Nossos mestres ensinaram: demônios não podem ser consultados no Sabbath.
Rabbi Yose disse: Isso é proibido mesmo em dias da semana.
Talmude Babilônico, Sanhedrin 101a
Nós não consultamos demônios no Sabbath,
pois nesse dia a Shekhinah brinca com eles
e eles descansam por todo o seu trabalho
de trazer o inesperado
e indesejado
e rir no seio do Infinito.
Shekhinah,
nesse dia de semana,
nos deixe pegar os seus demônios emprestados
para que possamos conhecê-los melhor
E quanto aqueles que dizem que é proibido,
ajude-os a enxergar os demônios
que eles já abrigam.
(Jill Hammer, 2016, p.30, trad. nossa)[1]
Um gesto para o fim
Em um dia não muito distante, mas nem tampouco recente, acho que eu soube como fazer surgir um golem[2] com terra, palavras mágicas e sabe-se lá mais o que com as minhas mãos. Esqueci, porém, e lentamente, golem se tornou mais uma palavra difícil de ser mastigada pela minha boca, causando quase um susto ao ser lentamente enunciada. Já em uma noite quente de verão, depois de aprender que habitávamos o tempo do inverno e das árvores secas, embora o sol estivesse a pino do lado de fora, encontrei um shay’d. O rabino Gershon Winkler nos conta que:
“(…) um shay’d é um ser do crepúsculo, meio mortal, meio espírito, criatura do limbo, dançando no abismo entre os mundos e derivando o seu poder do vácuo, da Ausência (…) é uma criatura que muda de forma que se manifesta e floresce dentro do vácuo; é uma entidade que floresce no crepúsculo do esquecimento, no abismo indefinido entre estória e tradução (Midrash Bereisheet Rabbah 7:7; Maharal, Derech Chayyim, folio 236)” (Rabi Gershon Winkler, trad. nossa).
Suponho que ainda possamos caminhar com golems e com shay’dim. Tenho a certeza de quem está no estado de quase-sonho: eles estão ao nosso redor. A consciência é dispensável até certo ponto. Talvez escrever isso signifique tornar tangível a presença desses seres-outros que nos aterram nesse mundo.
Apesar de que, pensando bem… de qual mundo mesmo estamos falando?
Eu não me lembrava de nada e esse sonho-lembrança morava em algum esconderijo de mim até eu me abrir para me tornar um espaço de extravasamento das palavras. Eu digo isso como um aviso: entenda que há sonhos que são lembranças e sonhos que são premonições e que os pesadelos, muitas vezes, são ambas as coisas. Eu só lembrei do que vivi porque sonhei. Como é shabbat, a separação entre os mundos está mais tênue e embora eu não tenha acendido as velas ou feito as brachot, eu sinto algo abaixo do meu umbigo, na direção da minha coluna, se esgueirando pelos meus braços. Não há nem anjos, nem demônios, mas seres que carregam a mensagem da mesma voz ausente que se contraiu para parir mundos e deixou algo de si ir embora para que houvesse espaço entre as palavras.
É Shabbat. Então eu me abro para receber essa mensagem, e me preparo com cuidado para me transformar em uma casa de fogo e de ar. Deito e me afundo, e deixo o entrelaçar das minhas costelas buscar no ar pelas faíscas e suspiros que escorrem entre as persianas. Estou quase adormecendo e, só assim, as palavras me inundam e me comem com fartura.
O tempo começou em uma noite, não muito diferente de qualquer outra, mas singular. Era o entardecer, não qualquer um, mas aquele definido pela sua unicidade e fugacidade. Não posso alcançá-lo mais, nem mesmo com as palavras. Especialmente as palavras. Talvez as imagens sejam inimigas mais justas. Quando a primeira estrela se tornou visível no céu, algo começou. Talvez esse algo me contivesse, mas só sinto que habitava uma impossibilidade. Ela era formada por um líquido âmbar, que se mesclava com um vermelho-sangue, dependendo de como a luz batesse. Havia o odor das velas queimando, a escuridão de um coração batendo e líquidos viscosos azulados, que cintilavam como escamas de uma serpente e que se fechavam como os espaços vazios do mar.
