A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade

Crise do amadurecimento: Um tour virtual 360 nos fenômenos contemporâneos

Para quem chegou agora ao mundo, a ideia de que as coisas não vão bem é clara e o objeto de ataque em termos de responsabilização é o mundo adulto das tradições ultrapassadas e da falta de comprometimento com as pautas da atualidade recém-descobertas. Pautas estas de suma importância, assim acham, e que visam transformar o mundo de modo radical. No entanto, sabe-se que os projetos idealizados de reengenharia social não são novidade, e que, a cada geração, desde que compramos as ideias humanistas de progresso, existe este embate entre o velho e o novo. A tragédia anunciada é que este embate é cada vez mais pobre e superficial, quando, na maioria das vezes, ainda se sofre da inexistência de embate. A falta de postura dos adultos derivada da unanimidade na crença fundamentalista no progresso e aperfeiçoamento da sociedade vem atropelando o galo, a galinha e, por isso, os pintinhos. O elogio e idolatria ao jovem, a irresponsabilidade adulta e a impossibilidade de envelhecer, ainda que aqui destacados separadamente, compõem uma série associativa interdependente. A série pode ser lida da direita para a esquerda como em português. Também, ao inverso, pode ser lida da esquerda para a direita, como em hebraico. A ordem dos fatores não altera o produto.    

O processo maturacional de cada indivíduo tem como base a qualidade das relações interpessoais. No início as relações são restritas com o ambiente cuidador, mãe e pai, adiante expandida em círculos maiores e de modos mais complexos. O comportamento massificado pelo culto ao novo e, por muito, também promovido pela ciência das descobertas, inviabiliza a tarefa dos pais em constituir-se num ambiente cuidador e provisionar referências firmes, estáveis e sustentadoras ao processo maturacional que culmina na autonomia dos filhos. Quanto mais alienada de pessoalidade e responsabilidade, a parentalidade carece de referências que não sejam externas, portanto, como aponta Frank Furedi (2002), fica paranoide uma vez à mercê dos experts e respectivos critérios sobre o certo e errado na criação dos filhos.  De resto, o próprio comportamento fusionado em massa é expressão dos tropeços no transcurso deste processo maturacional rumo à maturidade plena que significa transitar no mundo a partir de um eixo pessoal. Quando o adulto é maduro, é possível lhe fazer concessões e contribuições à convivência social e a sociedade, mas sem perder a pessoalidade jamais.

Brincadeiras a parte, inverte-se seriamente o sentido da famosa frase do guerrilheiro marxista Che Guevara: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”. Em muito Che Guevara perdeu a ternura promovendo matanças na execução de seu projeto idealista. Continua em alta muito tempo depois de seu desaparecimento da face da terra. Estampado em camisetas é perpetuado como símbolo maior da revolução sul-americana. Por sua vez, aqueles travestidos de revolucionários, só por isto, engrandecem-se existencialmente pelo gesto de demonstração à adesão ideológica. Vestais do bem, pois acreditam piamente no bom e benéfico propósito, seja com camiseta, com cancelamentos, com censura ou com militância explícita, também perpetuam a ausência de qualquer preocupação com o método.  O psiquiatra Dalrymple (2015) em sua crítica cultural privilegia esta temática discutida por muitos outros autores tais como Stefan Zweig. Zweig recorrentemente manifestava inquietação com o que percebia nos meios culturais da época, a saber, a “balconização de nossas mentes e simpatias” (p.129). Quantos dos homens atualmente compreendem os efeitos deletérios causados na liberdade individual por exigência de grandes ou estridentes coletividades?

Parafraseando Nelson Rodrigues, o subdesenvolvimento não é coisa rápida, é resultado de um investimento de muitos anos. De imediato entende-se que em sua faceta de jornalista Nelson estivesse se referindo ao subdesenvolvimento econômico brasileiro, mais do que tangível, e nunca resolvido passado tantos anos de sua morte ocorrida em 1980. De certo que a boemia, o gingado, a tropicália, os dribles do futebol, o humor livre da época sem o politicamente correto, apresentavam um país com grande criatividade, o qual Nelson respeitava. O vira-lata cidadão brasileiro, não o complexado, mas o assumido em sua brasileirice, tem valor em sua obra. Daí sua esperança de que o Brasil emergiria puxado por esta criatividade cultural como potência em meio aos escombros da guerra fria entre as superpotências de então, Estados Unidos e União Soviética.

