi e Camus têm muito mais pontos em comum do que díspares. A reflexão sobre o papel do intelectual colonizado encontra na experiência dos dois escritores modos de compreender como o colonialismo francês afetou a um deles.

Referências

BALANDIER, G. (1993). A Noção de Situação Colonial. Cadernos De Campo (São Paulo – 1991), 3(3), 107-131. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v3i3p107-131 . Acesso em: 18 jun. 2023.

CAMUS, Albert. Prefácio. In: A estátua de sal. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008 [1955].

______. O Primeiro Homem. Rio de Janeiro: Record, 2022 [1960].

DOSSE, François. A saga dos intelectuais franceses: à prova da história (1944-1989). v.1. São Paulo: Estação Liberdade, 2021.

DUGAS, Guy. Autour d’Albert Camus et du colonialisme, deux acteurs peu entendus: Albert Memmi et Jean-Pierre Millecam – IRIEC – Université Montpellier 3, p. 1-12. In: Rencontres méditerranéennes Albert Camus. Albert Camus en scène: tout n’est-il que théâtre. Avignon: Barthélemy, c2014.

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Notas

[1] “Experiências cruzadas” é uma referência à obra “Albert Camus, Albert Memmi, destins croisés: essai affectivo-littéraire (2018), de Hanania Alain Amar.

[2] Albert Memmi morreu em 2020, na França, aos 99 anos (Judaken, 2021).

[3] No fim da edição brasileira do livro O Primeiro Homem, o editor anexa duas cartas: uma de Camus e a outra de autoria do professor infância do escritor, M. Germain. Na carta, escrita após ganhar o prêmio Nobel, em novembro de 1957, Camus agradece a dedicação de seu ex-professor. M. Germain, por sua vez, lhe envia uma carta em abril de 1959, expressando o orgulho e a saudade do ex-aluno.

[4] Ainda segundo Geske, “A narrativa tem então todo o sabor de uma autobiografia, uma maravilhosa autobiografia, visto que se concentra principalmente na infância do personagem, com o qual os leitores podem também se identificar. Porém, não se trata de uma autobiografia, mas do que Spiquel chamou de transformação do real em ficção, procedimento que vimos sucintamente em algumas obras de Camus e que seria levado ao limite em Le Premier Homme.  Jacqueline Lévi-Valensi, uma das maiores especialistas na obra de Albert Camus, assinala que a relação que o escritor estabelece com o real, principalmente com sua experiência pessoal, alimenta toda a sua obra: “c’est à dire qu’il ne conçoit alors le roman que comme expression du réel” (1982, p. 169). Para ela, esse procedimento do processo de criação camusiano responderia ao mesmo tempo a exigências estéticas e morais: como permanecer fiel a um mundo que se abandona? Como permanecer fiel a esse mundo da infância, pobre e iluminado, quando o adulto conhece uma carreira de sucesso como escritor fora da Argélia?” (Geske, 2010, p. 163)

[5] No original: “Bien que La SS [La Statue de Sel] ne soit pas conforme au pacte autobiographique propro´se par Philippe Lejeune, en ce sens qu’il ne s’agit pas, dans ce texte memmien, d’une coïcidence entre auteur-narrateur-personnage mais d’un personnage purement fictionel, ce roman reste fondamentalement autobiographique. Il nous peint une fresque de la societé tunisienne sous la colonisation, de l’ambiande des lycées français, du racisme latent qui se matérialise à travers la cruauté des enfantes. La SS se transforme ainsi en un miroir qui, tantôt renvoie le passé vrai dans sa nudité objective, tantôt reflète les contradictions internes de celui qui se scrute de l’intérieur, iraillé entre la nostalgie lyrique et la rationalité implacable. L’aliénation de l’homme est peu à peu dévoilée. L’écrivain s’y regarde souffrir mais en même temps, se libère de ce qui l’étouffe. Par aillerurs, cette problématique du nom, associée à un tiraillement permanent et à un sentimentde honte constant va vientôt aboutir, chez, le personage, à une interrogation de l’identité, à une méthaphore existentielle, à un parcours de découverte et de re-construction.”

[6] O prefácio está presente em português na edição brasileira do romance, publicada pela editora Civilização Brasileira, em 2008.

Sobre o autor

Daiani Barbosa

Historiadora (UFRJ). Mestre e Doutoranda em História Social (PPGHIS/UFRJ). Pesquisadora do NIEJ/UFRJ, com os temas judeus magrebinos, racismo e antissemitismo. Editora da Revista Ars Histórica. Pesquisador do Grupo de Pesquisa Diálogos da Diáspora - Racismo e Antissemitismo, do Labô.