Eu vivia ali como que por uma vírgula, mas não precisava me segurar. Eu era algo fluído e poroso, não existia eu. Havia apenas o impossível, pois é apenas nele que tudo isso parece fazer sentido. As cores brincavam entre si em diferentes cremosidades, temperaturas e humores. Ao meu redor, havia shaydim, os seres do crepúsculo. É preciso ter cuidado com eles por aqui, mas naquela gota condensada do impossível, nós vivíamos lado a lado. Não havia sussurros sobre dybbukim[3], mas falas sonoras, risonhas e amedrontadas. Havia um zumbido e frutos cheios de mel. e por lá haviam marcas dos passos de Serach[4], que carrega ossos e segredos consigo.
Eu sentia também o ir-e-vir de melodias que ainda iriam acontecer. Aquele casulo de mundo, aquele universo de respiração solta, aquele abraço apertado, ele continha quase tudo, mas falo quase, porque sempre havia a possibilidade de parir um novo mundo, de uma contração ser a perda que possibilita tudo e de novas palavras se formarem junto da saliva e do suor dos nossos corpos. Era quente e frio ao mesmo tempo, acho. Era a transição do fim que nos fez inteiros, sensíveis e buscando argila para modelar algo diferente de nós mesmos.
Eu não lembro direito, mas as imagens me acometem como visões de um futuro que escorre de forma cíclica pelas nossas luas. tishrei, cheshvan, kislev, tevet… aprender o tempo cantando sal, rugas e zumbidos. Eu vejo vultos, cores fechadas, uma chama tremendo, um rosto molhado iluminado por uma vela na mão de uma mulher que queima, com toda a paixão e severidade desse mundo, e essa mulher cobre os cabelos com a sombra da lua e sorri, mas a sua vela é a sua lágrima e os sussurros circulam o seu corpo e, como uma torrente, ela é em si mesma uma cisão no tempo.
Acordei de um sonho e fiquei me perguntando se, na verdade, não havia despertado de um pesadelo. As lembranças eram tão difíceis de serem acessadas que cogitei serem feitas de lama: nós conhecemos bem a lama e seus poderes de transmutação. Hesito nos ecos de vó Eva e vó Hannah. Minha avó conta que tinha medo de vó Eva quando criança, que ela era uma mulher taciturna e brava. Eu me pergunto quais músicas, histórias mágicas e superstições ela carregou consigo. Talvez, muito provavelmente, nenhuma. Ou não. Eu posso imaginar o som de sua risada, talvez, mas aprendi a me contentar, por muito tempo, com lampejos de memórias sobre uma senhora cheia de pesar. Eventualmente, vou amalgamar a ela uma foto dela velhinha, vestida de preto com um lenço na cabeça, sentada em um banco olhando para o chão. Eu não vejo essa foto há muito tempo, mas meu corpo inscreve no seu rosto um sorriso, daquele tipo que diz “eu sei de algo, e não vou te contar”. Eu penso no medo e o deixo escorrer para encontrar o que era intraduzível. É impossível, evidentemente, e por isso tento com ainda mais afinco. O vazio me encara de volta, me desafiando a tentar o azar mais uma vez.
você morreu jovem
e não olha para o registro encenado,
mas agora eu encontro nos seus olhos
algo além de tristeza.
há uma certeza. um futuro que foge
de qualquer captura, talvez uma promessa.
e eu me agarro nela.
Talvez eu escreva isso tudo, pois escuto desde que me entendo por gente sobre ausências permeadas por ressentimento. Ressentir, sentimento duplo: que sobe de volta pela garganta como refluxo. Talvez eu esteja buscando apenas uma razão boa o suficiente para justificar essas palavras, contudo sei que elas não têm justificativa para além delas mesmas e, principalmente, de tudo que não podem expressar. Recosto-me, então, na pedra no meio do caminho que tudo isso se tornou e sinto que podemos começar do que já se findou.
Vamos fingir que estamos dançando?
Entre a terra e a água, cantarolei em algum canto palavras em hebraico para me acalmar. Eu não falo hebraico, se devo escrever aqui com (alguma) honestidade, ele é rudimentar. Estou me guardando para escrever isso há muito tempo, mais tempo do que imagino. Sento com a coluna reclinada, as vértebras tortas evocando a nossa condição comum de estranheza em relação a linhas retas. É o fim de um dos ciclos do ano, a lua mingua em elul de 5783 nos encaminhando para um novo ano e eu preciso encarar a impossibilidade de escrever algo que desvia e atravessa palavras.