As superpotências, no entanto, não se dissolveram. (PS: Levará mais algum tempo, pois a dissolução galopante não precisa da guerra fria, mas é visceral. Estão apodrecendo internamente pela escalada da guerra cultural impulsionada pela tecnologia das redes sociais. Infelizmente, a criatividade brasileira também se esvai na importação dos conteúdos e modos comuna-americanos). Mas voltando, lá pelas tantas, adiante em sabedoria, é que Nelson se dá conta de que o subdesenvolvimento do qual fala em sua frase não é só resultado de um barco à deriva, mas de um investimento contínuo para que as coisas permaneçam assim.  Quando o indivíduo não dá para nada, ele resolve ser político. É uma frase lida em algum livro de filósofo esquecido, mas que ecoa pelo diagnóstico sobre a imaturidade emocional. O subdesenvolvimento é fruto de atuações pérfidas conscientes, o inconsciente nisto tudo seria a atitude antissocial oculta destas atuações. A carência com poder. Ou seja, mais uma vez, como disse o filósofo Burke sobre Rousseau, sobressai-se na sociedade aquele tipo de homem que ama a humanidade, mas detesta seu semelhante. Nas palavras de John Gray, (2013, p.137)

“A média da humanidade leva seus salvadores muito pouco a sério para precisar ser salva por eles. Seus ‘salvadores faz-de-conta’ precisam mais dela do que ela deles. Quando busca seus libertadores, é para distração, não salvação”.

Assim que o Brasil país do futuro continua sendo conjugado, mais como esforço de cheerleading político, politiqueiro e interesseiro, do que da efetiva crença de seus cidadãos comuns. Não vai só neste caminho rumo ao abismo. Um tour virtual 360 pelo mundo descobre países parceiros. A política inconvincente em atuações entre destrambelhadas, populistas e sanguinárias, entronaram a ciência como salvadora da pátria.

O futuro em visão macroscrópica da sociedade se costura no presente, que é continuidade do passado. Entende-se pela ótica sociológica de Winnicott (2005) que a sociedade é o somatório de indivíduos. Poderia ser dito de modo analógico que, a linha temporal maturacional de uma sociedade segue em paralelo com o somatório da linha temporal maturacional dos indivíduos que a compõe. Como entendido por Winnicott, uma sociedade saudável se apoia em maioria de indivíduos saudáveis. Na visão microscópica sobre o indivíduo, o vir a ser do desenvolvimento maturacional depende das condições ambientais suficientemente boas e contínuas quanto fundantes dos recursos alcançados no hoje em continuidade crescente. Sem alcançar com sucesso os recursos iniciais na travessia do percurso maturacional, o indivíduo fica impedido de chegar à plenitude realizável dos desdobramentos potenciais pertencentes à espécie que acabam incidindo na qualidade da sociedade. Se subdesenvolvimento econômico é precariedade estrutural de base, imaturidade é precariedade estrutural pessoal. 

O berço comum de todos é a família. Família continua sendo a instituição que com maior naturalidade afetiva pode se dispor a cuidar do filho e, desta forma, prover o ambiente propício em cuja atmosfera se processa a humanização da pessoa. Há muito a família tem sido alvo de ataques constantes e inconsequentes pela Intelligentsia. A elite inteligente aposta que as exceções, os não suficientemente bons lares, são a maioria. A família tradicional, para tal elite, seria responsável por toda a miséria da existência humana. Afinal seria o exército de profissionais do mercado da saúde privada ou pública a dar conta das demandas naturais do cotidiano envolvidas no processo maturacional? Então, se a resposta logicamente é negativa, o apoio a família é imprescindível. Pois, como diz Dalrymple (2015, p.50)  , “Descobri que a única coisa pior que ter uma família, é não ter uma família.” Como cronista de costumes que foi, Nelson Rodrigues (2006) inclui-se numa grande lista de pensadores que observaram os males fenomenais de sua época e intuíram o recrudescimento da imaturidade como um  fator contínuo ao qual devia se prestar atenção. Sua obra fala das idiossincrasias existentes na família, sem que com isto, apostasse em sua extinção em prol do bem comum. Expunha-a ao avesso, mostrando as mazelas inerentes a uma natureza humana rica em suas imperfeições. Suportar imperfeições e se reconhecer como portando imperfeições, no que diz respeito à autoconsciência de ter elementos bons e ruins em eterno conflito dentro de si mesmo é uma característica da maturidade. Tudo que é da ordem da perfeição ou da demanda por perfeição obsessiva significa onipotência, ou seja, fruto do narcisismo. No mais, quem demanda por, está pedindo ao ambiente para que se transforme, enquanto o si mesmo em nada precisa contribuir, apenas receber. Uma projeção maciça dos elementos ruins no outro expressa má administração dos conflitos internos. Uma limpeza que qual vômito emporcalha o ambiente para se livrar do mal-estar. Daí o perigo, pois vive em busca de um bode expiatório.