Sei que falharei e por isso peço que movimentem seus corpos nessa leitura, porque como nos conta Leila Machado, a leitura nos percorre, não fazendo apenas parte de uma lembrança: a leitura é incorporada. Esse é um ensaio falho de incorporação de mundos e leitura de ausências. Se a leitura é incorporação, a escrita, por conseguinte, é espaço de ato de transformação, princípio de ação: “aquele que escreve se transmuta em meio a esse emaranhado” (Machado, 2004, p.149). Nós podemos, então, falar da escrita enquanto encontro com a alteridade, a escrita como um “outramento” de si mesma, um outro de outro e, porém, não há nem Eu, nem Outro, apenas um entre, um espaço de interregno onde se habita. “A escrita percorrida por algo que não nos diz respeito e nos é próximo, por algo que se relaciona a nós e nos é distante. Algo que é o próprio desmanchar de mim mesmo. Algo que nos incita a inventar outras formas ao conjugarmos os tantos verbos da nossa vida. Um desafio, uma provocação, o ressoar de uma questão em nós: o que tenho escolhido fazer de mim?” (Ibidem).
(…) não que o mundo porvir exista,
mas todos os mundos existem ao mesmo tempo
não me importa mais se não é essa a tradução
eu queria saber das músicas
dos nomes
do anjo da morte enganado
e das mulheres que eram possuídas por dybbukim
Aguardo com meu corpo vivendo o vai-e-vem da leitura nessa pergunta. O que tenho escolhido fazer de mim? Reflito sobre a média-metragem que acompanha esse ensaio: como escolhi conjugar vida, memória, poesia e imagens nela? Por que escolhi fazê-lo? Como não escolher? Esse ensaio é permeado pelos ensinamentos construídos nos espaços que habitei e nomearam tempo, diáspora judaica e afeto. Ensaio o movimento dessas palavras no sentido mais literal de uma tentativa. Não pretendo construir respostas.
De encontro nesse coletivo, meu corpo passou a se transmutar no ritmo de um tempo espiralar. Elíptico. Aparentemente, o dia começa no entardecer e os ciclos acompanham os ritmos agrícolas médio-orientais, com lendas e mitos de histórias que acontecem todas ao mesmo tempo. O tempo judaico parte de muitas noções divergentes e sobrepostas de um acúmulo de milhares de histórias em incontáveis espaços-tempos diferentes. Ele não existe em uniformidade e consenso, mas suspira no pé do meu ouvido para dançar sob outra lua, outros nomes, para que o corpo se abra para o que mora na ponta da língua. Como Rebeca me ensinou, há saberes que nunca deixaram de estar conosco. O tempo faz com que nos situemos em outra história e eu tento entender como vivê-la. Viver essa história é caminhar na linha da insustentabilidade, mas a imaginação é um caminho fértil.
O experimento audiovisual que acompanha surgiu de forma inesperada a partir de uma versão inicial apresentada em uma disciplina sobre Antropologia Visual ministrada pela professora Thais Blank na graduação em Ciências Sociais da FGV CPDOC no segundo semestre de 2021, durante a pandemia de COVID-19. Ele foi germinado entre tevet e shvat de 5782 e, dentre as poucas certezas que eu tinha, uma delas era que não queria construir algo com narrativa, ou elaborar uma justificativa; e continuo habitando essa incerteza. Preciso falar de tempo e diáspora, mas não acredito ter linguagem e isso é um sinal de anunciação para que algo possa acontecer. O filme só foi possível pela construção coletiva com temporalidades judaicas na kehilá judies ao sul, coletivo judaico de mulheres e pessoas não-binárias em que me encontrei aprendendo e inventando em conjunto.
“não é dado a nenhuma coisa no mundo recriar-se em si mesma e alcançar uma nova forma sem que alcance antes disso o Nada, ou seja, “a força do entremeio”. nenhuma criatura pode existir nela, ela é a força anterior à criação, ela chama-se caos” (Buber, 2003, p.42).
Há uma porta aberta para onde a força do entremeio dorme atenta e temos a oportunidade única de aprender com a sabedoria amalgamada por incontáveis mãos em debate. O mundo está acabando dentro dos regimes violentos de produção de sentido em que vivemos. Ele precisa acabar, e precisamos conseguir navegar. A poeta judia estadunidense Adrienne Rich nos conta que a escrita está relacionada ao ato de revisão, isto é, olhar novamente, e com olhos frescos enxergar em um texto antigo uma nova direção crítica e interpretativa. Para Rich, o ato de revisão é um ato de sobrevivência para mulheres (e, podemos acrescentar, outros corpos dissidentes): “precisamos conhecer as suposições nas quais estamos encharcadas para conhecermos a nós mesmas e isso é um ato de recusa de autodestruição” (Rich, 1972, p.18).
Penso nas considerações de Amos Oz e Fânia Oz-Salzberger em “Os judeus e as palavras” (2015) sobre o dever judaico de engajamento com as palavras, com o dissenso, com a interpretação, com os vazios entre as letras e com as escolhas que informam todo e qualquer texto: “na tradição judaica todo leitor é um revisor de originais, todo aluno um crítico, e todo escritor, inclusive o Autor do universo, incorre em grande número de questões” (Oz e Oz-Salzberger, 2015, p.6).
Responder perguntas com mais perguntas, porém, é terrivelmente difícil.
O teórico social jamaicano-britânico Stuart Hall nos ensina que a identidade é um posicionamento, um processo nunca completado, algo sempre vindo a ser. Ela é condicional e contingente. Na medida em que falar de identidades, a princípio, evoca noções de passado histórico e origem, elas mais se relacionam com o uso de recursos históricos, culturais e linguísticos para produzirmos o que estamos nos tornando. Como ele descreve:
“[As identidades] Tem a ver não tanto com as questões “quem nós somos” ou “de onde nós viemos”, mas muito mais com as questões “quem nós podemos nos tomar”, “como nós temos sido representados” e “como essa representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios”. Elas têm tanto a ver com a invenção da tradição quanto com a própria tradição, a qual elas nos obrigam a ler não como uma incessante reiteração, mas como “o mesmo que se transforma” (Gilroy, 1994): não o assim chamado “retorno às raízes”, mas uma negociação com nossas “rotas”. (Hall, 2008, p.91, grifo nosso).
Sei, então, que estou negociando minhas rotas em um mar bravo poluído, múltiplo e talvez incompreensível. Reflito sobre como o mundo já acabou várias vezes em contextos variados e em tempos diferentes para judeus, judias e judies e eu pouco saberia dizer, há algum tempo, com a prontidão que gostaria, das estratégias de manutenção da vivacidade e do riso. Como viver o atravessamento com o corpo aberto e não apenas lamúrias? Há muito o que aprender.
Penso na contraposição apresentada pelo teórico judeu franco-tunisiano Albert Memmi sobre o mal-estar de se ser judeu (malheur d’être juif) em razão do antissemitismo e o desejo de viver judaico (vouloir-vivre), e não só sobreviver.
“Considerando todas as coisas, existe um desejo judaico de viver; dadas as dúvidas, hesitações, impaciência, maquiagens e recusas. Eu descubro isso em mim mesmo, eu descubro isso ao meu redor, nos outros indivíduos do corpo judaico. (…) Não nego a ansiedade, o sofrimento, as neuroses tentadoras, mas não deixe que isso seja tudo. Além disso, não seria paradoxal que, afligido por tal fúria de autodestruição, o judeu só conseguisse preservar-se por um certo tempo? Não deveríamos acreditar, pelo contrário, que ele foi dotado de uma vontade incomum de sobreviver, tendo resistido a tal fúria, a sua e a dos outros?” (Memmi, 2015, p.684 e p.686, trad. nossa)
As histórias judaicas, para já mantermos tudo no plural, não podem ser reduzidas a história do antissemitismo moderno tal como o entendemos, ou a perseguição e opressão em outros contextos. Falar de judeidade necessariamente implica em atravessar um múltiplo e diverso compêndio de experiências. Elas, em si mesmas, não podem ser resumidas: são diferentes demais entre si para serem contidas.
Em tempo, a consolidação do processo de embranquecimento judaico nas últimas décadas no ocidente afeta muito como, muitas vezes, se pensa nessas histórias, em termos eurocêntricos e que ignoram tanto a alteridade, como a potência dessas experiências. O sociólogo argentino Santiago Slabodsky indica que o novo retrato civilizacional dos judeus após o Holocausto relaciona-se com a “expiação de pecados” do Ocidente Cristão que reinscreve os judeus no mesmo paradigma dual que levou ao genocídio. É preciso compreender que durante quase toda a totalidade da modernidade, os discursos europeus retrataram os judeus enquanto outros, não-ocidentais, com um retrato que oscilava entre primitividade assimilável e barbarismo irremediável. As narrativas sobre a barbárie serão encontradas através do espaço, tempo e de diferentes inclinações ideológicas: muitos defensores de valores liberais consideravam os judeus como ameaças para a civilização, muitas vezes posicionando-os enquanto conspiradores determinados a destruir a civilização ocidental (Slabodsky, 2014, p.4).