Jean Twenge (2018) e Jonathan Haidt (2024) que o digam! Orientaram seus esforços em mapear cronologicamente e trazer estatisticamente dados a respeito da geração Z e suas dificuldades de participar num mundo por eles sentido como inseguro. Em crise constante, a juventude na puberdade e adolescência, na faixa 12-18 anos, sofrem de elevados índices de ansiedade e depressão. Estas taxas crescentes também importam em aumento na taxa de suicídios. Vindos da psicologia social amparados por teoria comportamental cognitiva e psicologia positiva, ambos autores apostam que as mudanças se devem à introdução e uso crescente da tecnologia que compreende desde o smartphone até a todos os outros Is: Iphone, Ipad, e assim por diante. No entanto, é preciso considerar que os usos da tecnologia estão na matriz de costumes da sociedade. O movimento em busca de segurança crescente por parte dos pais incidem na materialização de medidas de controle na criação dos filhos. Reconfigurações no cotidiano dos jovens são consideradas medidas imprescindíveis para garantir a segurança deles diante de um mundo perigoso. A tecnologia não acontece no vazio, mas sim vem preencher uma necessidade. Apesar de tudo que se conquistou em termos de amparo à segurança pela ciência, tecnologia e conhecimento, as gerações apresentam-se menos seguras. Seria isto uma falta tecnológica ou de outra ordem? John Gray (2013, p.31) afirma categoricamente: “O progresso técnico deixa apenas um problema a resolver: a fraqueza moral da natureza humana. Infelizmente esse problema é insolúvel”.

Com o aporte da perspectiva de Winnicott sobre o processo de amadurecimento emocional o grupo de pesquisa “A crise do Amadurecimento na Contemporaneidade” faz a leitura e análise neste tour 360 dos fenômenos contemporâneos. A discussão acolhe as múltiplas facetas desta natureza humana em seus modos de ser e comportamentos conscientes e inconscientes nas relações de mutualidade e de intercâmbio com o ambiente. Nenhum homem é uma ilha, muito menos autossuficiente. Os pensadores aqui presentes fazem parte, entre outros mais, de interlocuções entre os conceitos winnicottianos e outros saberes com objetivo de enriquecer e melhor compreender a atualidade.

Referências bibliográficas

DALRYMPLE,  T. (2015) Nossa cultura ou o que restou dela. São Paulo, É realizações Editora, 2015.

FUREDI, F. (2002) Paranoid Parenting: Why ignoring the experts may be best for your child. Chicago, Chicago Review Press, 2002.

GRAY.J. (2013) Cachorros de Palha. Rio de Janeiro, Editora Record ltda, 2013.

HAIDT, J. (2024) A Geração Ansiosa: Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais. São Paulo, Editora Schwarcz S.A., 2024.

RODRIGUES, N. (2006) A vida como ela é. Rio de Janeiro, Editora Agir, 2006.

TWENGE, J. M. (2018) I Gen: Por que as crianças superconectadas estão crescendo menos rebeldes, mais tolerantes, menos felizes e completamente despreparadas para a idade adulta. São Paulo, Editora nversos, 2018.

WINNICOTT, D.W. (2005) Algumas reflexões sobre o significado da palavra Democracia. In: Tudo começa em casa. São Paulo, Martins Fontes Editora, 2005.

Imagem gerada por IA

Sobre o autor

Danit Zeava Falbel Pondé

Psicanalista, mestre e doutora em filosofia da psicanálise, professora e supervisora no Instituto Brasileiro de Psicanálise Winnicottiana (IBPW) e coordenadora do grupo de pesquisa A Crise do Amadurecimento na Contemporaneidade no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – LABÔ.