Dentro da configuração mais recente, o judeu normativo é entendido como a vítima quintessencial da história, mas deslocado em sua história de qualquer outro processo de racialização, da construção enquanto Outro e da própria substância da sua história. Isso gera, segundo o sociólogo, a universalização da história europeia como mundial, e de uma narrativa específica da história judaica na Europa como a história judaica global (Ibidem, p.7). Apesar, assim, dos judeus terem sido vítimas da civilização e não da barbárie, o Ocidente se redimiria enquanto protetor e salvador dos, agora, judeus ‘civilizados’. Entre outros efeitos, podemos pensar também no apagamento da história do antissemitismo e sua gramática de mundo que continuam muito vivos.
Ou, como o sociólogo franco-argelino Shmuel Trigano (1990) indicou para pensar sobre os judeus e a revolução francesa, reduz-se o judeu ao antissemitismo, entendido como um mal aistórico que deve ser expiado. Nesse processo, o judeu deve ser redimido de si mesmo e de sua diferença, afinal, se ele é o produto da perseguição, ele não tem história, cultura ou vida própria. Para o judeu ser totalmente convertido em humano – e a palavra “conversão” não é acidental -, é preciso que a sua judeidade, na sua historicidade, multiplicidade e inadequação às categorias limitantes modernas, fique do lado de fora. Há de se questionar quanto a totalidade da eficácia dessa conversão. A vida própria continua em sua inconveniência.
O embranquecimento de parte dos judeus após o Holocausto produz um quadro peculiar, pois até “ontem” na história da modernidade/colonialidade, quando falamos dos judeus, eles assumiam um lugar irrevogável do Outro. Bárbaros, nos termos de Slabodsky, desde 1492, marco de origem do regime colonial/moderno, com a expulsão dos judeus da Península Ibérica e a instauração da Inquisição, até o fim do Holocausto. O processo de reclassificação racial fica datado entre as décadas de 1940 e 1980, havendo uma incorporação, em algumas instâncias, ao menos, pelo Ocidente. na contemporaneidade, encontramos, então, uma ambivalência. De um lado, há a continuidade de diversas formas de antissemitismos, e ser judeu/judia/judie continua a ser atravessado pela alteridade, mas há conjuntamente a produção de judeus que serão percebidos e transitarão, em grande medida, como pertencentes ou mais próximos do imaginário da civilização.
Mais de “dentro” do que “fora”, apesar da história muito recente, há a emergência de uma popular e violenta ficção, tornada realidade dentro do imaginário, em imagens incongruentes com a memória recente sobre o que judaico poderia significar. No último século, emerge uma eterna “civilização judaico’-cristã”[5] que consolida a imagem de uma aliança e pertencimento judaico ao Ocidente que, pelos últimos séculos, tratou efetivamente os judeus como um dos seus bárbaros em complô pela destruição da “civilização” (Slabodsky, 2014). Nesse processo, os judeus na diáspora na Europa são inseridos em um processo civilizatório marcado pela violência que, em sua constituição e história produziu-os como bárbaros, em um longo percurso que irá encontrar o seu próprio genocídio. A história do antissemitismo europeu é apagada e a história dos judeus que nunca na Europa pisaram é duplamente apagada e ignorada.
Escrevo no Brasil a partir de um corpo branco e escrevo com esse atravessamento, beneficiando-me dos privilégios advindos dessa incorporação, considerando o contexto de racismo sistemático e fundante dessa terra colonizada brasil, que produziu e continua a produzir o genocídio e violência física, psicológica, simbólica e espiritual sistemáticos de suas populações originárias e população negra. tanta violência escapa registro.
Penso no paralelo evocado pela artista Rebeca Tolmasquim/De Dentro da Minha Costela (2022):
Apenas uma sala de Auschwitz é digna de visitação judaica, a casa do Yad Vashem, nessa sala há um enorme livro, maior do que eu, uma humana de porte pequeno, com o nome de todas as pessoas que passaram pelo campo de extermínio. No Brasil sabemos apenas o número de pessoas transportadas nos navios negreiros, por ser registro de transação comercial, e nem os números sabemos de indígenas assassinados pelo Estado-Igreja que nos coloniza, mesmo assim, sabemos. Sabemos que há vida, há organização e há tentativa de apagamento, assassinato e destruição. Saber não é suficiente, é necessário escavar e comprovar, mas em cima dos cemitérios construíram cidades de concreto e cruzes de ouro, trocaram até as máscaras dos deuses para confundir o caminho de volta para casa. (…) Nós não temos dimensão do registro que destruíram. Nós não temos dimensão do registro que destruíram. Seja o que for, essa é a maior dor, o motivo de eu sonhar com os arames farpados, as almas que ali ficaram presas. No meio do caminho. Eu sei de tudo, pois estava quando a história começou. Eles apagaram o registro. Precisamos lembrar. Falta palavra. E eles ainda queimaram o registro. Nos apropriaram em símbolo, em mártir, não-vivo. Mas o fogo já está avisado. Sempre esteve. A diferença é que a partir de agora só romantizaremos a vida e a dignidade, não a escassez da superação. Eu sei de tudo, mas não sei falar o que sinto. Invento as verdades e bordeio os esvaziamentos. O fútil não é ruim, ainda é material. Superficialidade que incomoda. O problema é que superficialidade é condição, o registro foi destruído. (Tolmasquim, 2022, p.19-20)
Tzimtzum
Entre galut (exílio) e tzfutzot (dispersão), nos contraímos em tzimtzum para criar espaço para o que ainda virá e não podemos nomear. Nem tudo deve ser nomeado: boa parte do mundo é intraduzível para a linguagem que uso aqui e especialmente para mim. Tzimtzum, palavra que não faz parte do meu vocabulário, conceito da Kabalá, a tradição mística judaica, mas que incorporei no sentido literal de buscar criar espaço através da contração de si para que algo pudesse surgir
eu queria encontrar memórias subterrâneas, subcutâneas, cantando murmúrios em vísceras, sangue, órgãos desfeitos em poros, vibrações de risos, músicas (mas elas não são cheias de lamento?), danças, florescimentos, histórias alegres. Tocar com dedos trêmulos um vidro quebrado que reverbera em verbo – o que é esse devir diaspórico? encontrar feridas e fendas cheias de pus, bem vindes aos traumas coletivos… chega. é preciso falar de dor, mas eu quero sentir reconstruída uma colcha de retalhos, um mosaico, um niggun eterno, feito de alegrias e pequenas coisas que nos mantém múltiplos, vivos. eu quero traçar os mil caminhos, trilhas, espaços de fuga. eu quero me perder, mas já perdemos demais. não há caminho para fugas.
Em “a sacralidade do crepúsculo”, de 2006, o Rabino Reuben Zellmann nos lembra sobre a potência da tradição judaica sobre os espaços-tempos e pessoas que habitam o espaço do entre. Ele recupera como a tradição judaica reconhece o espaço-tempo do meio, indefinível pelas normas binárias, tal como discussões talmúdicas sobre tumtumim (pessoas que não são definidas nem como homens, nem como mulheres) e andróginos. Existe um repertório dentro da tradição judaica rabínica que pensou pessoas que transcendem e escapam as definições fechadas de sistemas de sexo-gênero binários e as disposições legais e práticas que se aplicariam a essas pessoas (Schleicher, 2011; Strassfeld, 2022).
Na contemporaneidade, esse repertório tem sido abordado por pessoas judias para se pensar identidades trans, não-binárias e intersexo: um caso interessante disso, por exemplo, é a zine TimTum: a Trans Jewish Zine [TimTum: uma zine trans judaica] (1999) de micha[6]. Não busco fazer aqui uma breve recuperação histórica dessas categorias. Abro os ouvidos, porém, para o que outras pessoas têm criado e inventado com elas e com os ecos, silêncios e falas de uma tradição discordante. O Rabino Zellmann traz, principalmente, a sabedoria sobre o crepúsculo, o momento etéreo de encontro entre a luz e a escuridão, para acessarmos as fugas do binário na tradição judaica:
“Rabino Yosi disse: O crepúsculo é como um piscar de olhos quando a noite entra e o dia parte, e é impossível determinar sua duração. Nossos rabinos acreditavam que o crepúsculo tinha um poder grande e único. Os demônios eram abundantes nesses minutos entre a noite e o dia. Era-se especialmente vulnerável às muitas forças do mal. Nossos sábios, de grande intelecto e tremendos dons espirituais, parecem ter tido um pouco de medo daquilo que não conseguiam definir (…) Mas, em última análise, muitos deles reconheceram que não conseguiam traçar uma linha simples entre um e outro. Esse lugar intermediário entre a luz e a escuridão nunca poderia ser delimitado. Não era dia e não era noite. Crepúsculo era algo completamente diferente. Em vez disso, os rabinos ensinaram que o crepúsculo e o amanhecer são os melhores momentos para orar (…) Eles concluíram que esses momentos intermediários e indefiníveis são quando nossas orações têm maior probabilidade de serem ouvidas. O lugar intermediário que os assustava era também para eles o lugar onde os milagres eram mais prováveis, onde as forças divinas surgem, onde a transformação é mais possível. Em vez de encerrar a hora do crepúsculo, eles a abriram e a elevaram. Não é um lugar intermediário degradado. É excepcionalmente sagrado”. (Zellman, 2006, p.3, trad. nossa)
O não-lugar é sagrado e talvez isso possa ser um ponto de recolhida. As experiências que escapam esses enquadramentos também o são.
Passei a me deixar me atravessar por esse tempo-e-lugar de estar em diáspora quando escrevo, e invariavelmente acabo caindo mais no mar do que na terra, mais no ar do que no solo, mais no voo que nunca acaba do que no pouso. É elul e a palavra teshuvá me conta do movimento sem fim de retorno a ser experenciado. Entornar? Eu me seguro como nesse quase se a minha vida dependesse disso. É preciso sentir que o mundo mareje, que você afunde e que as correntezas te levem. Assim me disseram, porque eu não poderia haver tirado isso da minha cabeça.
Os níveis da interpretação textuais nos ensinam a sempre subverter a imagem inicial e ir além. É possível retornar para ruínas? E é possível retornar para memórias de palavras desconhecidas? Para gestos que nunca terminam de acontecer? Para movimentos que foram brutalmente interrompidos? Violentamente inscritos no corpo do tempo? Daquilo que só é alcançável no entre, naquele espaço que passa a perna no tempo?
A palavra emet é escrita na testa do golem. Alef-mem-tav. A verdade é composta por todas as composições das letras do alef-beit e os vazios que residem entre elas. A verdade sem o começo é met, morte, e daí advém muito da magia da lenda do golem. Lawrence Kushner (1990) nos lembra que o alef é o som que se faz antes de se fazer qualquer som. Alef é o fogo que arde sem queimar. Sem mem, temos im, “se”, a possibilidade. Mem é terra e água: é midbar, a vastidão, o deserto. Mem também é a sustância da vida. E tav? Tav é um espaço de partilha entre pessoas e o divino. Kushner (1990, p.75) também nos conta de uma lenda de um rabino que dizia que tav era o começo de tich-yey, você deve viver, e tamut, você deve morrer. tav é a letra que pode ser ambos.
O tempo é impossível e, por isso, deve ser vivido. Se o tempo na tradição judaica é uma espiral ascendente, em que elipse ficamos? O mar-oceano está nesse não-lugar que escapa fronteiras apesar das categorias; que reside apesar das bordas, se desdobrando de oceano para mar na costa, vivendo de fluxos de rios; escapando no riso de quem sabe que quanto mais tentam entendê-lo, mais se confundem. O mar bate, vai e volta. vai e volta. É quase um refluxo inacabado e impossível de se repetir.
Estar no gerúndio que não existe; nas línguas que se desfazem em esporos, mas que nunca deixam de viver. O tempo não é universal. É particular. Pulsa. E cada tempo conta histórias e faz a vida desaguar em algum mundo. Em que mundo ainda podemos desabar? Em qual mundo queremos escorrer?
talvez peguem uns pedaços distorcidos; talvez queimem os seus livros e roubem as suas práticas. talvez falem que gostam muito de você (o delírio que se você achar isso e fizer aquilo… nunca acredite muito quando há condicionais para o pertencimento. há algo de errado quando reconhecer o outro implica em partir da similitude. que possamos nos reconhecer em nossas plenitudes a partir das nossas diferenças.)
Eu não soube responder vários porquês da primeira versão desse filme, e abandonei a tentativa na hora de sentir a sua segunda iteração. O motivo das velas de Chanukah, o porquê de o mar criar a certeza da incerteza e do desconhecimento, porque a lua orienta a vida junto do sol. Aprendemos a construir sentidos para os ciclos das luas e suas geometrias impossíveis, os tempos invertidos…, mas onde as estações do ano vão parar com a crise climática, afinal… as águas têm que desaguar em algum lugar? E depois eu fui descobrir que a diferença entre mar e oceano é que o mar é cercado pelas terras, enquanto o oceano cerca as terras. Vê a diferença? Se o mar está na costa, o oceano possibilita o atravessamento, o retorno às fendas, aos espaços sem luz em que a vida produz a luz. porque ela precisa produzir. Não há escolha senão viver e enxergar o que a luz do sol jamais pode apresentar.
פשט, רמז, דרש, סוֹד. p’shat, remez, d’rash e sod. pardes. Existem quatro níveis da interpretação e eu não posso dizer que sei tanto deles como gostaria ou que sei vivê-los com o coração, mas estou tentando. Qualquer explicação precisa terminar em vírgula e jamais em ponto. Eu li que teshuvá, mesmo se tratando de reconhecer erros, de retornar apesar de todos os apesares, deve ser feita com felicidade.
não vou escolher uma palavra só,
na torá mesmo, antes de haver criação pela palavra,
havia escuridão sobre a face
do abismo e havia algo intraduzível sobre a face das águas
e eu sempre me confundo nessas coisas
mas eu descobri que eu não posso deixar de marejar
se eu quiser encontrar as tramas do entre
O que é meio redundante, porque a impossibilidade do retorno reside na sua tangibilidade através da imaginação e invenção.
bubele, não chore
ela não cabe no seu coração
nem no seu corpo
ela nos conta, com seus olhos vividos,
anciões, acompanhada pela shekináh
tudo que não podemos saber
e o mistério é o último nível da interpretação, não?
o segredo?
ah, bubele,
agora sou eu quem estou chorando
então nos sentamos em roda,
e nos colocamos a costurar
com palavras e silêncios
tudo o que ainda não podemos alcançar
com a ponta dos dedos
e com a imaginação
Referências
ANOLIK, Ruth Bienstock. Appropriating the Golem, Possessing the Dybbuk: Female Retellings of Jewish Tales. Modern Language Studies, p. 39-55, 2001.
BUBER, Martin. A Lenda do Baal Schem. São Paulo: Editora Perspectiva, 2003.
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Notas
[1] No original: Our masters taught: demons may not be consulted on the Sabbath. Rabbi Yose said: This is forbidden even on weekdays. Babylonian Talmud, Sanhedrin 101a We do not consult demons on the Sabbath, // for on that day the Shekhinah plays with them // and they rest from all their labor of bringing on the unexpected // and undesired // and laugh at the breast of the Infinite. // Shekhinah, // on this workday // let us borrow your demons // so we may come to know them better. // As for those who say this is forbidden, // help them see the demons // they already harbor.
[2] Segundo Anolik (2001, p.41), as estórias do golem têm origem na literatura rabínica e tornaram-se parte da tradição folclórica judaica. A mais famosa versão é a lenda do Rabino Judah Loew, o Maharal de Praga do século XVI. Os elementos comuns nas várias versões da lenda são: o golem, um poderoso humanóide feito de terra é criado para salvar o povo judeu de um perigo externo; ele é vivificado por um poderoso rabino usando o poder do nome de D’us inscrito em um papel e as letras em hebraico Alef, Mem e Taf, compondo a palavra emet que significa ‘verdade’, são inscritas às vezes na sua testa.
[3] De acordo com Anolik (2001, p.47), a figura transgressora do dybbuk (que significa “apego”), derivada da noção cabalística de transmigração de almas. Ela conquistou pela primeira vez o imaginário popular na Europa Oriental Judaica no século XVI. As implicações populares desta crença eram que qualquer comportamento transgressor ou desviante (frequentemente de mulheres, como demonstra Rachel Ellior em Dybbuks and Jewish Women in Social History, Mysticism and Folklore) poderia ser atribuída à possessão espiritual.
[4] Serach bat Asher é uma personagem da Torá que floresceu na tradição midráshica assumindo diversos papéis centrais nas lendas, da identificação de Moisés enquanto liberador dos hebreus do Egito ao conhecimento de onde José estava enterrado, carregando seus ossos. As lendas dizem que ela viveu por centenas de anos, sendo uma das poucas pessoas a adentrar viva o Jardim do Edén. Para mais, ver: Serah, daughter of Asher: Midrash and Aggadah | Jewish Women’s Archive (jwa.org). Acesso em 14 de setembro de 2023.
[5] Uso a categoria com a grafia “judaico”-cristã, nesse caso, como crítica a normalização do uso de “civilização judaico-cristã” por entender que ela produz uma narrativa anti-histórica que apaga e invisibiliza a história judaica e centraliza-a na Europa/Ocidente Cristão.
[6] Micha, TimTum: a trans Jewish zine, 1999. Disponível em: QZAP – Queer Zine Archive. Acesso em 09 de setembro de 2023.

